A luta contra o “futebol moderno” e o imaginário da esquerda sobre o esporte

Por Felipe Tavares Paes Lopes

Há alguns anos, podemos observar, nas arquibancadas de todo o país, especialmente nos setores onde ficam as torcidas organizadas, bonés, camisetas, bandeiras e até tatuagens com uma bola de futebol de couro antiga envolta por uma grinalda verde-oliva com a seguinte mensagem: “contra o futebol moderno”. A luta contra o “futebol moderno” nasceu na Europa com as torcidas conhecidas como “ultras”. Tal luta tem como alvo o processo de hipermercantilização do futebol, que contribui para a elitização do esporte e para minar uma tradição popular de torcer, que envolve o uso de elementos pirotécnicos, bandeiras, instrumentos musicais, coreografias e gritos de guerra. Em geral, essa luta assenta-se numa narrativa romântica e idealizada do passado do futebol, que alimenta o saudosismo e a nostalgia. Mas o que essa narrativa nos revela sobre o significado e o papel do futebol no imaginário da esquerda?

Fundamentalmente, revela-nos que o dicotômico e infindável debate “reforma versus revolução” – que perpassa a história da esquerda ao menos desde a querela de Lenin contra Kautsky –  ecoa, de certo modo, nos debates sobre o futebol estabelecidos no decorrer dessa história. Notemos que tal narrativa não condena o futebol em si mesmo. Ao contrário, nela, ele é interpretado como uma atividade legítima e popular, que teria sido desviada pela força do dinheiro. Assim, seria preciso resgatá-la das “garras do capital” e devolvê-la ao povo, estimado aqui como positivo, em contrapartida ao torcedor burguês, visto como passivo e consumerista, ou seja, como um mero espectador, não como um torcedor de verdade. Em outras palavras, o futebol, desse ponto de vista, deve ser reformado, não eliminado.

Essa posição choca-se frontalmente com uma perspectiva revolucionária de esporte, levada a cabo por alguns autores marxistas, que compreendem que a prática e o consumo esportivo, no âmbito do capitalismo, contribui para a formação de estruturas de personalidade autoritárias, agressivas, narcisistas e obedientes. Mais ainda, contribuiria para canalizar a energia da massa trabalhadora para a reprodução da ordem estabelecida e atuaria como um poderoso instrumento de repressão sexual. Por essa razão, ele não poderia abrir nenhuma perspectiva de libertação da humanidade, que só poderia ocorrer com a chegada do comunismo.

A despeito de sua radicalidade, essa última perspectiva é, paradoxalmente, mais dócil ao capital do que a primeira. E isso se dá por uma razão muito simples: lutar por aquilo que está ao nosso alcance tende a trazer muito mais perigo para o status quo do que lutar por aquilo que está fora do nosso campo de visão, uma vez tem um potencial maior de se transformar num desafio real a ele. Com isso, é importante destacar, não estou negando a importância do pensamento revolucionário; apenas chamando a atenção para a importância da resistência se fazer no agora, infiltrando-se nas fissuras do capitalismo e aproveitando suas brechas para promover práticas contra hegemônicas, capazes de criar novas subjetividades e modos de vida alternativos.

Felipe Tavares Paes Lopes é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba – UNISO