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Quem não gosta do GP de Mônaco não gosta de Fórmula 1

Sergio Pérez, vencedor do GP de Mônaco: velocidade e estratégia a centímetros do guard-rail. (Foto: Red Bull Racing)

Este ano, como ocorre já há uns 30 anos, foi grande a discussão sobre a permanência do Grande Prêmio de Mônaco no calendário da Fórmula 1. Para os detratores da corrida nas ruas do Principado, o circuito é apertado demais, sem uma grande reta, e não permite ultrapassagens, como em pistas convencionais.

Mas, vejam só que ironia, o pole position Charles Leclerc terminou apenas em 4º lugar, enquanto a vitória coube exatamente ao piloto que largou em 4º no grid, Sergio Pérez. Quem foi ao pódio não era um monegasco da gema, como Sua Majestade o Príncípe Albert II e as sumidas Caroline de Mônaco e Stéphanie de Mônaco, mas sim o Checo, um mexicano, piloto número 2 da Red Bull.

Ah, mas isso só aconteceu devido a uma série de acontecimentos, que teve a ver com chuva e sol, bandeiras amarelas e vermelhas, táticas de trocas de pneus e mudanças nas condições da pista. Ok, e daí? As melhores corridas, em qualquer circuito, muitas vezes estão relacionadas às mudanças no clima. Não precisa ser em Mônaco.

Mas, indo direto ao ponto, cheguei a uma conclusão drástica: quem não gosta de Mônaco não gosta de Fórmula 1. Gosta só de ultrapassagens. E digo isso depois de ler o ótimo texto “Pierre Bourdieu e a Sociologia do Esporte”, publicado aqui no site pelo Prof. Dr. Felipe Lopes, em sua coluna “Em Disputa”. Ao tratar das “lutas políticas e científicas em torno do esporte” (subtítulo da coluna), Lopes usa Bourdieu para mostrar a diferença entre apreciar o esporte ou vencer a qualquer custo.

“Segundo Bourdieu (2002), os agentes sociais, dependendo do seu capital, adotam estratégias de conservação ou de transformação da estrutura do campo: quanto mais dominante for um agente, mais tende a lutar pela preservação da estrutura do campo e de sua posição”, explica Lopes.

Trazendo para a Fórmula 1, as pessoas que não gostam do GP de Mônaco – uma única corrida em 22 onde é preciso ser mais inteligente do que mais rápido para vencer – querem impor à categoria um tipo de competição baseada na “morte” simbólica de um dos competidores.

Ou seja: para esses fãs, é inconcebível um carro mais rápido não conseguir superar um carro mais lento. Esses fãs não aceitam o fato de que em Mônaco o desafio é outro: não bater, não perder a concentração a 250 km/h numa pista sem área de escape, desafiar a própria sorte ao entrar com toda a velocidade numa curva sem saber o que existe ao virar a esquina.

Citando Bourdieu, Lopes deixa muito claro que esses fãs não apenas rejeitam a pompa aristocrática de Mônaco, não dão a menor importância se Graham Hill superou o desafio dos túneis por cinco anos (fechando um olho ao entrar e ao sair para não ser afetado pela escuridão ou claridade excessiva). De nada vale ter o único pódio com a presença de príncipes e princesas, como uma linha do tempo da aristocracia.

“Assim, no campo esportivo, a noção (aristocrática) de fair play seria uma forma de triunfar dentro das regras – algo totalmente oposto à busca plebeia da vitória a qualquer custo”, explica Lopes. Querem “sangue” na pista, roda com roda, um piloto superando o outro – e nem se dão conta de que muitas dessas ultrapassagens, em outras pistas, só ocorrem por causa do artifício da abertura da asa traseira dos carros.

É possível que o Grande Prêmio de Mônaco saia do calendário, mas por outros fatores que não a pista. Segundo disse o jornalista Lito Cavalcanti em seu canal no YouTube, Mônaco pode sair do calendário porque a Liberty Media (dona da F1) não aceita mais ver o circuito com placas dos patrocinadores locais, do próprio Automóvel Clube de Mônaco, e não dos parceiros globais da Fórmula 1, assim como a geração de imagens da prova também é local e foge do padrão adotado pela categoria.

Mônaco, entretanto, é a essência da Fórmula 1. As ultrapassagens ficaram mais difíceis porque os carros ficaram enormes. Que culpa tem Mônaco disso? Há 30 anos, desde a épica vitória de Ayrton Senna (McLaren Honda) sobre Nigel Mansell (Williams Renault), no GP de 1992, já ficou claro que o piloto da frente consegue, se tiver talento e sabedoria, impedir a ultrapassagem de um carro mais rápido. Portanto, que se aprecie Mônaco pelos outros motivos.

Existe, sim, como disse Bourdieu, uma disputa de classes envolvendo o GP de Mônaco. De um lado, as classes “dominantes” na F1, mais ligadas à tradição; de outro, os jovens rebeldes que não aceitam uma única pista sem ultrapassagens – ainda que sejam ultrapassagens fakes, sem nenhuma possibilidade de defesa devido à vantagem aerodinâmica de quem vem com a asa aberta.

Para concluir, deixo a frase final de Felipe Lopes em seu texto para que os críticos de Mônaco pensem a respeito, pois a popularização do esporte ampliou seu alcance, indo além dos praticantes e antigos fãs: “Com isto, teria surgido um público sem a competência específica para traduzi-lo, incapaz de sentir prazer com a presteza de um movimento ou com a combinação exitosa de uma estratégia de equipe e que se sentiria atraído somente pelo sensacional”.