Hamilton, a bandeira brasileira e a emoção do jornalista

Por Sergio Quintanilha

Jornalista pode sentir emoção? Claro que sim – basta ser humano. Mas, colocado de outra forma, o jornalista deve transmitir a emoção que sente? Bem, nesse caso a questão é mais complexa. Vamos analisar os fatos do Grande Prêmio de São Paulo 2021, que marcou o retorno da Fórmula 1 ao Brasil.

Como é do conhecimento geral, Lewis Hamilton não apenas venceu a corrida, mas o fez de forma poucas vezes vista. Na classificação, após ter marcado a pole position para a prova Sprint (uma corrida de 100 km, um terço do Grande Prêmio), o piloto inglês foi penalizado com a desclassificação porque a asa traseira de seu carro apresentou uma abertura 0,2 milímetro maior do que permitia o regulamento.

Atenção que não foram 2 milímetros, mas sim 0,2 mm – uma fração comparável a um fio de cabelo. Hamilton perdeu 19 posições. Em apenas 30 minutos, acelerando com muita determinação, recuperou 15 posições e terminou em 5º lugar. Esta seria sua posição no grid de domingo, mas, como ele havia trocado o motor de combustão do Mercedes W12, foi penalizado com a perda de cinco posições na largada.

Lewis Hamilton largou, portanto, em 10º lugar. Com ultrapassagens ousadas, ganhou uma corrida que poucos pilotos estariam dispostos a lutar para ganhar – afinal, foram 24 posições perdidas num GP que reúne apenas 20 carros. Se não bastasse a pilotagem incomum, Hamilton parou seu carro na volta de desaceleração e pegou uma bandeira do Brasil, repetindo o gesto que foi imortalizado por Ayrton Senna em várias vitórias na F1.

Lewis Hamilton imita o gesto de Ayrton Senna

Aquele momento deu um nó na garganta. Jornalistas, então, se misturaram ao público e choraram. Muitos. Houve relatos na televisão, no rádio e no Twitter – a rede social preferida da comunidade da F1. Isso é certo? Sim, desde que o jornalista transmita para seu público o porquê de tanta emoção. Afinal, o aficionado que o lê, ouve e ou vê pode ser torcedor de Max Verstappen (rival de Hamilton) ou fã de Nelson Piquet (rival de Senna). E isso poderia ser confundido com parcialidade na cobertura.

Quando a corrida terminou, não tive dúvidas: corri para o computador e cometi um texto emocionado para o nosso site Parabólica (canal de F1 do portal Terra). Fiz um resumo e publiquei no Linkedin. E no Twitter, claro, relatei o que depois descobri que era um sentimento geral – a emoção do gesto de Hamilton.

Mas nem todos viram a mesma coisa quando Hamilton pegou a bandeira brasileira e percorreu a parte final do circuito a la Senna. Para muitos, Hamilton prestou um tributo ao tricampeão, que era seu ídolo. Para mim e para outro tanto, porém, o gesto de Lewis Hamilton teve um significado maior – foi o resgate da própria bandeira brasileira, tão usurpada nos últimos tempos por gente autoritária, antidemocrática e que não tem vergonha de pregar e tentar construir um Brasil fascista.

Foi preciso que Lewis, um cidadão inglês, mas que se pauta pela inclusão e diversidade em todos os cantos do mundo, resgatasse a bandeira verde e amarela e dissesse: brasileiros, é possível recuperar o que vocês perderam. Não entreguem suas cores para o fascismo. Lutem pela democracia, pela diversidade, pela inclusão social. Escrevi no Parabólica: “Como Senna fazia, quando mostrava que o Brasil não era só o país da corrupção e das falcatruas dos anos 80, mas que era também vencedor. Lewis Hamilton mostrou que não basta ter talento para ser vencedor – é preciso querer ser vencedor”.

Um inglês com a bandeira brasileira no pódio

Em outro trecho: “Sir Lewis Hamilton, o mais britânico dos pilotos, o preto que se atreveu a vencer num esporte dominado por brancos, que se tornou símbolo mundial da luta contra o racismo estrutural e/ou explícito, de repente se vestiu de verde–amarelo no pódio. Ouviu o hino nacional britânico – God Save The Queen – enrolado na bandeira brasileira, que é a bandeira de um país com diversidade, com gente de todas as cores e crenças, que luta há séculos para ser mais justo”.

Esta emoção, que tem uma causa, que não é uma pauta pessoal, cabe perfeitamente numa narração jornalística. Claro que existem casos pessoais que também podem ser narrados, como no recente depoimento da apresentadora Lilian Ribeiro, que revelou ao vivo um câncer de mama no programa “Em Pauta”, da Globo News.

Em outros casos, é melhor que o jornalista reserve para si a emoção. Por exemplo: a vitória de um time de futebol, que pode emocionar o jornalista, nem sempre é aceita pelo público, seja ele do próprio futebol ou do automobilismo. A regra é clara: o jornalista não é a notícia, mas sim o transmissor da notícia.

No caso de Hamilton e da bandeira brasileira, a situação foi ainda mais delicada porque envolve política. Por isso, muitos nem sequer arriscaram ampliar para fora do automobilismo o resgate da bandeira, ficando mesmo na lembrança de Senna. Mas há momentos em que o jornalista esportivo também pode – e deve – se posicionar. Afinal, como já dizia Bertold Brecht em plena ascensão do nazismo, é preciso ter coragem e inteligência para dizer a verdade.

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio