Uma crônica de William Aguiar Guilherme

A crônica que segue é de autoria de William Aguiar Guilherme que cursou a especialização em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Universidade Anhembi-Morumbi (SP). Dentro do objetivo de compartilhar experiências pedagógicas entre docentes e alunos, o professor Marcelo Cardoso reproduz o texto redigido pelo estudante e que foi uma colaboração voluntária e gratuita com o nosso espaço destinado à produção universitária.

De Peito Aberto

Por William Aguiar Guilherme

O entardecer se faz presente em mais um domingo na capital paulista. Em mais um dia corrido como um “flash” as cores do céu vão se apagando à medida que a noite vai chegando vagarosamente na cidade. O garoto vai caminhando sozinho, no sentido da Avenida Pacaembu. Já são quase seis da tarde e o frio acompanha a noite, assim como o atacante busca o gol.

O grito vem da arquibancada e o garoto olha para trás, instintivamente, tentando, de alguma forma, enxergar além do muro do estádio. “Esquece garoto, não vamos virar esse jogo! Está cinco a zero e mesmo que faça um, o jogo já vai acabar”, disse o ambulante rabugento que terminava de preparar os seus lanches naturais na esperança de contar com algumas vendas na saída do estádio.

Do lado de dentro a torcida adversária festeja, como se estivesse em uma festa de fim de ano com champanhe bem servido e comida farta. Na arquibancada do time da casa havia um outro torcedor, especial. Ele havia entrado no campo com os jogadores e se admirado com seu ídolo, Vampeta. Ele sentia em seu coração que aquela derrota acachapante era o prenúncio de algo bom que estava por vir, cedo ou tarde.

O futebol foi uma benção na sua vida! Trouxe de volta o sorriso ao seu rosto inchado de lágrimas quentes. Por isso sabia que a perda daquela batalha não desmontaria seus soldados valentes, mesmo que algumas cabeças rolassem após o soar do gongo. Destemido, valente, verdadeiro…

No dia seguinte ao jogo o garoto acordou cedo, tomou o seu café, escovou os dentes, trocou de roupa e, enfim, foi para o metrô que seguia na direção da zona leste. Caetano, o torcedor especial, conseguiu se sentar em um dos poucos bancos livres que restavam na conturbada Linha 3 – Vermelha, em direção ao bairro de Itaquera.

Distraidamente ele olhou para o lado, reparou que o seu vizinho de banco vestia o manto sagrado, porém, estava cabisbaixo assim como ficam as viúvas no velório de seu cônjuge. O manto era pesado, mas no bom sentido! Não havia motivo para o guri levar o olhar para baixo, como se tivesse visto um fantasma.

Visivelmente incomodado com tal situação Caetano, finalmente, entendeu o porquê daquela expressão no rosto do garoto e, então, disse ao vizinho de banco: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima! Isso tudo vai passar e o melhor ainda virá para nós! Acredite e tenha fé, irmão!”

O guri ficou surpreso e sorriu, identificando quem havia falado: era um torcedor corintiano, assim como ele. “Obrigado!”, agradeceu o garoto sorrindo. O metrô seguiu viagem, as estações do ano se repetiram, o tempo passou, o Corinthians ganhou e o garoto vibrou.

E Caetano? Ele cresceu, amadureceu, viveu e, enfim, morreu. As lembranças daquele dia, porém, se fundiram à memória do garoto, assim como o sol se mistura com a lua em uma noite de eclipse.