Baby Barioni #115 – Dez curiosidades sobre o criador dos Jogos Abertos do Interior

Por Gustavo Longo

Estivesse vivo, Baby Barioni completaria 115 anos nesta quarta-feira, 19 de maio de 2021. As pessoas o conhecem como o criador dos Jogos Abertos do Interior, hoje a maior competição poliesportiva no estado de São Paulo e certamente o maior celeiro de atletas do país. Contudo, ele foi muito mais do que isso. Era, antes de qualquer definição, um grande promotor esportivo, incentivando e organizando eventos em todos os cantos do país.

Falar da importância de Horácio Barioni no desenvolvimento do esporte em cidades menores do interior de São Paulo chega a ser redundante para esta coluna. Escrevi bastante sobre o assunto em seu aniversário de morte em 6 de novembro de 2020. É inegável que trata-se de um personagem ímpar no esporte brasileiro e sua biografia precisa ser resgatada para melhor compreensão. Confira algumas das principais curiosidades sobre ele:

#1 – Apelido é mistério até para a família

Seu nome completo é Horácio Geraldo Barioni, mas o apelido Baby o acompanha desde a infância, no início do século 20. O motivo para a alcunha, contudo, é incerto. Em depoimento a este jornalista, sua filha mais nova, Edna, comentou que não se recorda da origem. Também não há relatos em jornais da época.

A teoria mais aceita: era chamado de baby (bebê, em inglês) por ter um porte físico mais forte do que as outras crianças. Com o tempo, adotou “babi”. Aliás, apelido nunca foi problema para Barioni. Quando atleta, era chamado de “Toro de los pampas”, uma homenagem a Luis Firpo, pugilista argentino famoso na década de 20 e dono desta expressão.

Reprodução de uma das últimas fotografias de Baby Barioni – Crédito: Arquivo Pessoal Edna Barioni

#2 – Pioneiro do basquete paulista

O primeiro campeonato paulistano de basquete aconteceu em 1925 e Baby Barioni estava entre os pioneiros. Ele sempre foi um grande incentivador da modalidade e ajudou na criação da equipe do Palestra Italia que dominou o esporte no estado no fim da década de 1920 e início de 1930 – com ele como pivô titular.

Tanto envolvimento o fez empreender um sonho literário. Em 1934, solicitou ajuda dos jornais para escrever o livro “Coisas do Cestobol”, que contaria a história do basquete paulista entre 1925 e 1934. Diversas notícias traziam seu apelo aos atletas e ex-atletas que pudessem ter fotos e scouts das partidas. Infelizmente, não há registro de que a obra tenha sido publicada.

#3 – Irmão fez carreira no interior paulista

Baby Barioni nasceu e cresceu na cidade de São Paulo, mas se destacou por defender os interesses do interior paulista com os Jogos Abertos. Entretanto, antes mesmo dele iniciar essa caminhada, outro membro de sua família fez carreira em cidades do estado: Walther Barioni, seu irmão mais velho.

Não se trata de um esportista, mas de um educador. Walther atuou como jornalista e pedagogo, trabalhando em escolas nas cidades de Santa Rita do Passa Quatro e Jaboticabal – nesta última, ele dá nome a uma instituição de ensino atualmente. Além disso, é patrono da cadeira 40 da Academia Paulista de Psicologia.

#4 – Proximidade com modernistas

Os filhos da família Barioni eram amigos próximos dos modernistas Menotti Del Picchia e Cassiano Ricardo. Walther, o mais velho, participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922 – um marco no cenário artístico brasileiro. Baby, que na época tinha 16 anos, acompanhou o evento de longe, mas se interessava pelos passos dos dois. 

Chegou a publicar uma crônica na revista “A Cigarra”, que tinha Del Picchia como editor. Anos depois, quando finalmente tirou a ideia dos Jogos Abertos do Interior do papel, recorreu aos dois amigos para ter apoio na organização. O Movimento “Bandeira”, criado pelos modernistas, apoiou as duas primeiras edições da competição, em 1936, na cidade de Monte Alto, e em 1937, em Uberlândia.

#5 – Exímio desenhista

A aproximação da família Barioni com os modernistas não foi por acaso. Baby e seus irmãos tinham grande predileção artística. Além de trabalharem como cronistas em jornais da época (quase que obrigatoriedade para quem desejava ser escritor), eles possuíam um grande hobby: a pintura de quadros.

