O rugby da Nova Zelândia e o Haka

Por Marcelo Cardoso

Durante os Jogos Olímpicos de Tóquio os torcedores poderão assistir a um espetáculo diferente antes das partidas de rugby que envolverem a Nova Zelândia, país da Oceania. Já classificados para o Torneio Olímpico de Rugby Sevens, cujas equipes contam com sete jogadores em campo, os neozelandeses estão entre as melhores seleções masculinas e femininas do mundo.

O rugby foi disputado nos Jogos Olímpicos de Paris (1900 e 1924), de Londres (1908), de Antuérpia (1920) e voltou a ser modalidade olímpica no Rio de Janeiro (2016). 

A seleção de rugby da Nova Zelândia é chamada de All Blacks e ficou conhecida por sua qualidade e suas performances realizadas antes de cada partida. Os seus jogadores executam o haka, uma espécie de dança ou desafio derivado dos maoris, povos indígenas nativos do país.

As tribos maoris – etnia procedente das ilhas polinésias, no Oceano Pacífico – têm os seus próprios hakas que servem como invocação dos deuses, um chamado de guerra que, também, tem a função de amedrontar os seus inimigos. É uma expressão da própria cultura dos povos antigos neozelandeses.

E se você já assistiu a um jogo dos “All Blacks”, observou que antes de começar, os seus atletas se reúnem e fazem caretas, mostram a língua, realizam gestos e gritam enquanto executam a dança ritual invocando seus ancestrais. No passado o haka era executado tanto em ocasiões de guerra, quanto em reuniões em tempos de paz.

O ritual no rugby serve para preparar o espírito dos guerreiros e desafiar os adversários ao mostrar sua força e, em certa medida, a agressividade. É, ainda, uma forma de honrar o oponente e preservar a cultura maori. Trata-se de um mergulho profundo na história e nos costumes de um povo.

O haka atual é conhecido por Ka Mate cujo tema aborda a história de um chefe de uma tribo que escapou com vida da perseguição de guerreiros rivais, graças à ajuda e à coragem de desconhecidos que o ajudaram.

Haka: um mergulho profundo na história e nos costumes de um povo (foto: Creative Commons)

O haka também é das mulheres

Apesar de a seleção masculina da Nova Zelândia aparecer mais na mídia internacional executando o haka durante jogos olímpicos e em mundiais, a equipe feminina pratica frequentemente a dança-ritual. O Black Ferns, time feminino de rugby, realiza um haka chamado de Ko Uhia Mai.

A equipe Black Ferns e o haka chamado de Ko Uhia Mai (Foto: Twitter)

As origens

A força que acompanha as seleções neozelandesas vem de 1888, quando uma equipe formada por jogadores maoris foi montada para excursionar pelo Reino Unido. O grupo não era conhecido por All Blacks, mas foi o primeiro a utilizar o haka antes de começarem os jogos e, também, a usar o uniforme preto que viria a justificar, mais tarde, o nome do time.

No início do século 20 outra equipe de rugby da Nova Zelândia fez sucesso na Europa ao se tornar quase invencível: os Original All Blacks. A seleção era formada por trabalhadores de diversos setores e níveis sociais do país e realizou uma campanha heroica em 1905.

A excursão internacional terminou com 35 partidas disputadas, 830 pontos marcados e somente 39 pontos cravados pelos adversários. Durante a turnê a equipe atuou contra times de várias regiões do Reino Unido e, depois, enfrentou as seleções da Escócia, Irlanda, País de Gales, Inglaterra, França e jogou na América do Norte. Perderam apenas para o País de Gales.

O haka era executado apenas em jogos fora de casa, mas a partir de 1987 começou a ser realizado também em partidas dentro da Nova Zelândia.

O ritual serve para preparar o espírito dos guerreiros e desafiar os adversários. É, também, uma forma de honrar o oponente e preservar a cultura maori (foto: Creative Commons)

A importância dos All Blacks na Nova Zelândia

O rugby tem para a Nova Zelândia a mesma importância que o futebol tem para o Brasil. A questão é cultural e está presente em todo o território. O sonho de ser um jogador de rugby dos All Blacks é comparável ao dos meninos e das meninas brasileiras de se tornarem ídolos no futebol nacional.

A seleção tem os maiores recordes e títulos da modalidade em nível mundial. A equipe é a própria encarnação deste esporte no país. No portal oficial dos All Blacks a apresentação da equipe mostra a força própria do haka:

Os All Blacks são a equipe de rugby masculino de maior sucesso internacional de todos os tempos com uma porcentagem de vitórias de 77,41% dos 580 jogos entre seleções de 1903 a 2019

A estrutura de escolas, clubes e universidades já é própria para facilitar a formação e o interesse dos jovens pela modalidade, o que torna ainda mais forte o processo de surgimento de novos craques.

Para conhecer mais:

All Blacks. About the team, 2021. Disponível em: https://www.allblacks.com/teams/all-blacks/. Acesso em: 04 abr. 2021.

All Blacks. The Haka, 2021. Disponível em: https://www.allblacks.com/the-haka/. Acesso em: 02 abr. 2021.

100% pure New Zealand. O Haka, s/d. Disponível em: https://www.newzealand.com/br/feature/haka/. Acesso em: 04 abr. 2021.

El País. Conheça o significado do ‘haka’, a dança tribal maori que virou símbolo dos All Blacks. (Pablo Cantó), 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/19/cultura/1508405168_363160.html. Acesso em: 03 abr. 2021.

Portal do Rugby. O Haka, 2011. Disponível em: https://www.portaldorugby.com.br/noticias/fora-de-campo/noticia-2793. Acesso em: 03 abr. 2021.

World Rugby. Haka! New Zealand perform haka after winning the Women’s Rugby World Cup. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uzg4rJJNX30. Acesso em: 04 abr. 2021.

Marcelo Cardoso é jornalista e professor universitário. Pesquisa o jornalismo, o rádio e o podcast em suas várias interfaces com o esporte – contato: FacebookLinkedIn, Instagram @cardosomarcelo68 e Twitter @MCardoso68