“Restringir a liberdade das mulheres de praticar esportes é como voltar no tempo”

Com o objetivo de compartilhar experiências pedagógicas entre docentes e alunos nesta publicação online, o professor Marcelo Cardoso publica o texto do estudante de pós-graduação e que foi uma colaboração voluntária e gratuita para o nosso espaço destinado à produção universitária.

Por Pedro Ungheria

Durante o processo de construção da humanidade nos deparamos com diversas situações em que as mulheres lutaram por seu espaço, seja em questões sociais, educacionais, pela prática de lazer e, até mesmo, de cidadania.

No esporte não foi diferente. Mesmo em uma das artes marciais mais antigas, como o karatê, a luta das mulheres para conseguir os seus direitos é recente. No Japão, muito embora o primeiro campeonato de karatê da história tenha acontecido em 1957, foi somente 17 anos depois que as mulheres puderam competir, porém, apenas na categoria “Kata”, onde demonstram golpes e movimentos.

No Brasil a busca pelo espaço feminino pode ser observada nos anos 1980, a partir de manchetes de alguns jornais como o ‘Ação Esportiva’, periódico especializado em artes marciais, e que trazia nas capas reivindicações como no seguinte título: “O protesto das mulheres: Queremos lutar”.

O espaço foi conquistado e as mulheres ganharam direito de lutar com a criação da categoria feminina Kumite, na qual as caratecas lutam entre si, a exemplo do que ocorreu recentemente nos Jogos Olímpicos 2020, em Tóquio. Mas, logo após a olimpíada veio uma surpresa que faria as mulheres regredirem no tempo.

Os Estados Unidos anunciaram que deixariam o Afeganistão e, logo, o Talibã (grupo fundamentalista e nacionalista islâmico) assumiu o poder do país. Uma de suas primeiras posições foi adotar restrições aos direitos das mulheres, principalmente no esporte.

O professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e técnico de uma equipe de karatê na Universidade de São Paulo (USP), Marcelo Alberto de Oliveira, traçou um paralelo entre o que ocorreu com a modalidade no Brasil e a situação atual no país asiático.

“Restringir a liberdade das mulheres de praticar esportes é como voltar no tempo, uma espécie de processo ‘descivilizatório’. Eu acompanhei as notícias sobre o Afeganistão e a tomada do Talibã. Foi lamentável ver as situações e as cenas”, disse o mestre em Ciências pela USP e coautor do livro Diário de Karateka, durante palestra para alunos de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi Morumbi (SP).

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A preocupação de Oliveira com o que ocorreu naquele país se refere aos direitos das mulheres que, tradicionalmente, são proibidas de praticar esportes pelo Talibã. O cenário ecoa em outros campos, como na Educação, e as mulheres podem ter cada vez mais restritas a liberdade de estudar. “Para quem quer enxergar uma espécie de liberdade de prática [esportiva], isso é lamentável”, criticou.

A reflexão acima se deu pela entrevista de Ahmadullah Wasiq à rede de TV SBS Austrália. Em suas declarações o líder cultural do Talibã sinalizou claramente que “não será permitido às mulheres jogar, porque não é necessário que as mulheres joguem”.

Ao praticar esportes, como o críquete, bastante popular no país, elas podem estar em situações nas quais o rosto e o corpo não estejam cobertos e o Islã não permite que sejam vistas dessa forma.

Vale ressaltar que no último governo do Talibã, antes da intervenção norte-americana, as mulheres não tinham permissão para trabalhar ou para estudar e deviam ficar confinadas em casa. Elas só podiam sair acompanhadas por um homem e era obrigatório o uso da burca cobrindo todo o corpo, da cabeça aos pés. Quem fosse acusada de adultério, seria apedrejada na rua.