O ‘jogo limpo’ no esporte: uma conduta que merece prêmio – Parte I

Por Marcelo Cardoso

Faltam cerca de seis meses para o início dos Jogos Olímpicos de Tóquio e, ao que tudo indica, haverá grandes disputas permeadas pelo gostinho da retomada e pela explosão da alegria após mais de um ano sob uma pandemia mundial. Os atletas poderão vir “com a faca entre os dentes”, expressão que indica o espírito de muitos competidores que se prepararam fortemente para a olimpíada em 2020, mas tiveram que adiar os seus sonhos.

Entre julho e agosto deste ano será o momento de provarem que são os melhores, porém, é preciso segurar o ímpeto e lembrar que existem regras que vão além dos livros e dos manuais. O que popularmente se chama de “espírito esportivo” é algo levado a sério em uma competição olímpica e que está ligado ao conceito de fair play.

Definimos “espírito esportivo” como “atitude cavalheiresca dos praticantes esportivos, disciplinadamente aceitando as regras, mantendo a generosidade com os adversários e respeitando todos os outros protagonistas das competições em que estão envolvidos (…)”, segundo explica o professor Manoel José Gomes Tubino (1939 – 2008), importante referência na área do desporto e da educação física no Brasil.

As premissas também abrangem os atletas e demais envolvidos fora do palco das competições, ou seja, durante a convivência em sociedade. O fair play complementa esta filosofia e prega, por exemplo, que o atleta deve se basear no respeito a si mesmo e aos árbitros (sim, também merecem todo o respeito!).

Ambos os termos são conhecidos por “jogo limpo no esporte” e estão na essência dos princípios idealizados pelo organizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin. Atletas que usam substâncias proibidas, por exemplo, contrariam as proposições do fair play: investem contra o próprio corpo, os demais competidores e a organização do evento, o que provoca mais desrespeito: para com o público.

Fair play e espírito esportivo estão na essência do ideal olímpico do Barão de Coubertin

Curiosamente parte do termo fair play é originária da Idade Média, aquela onde teve início a Inquisição, famosa por promover perseguições contra quem se desviava das normas da antiga Igreja Católica. O termo inglês “fairs” se relaciona aos mercados que se estabeleciam durante festas da época. Os mercadores desenvolveram ao longo do tempo um código de ética próprio para o comércio, apoiados “em manifestações de honestidade, cavalheirismo, respeito e outros valores importantes”, segundo esclarece Tubino.

Boas práticas esportivas incentivam o ‘jogo limpo’ e recebem troféus

Para incentivar as boas condutas em competições esportivas pelo planeta surgiram vários prêmios individuais e coletivos anuais. O objetivo é premiar quem se destaca nestes aspectos em diferentes frentes como atletas, equipes, jornalistas e pessoas ou organizações envolvidas com o esporte.

Entre as premiações mais importantes estão: Troféu Fair Play Fifa, no futebol; Medalha Pierre de Coubertin, entregue pelo Comitê Olímpico Internacional após uma olimpíada; quatro troféus mundiais concedidos pelo Comitê Internacional de Fair Play: Pierre de Coubertin, Jean Borotra, Willi Daume e Fair Play para a Juventude (para atletas juniores).

Na próxima coluna “Espírito Esportivo” você conhecerá mais sobre alguns brasileiros que receberam honrarias por atos de fair play e de boas práticas dentro e fora de competições olímpicas. Um deles, pelo menos, deverá te surpreender.

Para conhecer mais:

CARDOSO, Marcelo; CAMPOS, Anderson Gurgel. O fair play no jornalismo esportivo: Um estudo sobre a cobertura do jornal “Folha de S. Paulo” nos Jogos Olímpicos Rio 2016. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (2017). Disponível em: http://sbpjor.org.br/congresso/index.php/sbpjor/sbpjor2017/paper/view/849. Acesso em: 12 jan. 2021.

INTERNACIONAL Fair Play Committee, 2017. Disponível em: http://www.fairplayinternational.org/home. Acesso em: 14 jan. 2021.

RUBIO, Katia. O imaginário esportivo contemporâneo: O atleta e o mito do herói. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

SILVA, Leandro Pereira; GUTERMAN, Tulio. O fair play no esporte: um comportamento natural ou condicionamento? EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, ano 20, nº 211, 2015. Disponível em: https://www.efdeportes.com/efd211/o-fair-play-no-esporte-comportamento-condicionado.htm. Acesso em: 12 jan. 2021.

TUBINO, F. M.; GARRIDO, F. A. C.; TUBINO, M. J. G. Dicionário Enciclopédico Tubino do Esporte. Rio de Janeiro: Senac, 2007.

Marcelo Cardoso é jornalista e professor universitário. Pesquisa o jornalismo, o rádio e o podcast em suas várias interfaces com o esporte – contato: Facebook, Instagram @cardosomarcelo68 e Twitter @MCardoso68