Parabólica: uma experiência “socialista” de jornalismo

Por Sergio Quintanilha

Uma oportunidade surgiu: o portal Terra me ofereceu um canal para fazer uma abordagem de automobilismo que fugisse do que chamamos de “hard news”, ou seja, o acompanhamento de todas as notícias do setor. A ideia foi aceita. Por meio dela, começamos a fazer uma experiência, digamos, “socialista” de jornalismo.

Como é comum em casos de parcerias entre portais de internet e veículos de mídia, ou mesmo entre o YouTube e seus colaboradores, não existe um pagamento fixo por matéria ou por mês. Não há nenhum tipo de compromisso com horas trabalhadas ou produção realizada. Funciona assim: se postar e tiver faturamento em publicidade, uma parte da receita fica com o produtor de conteúdo.

Não é o caso de discutirmos aqui se essa fórmula é justa ou injusta. Mas sim de analisar de que forma decidimos criar e desenvolver o canal Parabólica. O nome se refere à famosa Curva Parabólica do Autódromo de Monza, na Itália. Mas também faz uma referência subliminar à antena parabólica, que capta sinais não percebidos pelo sistema comum. O logotipo foi criado pelo designer PictoMonster e mostra o traçado da Curva Parabólica com duas linhas verticais formando um “P”.

Logotipo do canal Parabólica: criação do designer PictoMonster.

Já sabendo de antemão que não havia garantia de ganho financeiro para iniciar o site, fui em busca de profissionais que tivessem essa capacidade de enxergar profundamente as coisas do automobilismo. Jornalistas que poderiam trazer análises explicando não apenas “o que” aconteceu, mas principalmente “por que” aconteceu este ou aquele fato.

Lito Cavalcanti, um dos jornalistas mais experientes e talentosos na área de automobilismo, foi o primeiro nome confirmado. Para além de ter tido uma larga experiência no Sportv, da  Globo, Lito estava desenvolvendo seu próprio canal de automobilismo no YouTube e é uma verdadeira enciclopédia no assunto. Lito tem a capacidade de analisar as corridas não apenas pelo ponto de vista da pilotagem, mas também das questões técnicas dos carros.

Alessandra Alves, comentarista de Fórmula 1 da Rádio Band News FM, confirmou sua participação apenas uma hora depois de Lito. Os dois foram convidados ao mesmo tempo. Aqui estamos falando de uma jornalista mulher numa área que, muitos anos atrás, era território masculino. Alessandra é mais conhecida por seus comentários na rádio, mas ela também é dona de um texto incrível que sempre leva o leitor a pensar “fora da casinha”. Costumo chamá-la de Alexandra Alves, a Essencial.

Roberto Moreno dá uma entrevista ao vivo para Lito Cavalcanti, Alessandra Alves e Sergio Quintanilha no portal Terra.

Mais tarde se juntou ao grupo a jornalista Priscila Cestari. Com muita experiência em reportagem de televisão e também com grande capacidade para produzir textos acadêmicos, que “amarram” bem toda a história, Priscila escrevia sobre Fórmula 1 apenas em sua página no Facebook. No Parabólica, Priscila usa seus talentos para experimentar a reação do público num site de portal generalista, ou seja, fora de sua “bolha” da rede social.

Da minha parte, entrei com a experiência de ter sido editor de duas revistas especializadas em automobilismo (Grid e Racing) e também de ter feito coberturas de Fórmula 1 na revista Quatro Rodas. Além do mais, graças ao Guia do Carro (também parceiro de conteúdo do portal), tenho familiaridade com o publicador do Terra, com acesso rápido aos números de audiência etc.

O site começou em outubro de 2020, já na reta final do Campeonato Mundial de Fórmula 1. Sabíamos que estávamos começando numa hora em que as coisas já iam avançadas e que não seria fácil construir uma audiência, especialmente porque os meses de janeiro, fevereiro e março (quase inteiro) não teriam corrida. Nesse período, também pudemos contar com a colaboração de um jovem jornalista carioca, João Henrique de Oliveira, que fez um “estágio” de três meses, quase como uma extensão de seu curso de jornalismo.

Estamos completando quase seis meses com o Parabólica. Nesse período, acumulamos 1,3 milhão de visualizações e atingimos 683 mil usuários (leitores). O tempo médio de permanência na página é de 6min39s, um indicativo de que as matérias são lidas. Cada leitor visita em média 1,3 página por sessão. A audiência vem principalmente da plataforma “mobile” (85,2%), seguida do desktop (13,9%) e alguma coisinha do tablet (0,9%). Segundo o Google Analytics, 86,7% são homens e 13,3% são mulheres. Nos dois sexos, a maioria dos leitores tem entre 25 e 34 anos, seguida da faixa de 35 a 44 anos. Mas há leitores de todas as faixas etárias.

Live do primeiro GP da temporada 2021, com Lito Cavalcanti, Priscila Cestari e Sergio Quintanilha.

O faturamento ainda é pequeno. Não dá para viver dele. Isso porque não temos um patrocinador. Toda a publicidade é arrecadada na forma de anúncios programáticos, via Google e outras agências compradoras de mídia. É um sistema cruel para muitos produtores de conteúdo, pois só com milhões de views é possível ter um bom faturamento. Nossa divisão de receitas é feita da seguinte forma: cada um recebe pelo tanto que produziu. Pensamos em fazer uma distribuição por audiência, mas isso seria dificílimo de controlar e nem seria justo. Uma matéria com pouca audiência pode dar um trabalho maior do que uma com grande audiência.

No Parabólica, valorizamos não apenas as matérias que “bombam”, mas também as que contribuem para o saber automobilístico. Assim, a divisão do pouco que recebemos é feita da seguinte forma: se publicamos 20 matérias e uma pessoa fez 10 postagens, ela tem direito a ficar com 50% do que o site faturou. Se os quatro jornalistas fizeram 5 postagens cada um, então a divisão é feita na base de 25% para cada um. Mas, claro, queremos ganhar dinheiro com o site, por isso também buscamos um crescimento da audiência.

Não há cobrança sobre postagens. Tentamos fazer pelo menos um texto por semana cada um, mas nem sempre é possível. Também não é problema se alguém quiser postar várias vezes durante a semana. Atualmente fazemos textos autorais e também lives após as corridas de Fórmula 1. Para além disso, conseguimos que o Terra liberasse o link dos vídeos que Lito Cavalcanti faz no YouTube, em seu próprio canal.

Aprendemos diariamente sobre os melhores horários e dias para postar, quais são os temas mais interessantes para os leitores e quais são as palavras-chaves relevantes. Na internet, tudo isso é importante. Nossa experiência “socialista” de jornalismo é uma pequena semente. Mostra que, ao invés de quatro pessoas fazerem o mesmo conteúdo, a união de talentos e experiências pode resultar numa espécie de “redação” desses novos tempos sem emprego fixo e/ou carteira de trabalho assinada. Chamamos o Parabólica de “experiência socialista de jornalismo”.

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio