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Hélio Rubens, o basquete brasileiro e o templo da modalidade no interior de São Paulo

O livro Hélio Rubens: A trajetória de um vencedor no jogo da vida (Leya, 2020) retrata a história de um dos mais importantes esportistas brasileiros: Hélio Rubens Garcia. A parceria entre o protagonista e o jornalista Igor Ramos destaca os principais momentos dos caminhos de um campeão do basquete, com passagens como jogador e como treinador da seleção brasileira e de clubes como Vasco da Gama (RJ) e, especialmente, Franca (SP).

Os laços com a cidade de Franca, na região de Ribeirão Preto (SP), estão eternizados no livro de memórias. O município é uma espécie de templo do basquete nacional masculino e feminino. Logo no início, a obra aborda a história do Restaurante Barão, fundado em 1955 e que, hoje, pertence a um dos grandes amigos de Hélio Rubens, o ex-jogador de basquete Marcos Aurélio de Melo Magrin, o Piu-Piu. O estabelecimento guarda parte da memória do basquete e do próprio Hélio.

Durante a leitura, interessantes considerações ilustram a filosofia do personagem destas memórias em torno do basquete e da seleção brasileira quando ocupou o cargo de técnico. Nem sempre suas opiniões eram compartilhadas pelo então presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Renato Brito Cunha, ou por importantes jogadores da época. Hélio Rubens queria uma renovação que, no seu entender, não estava ocorrendo, como se verifica no trecho em que declara:

“Estamos perdendo Pan-Americano, Sul-Americano e está tudo bem, ninguém faz nada. A seleção de hoje conta com jogadores que estão lá há vinte anos. Não sou contra manter, sou contra não dar oportunidade para os mais jovens disputarem com os veteranos. Como é que eles ganharão experiência para substituírem os mais velhos, que não são eternos?”, revela o protagonista (p. 132).

Algumas passagens da obra são de arrepiar, como a do relato da cesta que garantiu o vice-campeonato mundial de 1975, na Itália, e das diversas lições deixadas pelo ídolo. O leitor encontrará, também, narrativas sobre a família e que, ao mesmo tempo, são inseparáveis da história do basquete brasileiro. Hélio Rubens atuou ao lado dos irmãos, Totô e Fransérgio, e de seu filho, Helinho, e todos alcançaram o sucesso na modalidade.

O casamento com Maria Helena, os filhos e os netos completam o cenário pessoal. Mas as memórias também versam sobre a filosofia de vida de Hélio Rubens a respeito do esporte e da vida: “Nosso poder pessoal está diretamente ligado a nosso estado de espírito. […] Na minha vida de atleta, mas sobretudo no trabalho como técnico, busquei mostrar aos jogadores a importância do respeito, da disciplina, da solidariedade, da capacidade de doação” (p. 53).

Dezenas de fotografias complementam as narrativas ao longo da obra e auxiliam a costurar o perfil do ídolo da camisa verde da equipe de Franca. Uma das imagens mostra o jovem Hélio Rubens como jogador de futsal nos Jogos Abertos da Alta Mogiana, cuja legenda revela para o leitor a dimensão do atleta: “(…) No fim dos anos 1950, Hélio Rubens, multiatleta, se dividia entre futebol de salão, futebol de campo, vôlei, tênis de mesa e basquete” (p. 12).

Entre as conquistas mais importantes de Hélio Rubens, tratadas no livro, estão a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (Canadá, 1999), como técnico da seleção brasileira, e os inúmeros campeonatos brasileiros pelo Franca, Vasco e Uberlândia, além de dois vice-campeonatos Mundiais de Clubes como jogador (1975 e 1980).

A camisa 8, número usado por Hélio Rubens no time de Franca e na seleção brasileira, foi aposentada em 5 de abril de 2022. Foi uma justa homenagem que ocorreu no simbólico ginásio do Pedrocão, em Franca, meses antes do jogador completar 82 anos. O homenageado assistiu a cerimônia no intervalo do jogo entre o time da casa e o Unifacisa, pela fase regular do Novo Basquete Brasil (NBB).

“E o que era considerado impossível, querendo, acreditando e trabalhando, se tornará apenas difícil e perfeitamente possível, e assim surpreenderemos os outros, alcançando metas que, para muitos, seriam inatingíveis” (p.218), é uma dos ensinamentos desse herói do esporte brasileiro.

Referências

SESI Franca aposenta a camisa 8 em homenagem a Hélio Rubens Garcia. Confederação Brasileira de Basketball. Rio de Janeiro. Abr. 2022. Disponível em: https://www.cbb.com.br/noticia/3082/sesi-franca-aposenta-a-camisa-8-em-homenagem-a-helio-rubens-garcia. Acesso em: 2 jun. 2022.

GARCIA, Hélio Rubens; RAMOS, Igor. Hélio Rubens: A trajetória de um vencedor no jogo da vida. São Paulo: Leya, 2020.


  • Marcelo Cardoso e Luciano Maluly são jornalistas e professores especializados em esportes e atividades físicas.