Lesões no karatê: como o esporte se tornou mais leal, mas ainda busca evolução na segurança e tenta voltar ao pódio olímpico

Com o objetivo de compartilhar experiências pedagógicas entre docentes e alunos o professor Marcelo Cardoso reproduz texto redigido por estudantes de pós-graduação. A colaboração é voluntária e gratuita para o nosso espaço destinado à produção universitária.

Por Fabíola Nogueira, Gabriel Vendramini Lucas de Freitas e William Aguiar Guilherme

O exemplo é recente e, logo no berço do karatê, o Japão. Durante os Jogos Olímpicos de Tóquio o carateca alemão Jonathan Horne deixou a área de luta sobre uma maca após sofrer grave lesão no braço direito. Ele deslocou o braço ao tentar se apoiar em uma queda, após um golpe aplicado pelo georgiano Gogita Arkania.

Horne era um dos favoritos à medalha de ouro por ser, até então, o atual campeão na categoria Kumite (até 75kg). Cenas como a descrita ainda são vistas em esportes com artes marciais, mesmo com toda a evolução das lutas, mas foi visível o aumento da segurança durante as competições como as de karatê.

Em tempos passados, como nos anos 1970 e 1980, as lesões eram mais frequentes com o uso de tatames rudimentares, duros, e golpes desferidos para machucar o adversário, como explicou o técnico de uma das equipes de karatê da Universidade de São Paulo (USP), Marcelo Alberto de Oliveira, em entrevista aos alunos do curso de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Multimídias da Universidade Anhembi Morumbi (SP).

A falta de maior proteção frequentemente provocava lesões como dentes quebrados, fraturas de costelas, de pernas e de braços, entre as mais comuns.

“Nos primeiros campeonatos não havia proteção para as mãos, para os pés e o tórax. Eram onde as lesões mais ocorriam. Havia mais nocautes e, como não tinha uma espécie de regra que punisse, desestimulasse golpes desse tipo, isso era comum no passado”, conta Oliveira, que também é professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Com o passar dos anos a Federação Mundial de Karatê se posicionou ao lado do Comitê Olímpico Internacional para evitar lesões, hematomas ou sangue.

A ideia era transformar esta arte marcial em um esporte atrativo e que também se espelhasse em outras modalidades olímpicas que prezam pela integridade física dos atletas como boxe, esgrima, judô, luta olímpica e taekwondo.

“Essa conversa com preparadores físicos de outras modalidades foi natural. Os treinamentos ficaram mais avançados, a performance dos atletas melhorou. Hoje eles já têm um entendimento de que não estão ali para nocautear o adversário, mas para demonstrar uma técnica apurada e controle de golpe”, disse Oliveira.

A presença de tecnologia nas competições como o replay, placares eletrônicos, tatames com materiais de melhor qualidade, a utilização de luvas e o apoio de patrocinadores mostram uma evolução da modalidade como esporte.

Marcelo de Oliveira, porém, acredita que o karatê ainda tem muito para melhorar no quesito segurança.

“Hoje é um esporte seguro, porém precisa se adaptar ainda mais”, opina. A dica para quem luta esta modalidade é a prevenção com a utilização de equipamentos de proteção adequados e o correto treino da musculatura.

Karatê se mantém por pouco tempo no pódio olímpico

O karatê estreou nos Jogos Olímpicos este ano, em Tóquio. Pode soar estranho pelo fato de a modalidade ser tão popular e tão antiga no mundo.

Para o faixa preta de karatê Marcelo Alberto de Oliveira, que também é coautor do livro Diário de Karateka, há muitas federações que regulamentam a arte marcial pelo mundo, mas divergem entre si em muitos temas ligados ao esporte. “Isso não contribuiu para que se tornasse olímpico anteriormente”, explica.

Mestre em Ciências pela USP e um estudioso do esporte, Oliveira acredita que algumas entidades pregam um estilo de luta moderno, mais preocupado com a prevenção de lesões, e orientam os atletas a usarem equipamentos de proteção adequados. São adeptas do auxílio da tecnologia nas competições.

Por outro lado, uma visão diferente ainda predomina em certos grupos.

“Há os mais conservadores e que privilegiam golpes mais duros, sem que os competidores façam uso de muitos acessórios para contê-los, além de ter pouco suporte tecnológico durante os torneios”, afirmou o carateca durante entrevista para estudantes.

A passagem do karatê pelas Olimpíadas, porém, foi curta. A modalidade não consta do próximo programa olímpico, em Paris, em 2024.

O professor acredita que uma das possíveis soluções para o esporte voltar a figurar e a se sustentar no círculo olímpico seria a unificação das federações.

“Isso permitiria o karatê se manter mais padronizado e regulamentado como um todo, requisitos que são muito bem-vistos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI)”, analisa.

Oliveira ressalta que um dos motivos pelos quais o karatê fez parte da edição dos Jogos Olímpicos de Tóquio foi a pressão imposta ao COI, pelos organizadores, em ter um dos esportes de combate mais populares do mundo para ser projetado a partir do país e da cidade onde, inicialmente, se desenvolveu.