fau
ensino
pesquisa
cultura e extensão
 
eventos
concursos
defesas
home  contato  mapa do site  usp
 
   
I
I
depoimentos
julio katinsky


 
Julio Katinsky

Prof. Dr. Julio Roberto Katinsky - (27/06/2002)

"O nosso Laboratório começou em 1993 em função de uma série de experiências anteriores mas não há dúvida nenhuma de quem deu um empurrão nesse empreendimento foi a Profa. Carolina Bori que dirigia a Estação Ciência na época; e ela tinha visto em um embrião no que depois se transformou em iniciação científica (que me lembro é bastante recente), e em feiras de ciência maquetes que estávamos fazendo; experiências num curso de graduação, maquetes essas levadas pelo Gustavo Neves da Rocha para essas exposições, era uma espécie de festa num curso secundário em torno do conhecimento da ciência, do estudo da ciência, e tenho a impressão que essa Estação Ciência foi o embrião dessa proposta de Iniciação Científica e que agora por incrível que pareça o Brasil está servindo de modelo até para os EUA, a iniciativa é brasileira de tentar aproximar os jovens de uma maneira ativa no processo científico.

Em função desse incentivo da Profa. Carolina, a Profa. Maria Cecília França Lourenço, isso eu estou reproduzindo um depoimento que fiz na saída da chefia do Laboratório porque eu me aposentei, pretendo continuar colaborando, pois o Laboratório sem dúvida nenhuma saiu dessas experiências didáticas que a Faculdade estabeleceu ou propiciou que são experiências que vínhamos fazendo há muitos anos no sentido de mudar critérios de ensino extremamente acadêmicos que existiam, que eram baseados na imitação dos antigos, então imaginamos num determinado instante apoiados num trabalho de um professor sueco nesse sentido de criar condições de estudar criticamente os espaços do passado, e foi acontecendo e acabamos partindo para esse tipo de estudo que hoje esta espalhado pelo Brasil, e devo dizer que não só espalhado entre os estudantes mas agora houve um concurso na Usiminas e fazia parte da exigência do juri que se apresentasse maquetes físicas e não maquetes virtuais para exame do juri, o que é interessante porque mostra um amadurecimento desse processo, porque realmente a maquete virtual é excelente para convencer, é um recurso retórico igual uma perspectiva feita com muito capricho, daquelas que Alberti condenava, maquetes muito trabalhadas, muito pintadinhas, etc., e ele dizia, isso não é maquete de arquiteto e sim de pintor e nós precisamos fazer maquetes bem cruas, bem secas para poder compreender os nexos espaciais ele não fala nexo espacial porque não estava na moda, mas ele fala a invenção da relação dos aposentos que é a função do arquiteto.

Sob esse ponto de vista o Laboratório funcionou na medida em que propôs uma série de procedimentos que devem ser tratados num plano mais científico do ensino de arquitetura e isso até certo ponto caracterizou-se por um primeiro mestrado que sai diretamente do nosso Laboratório, que está sendo orientado pelo Luiz Munari do arquiteto Arthur Rosestraten

A meta do Laboratório não era o curso superior, porque ele já está definido, aliás eu fui convidado para dar umas palestras em Londrina e vi uma maquete na Faculdade que não considero absolutamente nenhum demérito, mas eu vi na Faculdade em um curso de graduação uma maquete montada por um aluno a partir de um kit da Ciça sobre o Ministério de Educação, montado como modelo para as pessoas trabalharem; aliás, acho que aquela maquete foi um absurdo não termos conseguido levá-la para um público maior esse é um ponto que considero muito grave. Nós conseguimos várias bolsas de iniciação científica para utilizar o potencial criador do aluno de graduação para transferir para os alunos de ensino médio, esse é o objetivo do Laboratório continuar trabalhando com essa perspectiva didática junto ao curso secundário e isso não está acontecendo, nós não conseguimos verba e nossos empresários como dizia o Flávio Motta a nossa iniciativa privada é muito pouco iniciativa e muito privada, e o resultado é que não conseguimos até hoje comercializar porque na realidade só quando for garantido 98 de chance de dar certo então nossos empresários se mexem para colher os frutos.

A Profa. Maria Cecília teve oportunidade de comprovar isso, durante 40 anos ninguém ligou para o Engenho dos Erasmos, ele chegou a ser atacado em 1987 por uma violência enorme que abalou toda a estrutura, então a Universidade de São Paulo que é a proprietária se viu forçada a se mexer. Nas últimas administrações reitorais realmente houve um esforço para definir o que deveria ser feito o que não deveria ser feito e deu certo, nós consolidamos as paredes que estavam abaladas, estamos refazendo toda a cobertura que Luiz Saya fez em 1960. Agora, os politicos querem faturar em cima do esfor

Digo sinceramente que teríamos que fazer algo para chegar a um resultado que nos interessa, por exemplo, todos os alunos que participaram das bolsas de Iniciação Científica, acredito que foram beneficiados, porque tiveram que pensar, não mais em um modelo para ser feito de uma obra, mas um projeto de modelo diferente e acredito que todos eles saíram dessa experiência enriquecidos, mas essa não é a intenção primeira do Laboratório e sim a de usar o potencial já existente dos alunos para transferir para o curso secundário e não se trata de nacionalismo, mas acho um pouco chocante que os alunos do curso médio saibam mais sobre um forte americano, saibam mais sobre cultura americana, acho que isso é um ponto frágil da nossa condição atual e já estão começando a perceber que o problema da autonomia está ligado ao problema da memória, então dirigimos todo esse trabalho durante anos para a arte brasileira de uma maneira geral e alguns instrumentos científicos que vieram da Renascença e que interessam, mas na realidade nós dirigimos para a arte e arquitetura brasileira porque eles dizem : esses não conhecem nada, são capazes de conhecer o Pollock e não conhecem a Tarsila, aliás não conhecem mesmo, nós recebemos uma carta de um assessor da FAPESP criticando o nosso trabalho e falando sobre um quadro que tinha sido estudado por nós, por um aluno, que aliás acho que foi uma pequena obra prima, o "assessor" chamou o quadro de a "Estação da Central do Brasil da Anita Malfatti", para vocês verem o grau de alienação que nós temos pela frente.

Nós temos um projeto e precisamos fundamentalmente de recursos porque foi uma proposta surgida no âmbito do Laboratório é que nós não deveríamos ficar indefinidamente fazendo kits que chegam a uma etapa próxima do final, nós chegamos a fazer vários kits com 100 exemplares que são disputados a tapa quando são apresentados na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, mas são 100 exemplares quando precisaríamos no mínimo uma edição inicial de 1000/2000 para ter um significado inicial, não um significado que nós queremos que deveria ter edições de 10.000/20.000."



Profa. Marta Gronstein: Qual a ordem de grandeza do custo de uma edição dessas?



Prof. Katinsky: "E muito pequena é de R$7 mil reais."



Profa. Marta Gronstein: Mas essa verba do CAE por exemplo que nós usamos o ano passado para produzir o CD era de até R$10mil reais.



Prof. Katinsky: "Com R$10 mil reais com certeza dá para fazer 1000 exemplares de um dos mais caros modelos que é o da Ciça, tem outros bem mais baratos".



Profa. Marta Gronstein: Acho que deveríamos fazer algum outro movimento para que essa verba do CAE fosse dada novamente, pois foi uma verba de fácil acesso que burocraticamente não exigia grandes esforços e do ponto de vista da difusão, da divulgação e do material de graduação era muito fácil, então essa verba daria para fazer esses exemplares.



Prof. Katinsky: "Daria para dar início."

"Para terminar gostaria de dizer o seguinte: A Faculdade de Arquitetura não é e não pretende ser uma Escola tradicional de Belas Artes, ela começa desde 1948 com uma preocupação muito forte vindo da Politécnica que é a preocupação científica no ensino e acho que o Laboratório existindo ou não a preocupação com essa educação se apropriando de todas as experiências didáticas que se faz no mundo inclusive aqui no Brasil com esse viés científico eu acho que tem que continuar com esse objetivo fundamental, que é o objetivo da educação que vale evidentemente para o terceiro grau, mas tudo que é proposto para o terceiro grau deverá chegar ao primeiro grau, mas nunca conseguimos, as nossas maquetes chegaram até um nível de adolescentes de 14/15 anos, se bem que eles foram a uma reunião da SBPC ficaram chocados porque tinha um menino de 11 anos no Rio Grande do Norte que pegou todos os modelos fez todos e disse não tem mais? Mas não podemos esperar de todos porque é difícil, as nossas maquetes não são fáceis, como aquelas de papelão da Europa que é só cortar e dobrar, exigem um esforço maior do usuário, que eu acho que esta certo, pois temos que pensar nessas maquetes como os aeromodelos. São adolescentes que fazem aeromodelos e voam. Engraçado que descobri que uma grande porcentagem de alunos da Poli fizeram aeromodelos na adolescência e aqui na Faculdade de Arquitetura acontece isso, ou são meninas nisseis que fizeram muito origami ou são meninos que fizeram aeromodelos, então tem que ser explorado esse caminho.

Nós precisamos de dinheiro, não para transformar a Faculdade numa agência de fazer modelos mas convencer  os outros, pois até estabelecemos se um empresário quisesse fazer, ele teria que dar 7 de direitos autorais 6 para o autor e 1 para o nosso Laboratório, sendo que metade seria para o arquiteto ou herdeiro. Esta sendo muito discutido na Comissão de Patrimônio Cultural até que ponto em relação a fotografia teria que ser cobrado direitos autorais mesmo pertencendo ao acervo da USP e até que ponto o próprio bem que está sendo fotografado precisa ser remunerado, estão sendo cada vez mais exigentes no mundo moderno e esbarramos nesse problema, publicar uma imagem. Eu tive que pedir uma licença especial para publicar uma imagem de um museu italiano e eles considerando que era uma publicação científica não cobraram direitos autorais. Em função dessas experiências a Estação Ciência contratou dois jovens arquitetos formados na FAU para desenvolver kits. A proposta que era para fazer kits para distribuir para professores que seria um verdadeiro laboratório ambulante, está esbarrando no mesmo problema não tem financiamento. A proposta dos dois arquitetos é uma beleza, é uma caixa que quando abre vira uma arena e concentra a atenção naquela arena onde a experiência se faz, acho uma idéia brilhante."



Prof. Emilio Haddad: Quais os kits mais importantes que vocês fizeram



Prof. Katinsky: "Os kits mais importantes que fizemos foram o Ministério da Educação - RJ, Museu de Arte Moderna (MAM)-RJ, Museu do Café de Ribeirão Preto, Igreja da Pampulha, Biblioteca Mario de Andrade. Nós fizemos também a "Estação Central do Brasil da Tarsila" (Quadro pertencente ao acervo do MAC da USP de autoria de Tarsila do Amaral) percebemos o quanto de perspectiva tradicional renascentista esta naquele quadro, pois quem olha não percebe e pelo kit percebe, foi feito também e que teve um resultado espetacular, foi uma menina que fez o dispositivo do Durer para fazer desenho, foi feito todo de papelão e é duplo, o menino monta aquele quadro muito simples com barbantinho e depois desenha é muito interessante. Com as verbas concedidas pela FAPESP chegamos a um kit de 100 exemplares o que não é ainda um processo industrial é um processo que utilizamos facas, orientado pelo LAME, mas ainda tem problemas que precisam ser resolvidos quando você passa de 100 para 1000/5000 e assim por diante e cada etapa é especial e isso também é um aprendizado."