Jogos Olímpicos, (anti)capitalismo e resistência

Felipe Tavares Paes Lopes

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 acabaram de acabar. Realizados em plena crise sanitária provocada pela pandemia de Covid-19, eles geraram muitas críticas e protestos. Certamente, se tivessem sido realizados em um período mais seguro, essas críticas e protestos teriam sido menores. De qualquer modo, sempre que ocorre um megaevento esportivo, surgem as (legitimas) queixas contra eles. Ainda que possam colocar a cidade-sede em destaque no circuito internacional da mercadoria (turística), podendo ressignificar sua imagem e trazer novos investimentos para ela, bilhões de dólares são gastos pelo poder público em obras controversas e, às vezes, em claro prejuízo para a população mais empobrecida – as habituais remoções são ilustrativas. Tais queixas, todavia, geralmente focalizam as consequências do evento – como direcionar o investimento público para a construção de estádios ao invés de direcioná-lo para escolas e hospitais –, e não o que ele representa. Em outras palavras, elas raramente alcançam os significados e as funções do esporte de alto-rendimento (e, consequentemente, dos megaeventos esportivos) no mundo atual.

De acordo com Jean Marie-Brohm (1993), os Jogos Olímpicos mobilizam a “ideologia da coexistência pacífica”, que faz crer que os conflitos internacionais podem ser resolvidos pacificamente através de regras justas e imparciais. Os Jogos Olímpicos, nesse sentido, contribuiriam para encobrir a realidade, violenta e injusta, desses conflitos. Brohm também recorda que o esporte (de alto-rendimento) é uma violência contra o corpo do atleta. Além disso, destaca que serve de preparação para a força de trabalho, inculcando nas pessoas, desde muito cedo, os princípios de rendimento e produtividade. Isso sem falar que, na sua visão, contribui para a “cretinização”  das massas e para a militarização da juventude. Esta última por meio da veiculação de valores como a disciplina e o sacrifício. Outro papel do esporte (de alto rendimento) seria o de manter a estrutura patriarcal da sociedade capitalista, institucionalizando as diferenças entre os sexos e reforçando uma série de mitos sobre eles. Basta lembrar que, na primeira Olimpíada Moderna, realizada em Atenas em 1896, as mulheres puderam participar apenas como espectadoras.

Certamente, a leitura de Brohm sobre o esporte é acertada em muitos aspectos. Destaco apenas que, embora os Jogos Olímpicos e outros megaeventos esportivos estejam, de forma geral, a serviço do capital e das mais diversas formas de dominação (classe, gênero, raça etc.), há fissuras e brechas no seu interior que permitem a mobilização da resistência e da contestação ao status quo. Afinal, nem atletas nem espectadores(as) são marionetes, que reproduzem indiscriminadamente os ditames da indústria do esporte, das organizações esportivas e dos governos de seus países. Com isso, não estou dizendo que o (altíssimo) investimento em tais jogos se justifique. Apenas que são um espaço de lutas e conflitos, que abriga diferentes posicionamentos, ainda que em um espaço assimétrico de poder. Os punhos levantados de Tommie Smith e John Carlo, no mais emblemático pódio da história, são prova disso.

Referências

BROHM, J. M. 20 tesis sobre el deporte. In: Brohm, J. M. et. al. Materiales de sociologia del deporte. Madrid: LaPiqueta, 1993, p. 47-55.

Felipe Tavares Paes Lopes é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba – UNISO