Horácio Barioni, inclusive, era um exímio desenhista. Ele pintava quadros (alguns pendurados na casa de sua filha Edna quando a visitei antes da pandemia de covid-19) e, para ganhar algum dinheiro extra, desenhava vitrines e frentes de lojas na capital paulista e em cidades do interior. Além disso, os primeiros cartazes dos Jogos Abertos do Interior eram de sua autoria.

#6 – Candidatura a deputado estadual

Baby Barioni era extremamente crítico ao regime centralizador no Estado Novo, de Getúlio Vargas. Quando a democracia voltou ao país, em 1946, escreveu crônicas para protestar contra diversas situações, sobretudo a Lei 3.199/41 que, entre outras coisas, proibiu o desenvolvimento do esporte feminino e criou uma estrutura administrativa única entre as entidades esportivas.

Tal fato o fez tentar a sorte na política em 1950. Foi candidato a deputado estadual na eleição daquele ano pelo Partido Libertador (que defendia o parlamentarismo). Sua fama no cenário esportivo, porém, não foi suficiente. Com 206 votos, ficou longe de uma das vagas na Assembleia Legislativa.

Relato de Baby Barioni como atleta de basquete do Palestra Itália

#7 – Amor à primeira vista criou Jogos Abertos

Monte Alto e Baby Barioni estão entrelaçados na história para sempre por organizarem a primeira edição dos Jogos Abertos do Interior. Mas se não fosse uma obra do acaso, ele jamais saberia desse interesse montealtense. Foi um amor à primeira vista que tirou a competição do papel.

Em 1936, Barioni rodava cidades do interior para promover o basquete e estava de passagem em Monte Alto a caminho para São José do Rio Preto. Foi quando avistou a jovem Esther Ferreira. Rapidamente se encantou por sua beleza e, deliberadamente, perdeu o trem para conhece-la. O pernoite na cidade o fez apitar um jogo da modalidade e conhecer Manuel Carvalho de Lima, presidente da Associação Atlética Montealtense. Contou ao dirigente sobre seu projeto e o resto é história.

#8 – Filha antes do casamento

A história de amor entre Baby Barioni e Esther floresceu. Eles se casaram ainda na década de 1930 e ela esteve a seu lado até sua morte, em 1967. Da união nasceu Edna Barioni em 1941, na cidade de São Carlos, onde ele treinava a equipe de basquete local. Mas antes mesmo de conhecer sua esposa e constituir sua família, ele já tinha outra filha.

Aurea Magda Barioni nasceu em 1935, fruto de um relacionamento entre Horácio Barioni e Durvalina Pereira quando eles eram solteiros. É de se imaginar a polêmica que um filho fora do casamento tinha na década de 1930! Mas ele não fugiu de sua responsabilidade como pai, inclusive a levando para morar com sua mulher e a meia-irmã na década de 1940.

#9 – Valorização da educação, mas nem tanto do esporte

Baby Barioni tinha algumas ideias bem progressistas em sua trajetória. Numa época em que as mulheres eram educadas para cuidarem do lar, ele fez questão de promover a educação e a carreira profissional de suas duas filhas. Ambas estudaram e trabalharam em toda a vida. Aurea Magda era funcionária pública no Hospital das Clínicas; Edna exerce advocacia até hoje.

Curiosamente, esse apoio na educação não se refletia no esporte. Ele não fazia questão delas competirem em atividades esportivas. Edna Barioni, por exemplo, treinava vôlei e chegou a pedir para participar de algumas edições dos Jogos Abertos do Interior. Mas seu próprio pai chegou a recomendar que ela não competisse.

#10 – Mágoa com dirigentes paulistas

Filho de italianos que chegaram ao Brasil no fim do século 19, Baby encarnava o estereótipo de “temperamental” que muitos descendentes do país europeu carregavam. Ele realmente não levava desaforo para casa, nem quando era atleta e tampouco quando passou a ser dirigente. Discutia e defendia seus pontos de vista com fervor em artigos nos jornais – em alguns casos, fora das páginas também!

Dessa forma, nunca escondeu a mágoa que tinha com dirigentes paulistas por conta da organização dos Jogos Abertos do Interior. A visão era conflitante: enquanto ele desejava expandir o evento a cidades de todo o país, o governo estadual buscava limitar a participação entre os atletas paulistas. Nos últimos dez anos de sua vida, ele ficou de fora da competição que ele mesmo criou.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e Mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP