Jornalista ou produtor de conteúdo?

Por Sergio Quintanilha

Quem faz faculdade de jornalismo deve tentar decidir desde já se o seu objetivo é ser jornalista ou produtor de conteúdo. Mas não são a mesma coisa? Não necessariamente. Na maioria das vezes, não.

É possível que o jornalista seja também produtor de conteúdo, mas antes de chegar nesse ponto quero dizer porque faço essa distinção. Em termos de rendimento profissional, há dois tipos de jornalista: o que trabalha para um veículo de comunicação (inclui os frilas) e o que é dono de seu próprio negócio, como site, blog, programa de rádio ou televisão ou mesmo um canal de YouTube.

Quem produz conteúdo para terceiro, seja como empregado fixo ou freelancer, não terá que se preocupar tanto com a parte técnica, como edição de matérias, fotos e vídeos. Em alguns casos, não precisa se preocupar nem mesmo em postar a notícia nas redes sociais (o que hoje é obrigatório).

Se o jornalista é dono de um canal de YouTube, ele precisará fazer edições de vídeo e postagens nas redes sociais. Ou pagar alguém que faça. Mas, para quem está começando na profissão, é quase impossível contar com essa ajuda. E é para jovens jornalistas que escrevo neste blog.

O limite entre o jornalismo e o entretenimento é um dos dilemas para jornalistas que possuem canal no YouTube. Embora a plataforma seja bastante independente, é importante atuar numa rede social para ter relevância perante algumas fontes. O Instagram é a rede social campeã para quem faz vídeo. Muitos, inclusive, preferem o IGTV, que é o canal de vídeos longos do Instagram. O TikTok cresce como concorrente do Instagram, mas ainda não é uma rede muito explorada pelo jornalismo.

O produtor de conteúdo é aquele que gera conteúdo próprio para publicação frequente num canal de YouTube e nas redes sociais, mas não é necessariamente jornalista. Não é jornalista, mas “rouba” audiência e até mesmo relevância de muitos jornalistas. São os chamados influenciadores digitais.

Convém não torcer o nariz para esses comunicadores, pois eles estão cada vez mais profissionais e, muitas vezes, oferecem conteúdo mais relevante do que os próprios jornalistas profissionais. É possível ser jornalista profissional e também influenciador digital. Porém, a menos que se trate de alguém já famoso, esse jornalista também terá que alimentar suas redes sociais (ou uma delas) de forma constante.

Não há mais tempo para descanso nesse meio. Mas não há tanta notícia importante assim. Por isso, é preciso “inventar” notícias. Inventar não no sentido de mentir (xô, fake news), mas sim de entreter. Ou seja: criar listas, dar dicas, fazer rankings, publicar comparativos, enquetes etc. Quem quer alimentar sua rede social para ter milhares de seguidores deve estar disposto a jornadas alucinantes para entreter e reter a audiência.

Antigamente dizia-se do Império Britânico que era “o império onde o sol nunca se põe”, por estar presente em todas as partes do planeta. Pois bem: para o jornalista influenciador digital o sol também nunca se põe. É sempre hora de postar.

Agora, voltamos à questão inicial: você quer ser jornalista ou produtor de conteúdo? Para ser produtor de conteúdo, competindo com não-jornalistas dentro de um campo que era exclusivo dos jornalistas, é preciso seguir as regras do jogo do algoritmo. Quem decide se você vai fazer sucesso não é o chefe que gostou do seu texto ou da sua análise, mas sim o algoritmo do YouTube, do Instagram etc.

Se a sua matéria foi salva, comentada, compartilhada etc., se o seu vídeo foi visto até o final, os algoritmos do Instagram e do YouTube vão entender que o seu conteúdo é relevante, vai deixá-lo bem no ranking interno da plataforma e, quem sabe, até pagar uns caraminguás para você. Para o algoritmo, entretanto, não faz a menor diferença se você é jornalista ou padeiro, se é jornalista ou costureira, se é jornalista ou ator, se é jornalista ou engenheiro.

Mas o trabalho do jornalista profissional exige tempo de apuração, contato com as fontes, leitura diária sobre o noticiário, leitura de fundo para aprofundar o conhecimento, cursos para aprimoramento técnico, estudo de línguas etc. Simplesmente não dá tempo de fazer três ou quatro matérias por dia e ainda atender todas as demandas das redes sociais digitais.

Há produtores de conteúdo que sabem muito sobre o tema que comunicam. Então a faculdade de jornalismo não serve para nada? Óbvio que serve. É na faculdade de jornalismo que você vai aprender as técnicas de comunicação, os valores-notícias, o valor da ética, o papel social da profissão de jornalista. Porém, a pergunta é válida: você quer ser jornalista ou produtor de conteúdo?

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio