O método Big Ben Clock de jornalismo

Por Sergio Quintanilha

O método Big Ben Clock de jornalismo não está em nenhum programa universitário. Mas deveria. Trata-se de um método muito simples, que consiste em informar muito e não opinar nada.

Num mundo polarizado em que as opiniões são abundantes, seguir o método Big Ben Clock pode diferenciar um jornalista especializado – não importa muito a área. Cabe no jornalismo esportivo. Vamos ao método.

A primeira lição é entrar no Twitter: www.twitter.com. Ter um perfil no Twitter é o mínimo que se espera de um bom jornalista hoje em dia. Se for ativo, melhor ainda. Mas pelo menos estar no Twitter – rede social escolhida pelos presidentes dos EUA e do Brasil, pelo Papa da Igreja Católica, pelos principais jornalistas políticos, econômicos e esportivos, bem como pelos maiores clubes de futebol e equipes de Fórmula 1 – é fundamental para estar bem informado e dialogar diretamente com seu público.

O perfil Big Ben, como o nome diz, é relacionado ao famoso relógio Big Ben de Londres, capital da Inglaterra. O Big Ben entrou no Twitter em novembro de 2009. Tem 427,7 mil seguidores e não segue ninguém. Ao longo desses 11 anos, o Big Ben postou 90,6 mil tweets. Seu engajamento é ótimo, com muitas curtidas e compartilhamentos.

Mas, cuidado! Devido ao sucesso, o Big Ben foi copiado e imitado. O verdadeiro Big Ben que a comunidade do Twitter ama deve ser acessado pelo perfil @big_ben_clock. O Big Ben tem uma mensagem em inglês que diz o seguinte: “O primeiro, estabelecido em novembro de 2009 e totalmente não oficial. Detalhes de direitos autorais aqui: http://tinyurl.com/ylqbey3, mas ainda aparentemente imitado em todos os lugares”.

O Big Ben não tem amigos, tem seguidores. Sua relação com a fonte, o próprio relógio da torre, é fria. Porém, confiável.

A segunda lição é a qualidade da informação. Se o Big Ben diz, todos acreditam. Ele construiu essa credibilidade porque informa corretamente o que as pessoas gostariam de saber. Todos os posts do Big Ben são curtos e diretos:

BONG
BONG BONG
BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG
BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG

O Big Ben poderia dar opiniões? Claro que sim! Poderia dizer: “BONG BONG BONG BONG BONG. São 5 da tarde e está na hora do chá!” Muitos gostariam, mas nem todos. Se dissesse que era hora do chá, o Big Ben poderia ser contestado: “Não tomo chá!” ou “prefiro café com leite” ou ainda “não tenho tempo para isso”.

Também poderia dizer: “BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG BONG. Meia-noite! Feliz Ano Novo!” Isso abriria espaço para muitos contestarem: “Moro em Oz (Austrália, para os ingleses), você está atrasado!” Ou ainda: “Estou no Brasil e aqui ainda estamos no mesmo ano, você está adiantado”. Um simples comentário, como se vê, pode colocar a informação em dúvida e pôr à prova a credibilidade do jornalista.

Terceira e última lição: informe mais e opine menos. Não é proibido opinar, mas você deve fazê-lo somente quando for necessário e sempre embasado por dados ou fatos. Há muitos momentos no jornalismo em que a opinião é necessária, mas na maioria dos casos atende muito mais a uma vaidade do jornalista do que a uma necessidade do leitor. Especialmente no jornalismo esportivo, não é fácil apenas informar. Mas vale a pena tentar.

Depois de muito tempo (talvez anos), quando você já tiver construído uma credibilidade, pode informar e opinar  – mas sempre tomando cuidado para não distorcer a verdade factual. No site Parabólica, canal do portal Terra especializado em Fórmula 1, das 10 matérias mais lidas, 9 são informativas, apesar de a proposta editorial ser de análises e opiniões. São análises com informação, portanto.

Vale a pena usar o método Big Ben Clock de jornalismo ao longo da carreira. O jornalista de maior sucesso é aquele que não deixa dúvidas sobre o que está informando, assim como faz o Big Ben no Twitter, a cada hora, há mais de 11 anos. Portanto, são quase 90 mil tweets informativos – e nenhum deles contestado.

Quando o Big Ben diz BONG BONG BONG BONG, todo mundo sabe que são 4 horas, quando diz BONG BONG BONG, todos sabem que são 3 horas. Em mais de 11 anos, o Big Ben nunca publicou uma errata ou um pedido de desculpas no Twitter.

BONG!

P.S: quero acrescentar que o Big Ben é um robô e isso deve ser considerado. Não seja um robô na sua carreira, permita-se ter um olhar que, ocasionalmente, o leve a cometer erros. Se errar, corrija. Somente sociedades fascistas buscam cidadãos “perfeitos”.

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio