Estudos metodológicos: interfaces, abrangências e conteúdos da Comunicação Visual

Temática 1
Comunicação

Título:
Cow Parade: o maior evento de arte de rua do mundo


Autor:
Pedroso, Maria Goretti
ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES.
e-mail: barbarellacomunicacao@yahoo.com.br


Endereço:
Rua Luis Machado Pedrosa, 133
Jd. América- São Paulo - SP
cep 01431-0140


Cow Parade: o maior evento de arte de rua do mundo

Pedroso, Maria Goretti

Todo o conceito de arte popular vem desmistificar o conteúdo de uma exigência metropolitana. Arte de rua urbana e popular traz em sua síntese a sintaxe de um modo de expressão peculiar à população daquele local. Pode ser definida até como uma arte fenotípica, típica e ao mesmo tempo atípica, pois estabelece um conceito erraigado à essência de cada artista, cultura, modus vivendis..


Assim faz refletir a mega exposição de rua COW PARADE que já rodou mais de 28 cidades ao redor do mundo, dentre as quais podemos destacar: Chicago, Nova York, Londres, Genebra, Praga, Las Vegas, Bruxelas , Praga e Moscou. Calcula-se que a exposição foi vista por mais de 100 milhões de pessoas no mundo e arrecadou em torno de US$ 11 milhões para projetos de responsabilidade social.


A Cow Parade é um dos maiores e mais bem-sucedidos eventos contemporâneos de arte de rua do mundo. Com mais de cinco anos de existência é um dos poucos projetos que envolvem a comunidade de uma forma global: empresas, artistas locais, terceiro setor e o público trabalham em conjunto para a criação e o sucesso do evento.
. Uma forma muito divertida de expressar a arte de rua e que abre inúmeras possibilidades para marcas de diversos segmentos, além de promover a democratização da cultura, da arte e da responsabilidade social, constituindo um efetivo canal de comunicação entre patrocinadores e seus públicos-alvos. A Cow Parade foi considerada pelo Advertising Age, uma das principais publicações internacionais de propaganda, como uma das 10 melhores idéias de marketing do ano em 2001. Ao longo dos últimos anos, estima-se que foram produzidas e pintadas mais de três mil vacas, sendo que pelo menos 160 delas viraram miniaturas para coleção, o que provavelmente deve acontecer com uma ou mais vacasque estiveram expostas na cidade de São Paulo. As miniaturas do Cow Parade são consideradas o quarto maior ítem de coleção dos EUA (Shopcowparade).


O INÍCIO
Tudo começou em dezembro de 1996, quando o pai do artista plástico Pascal Knapp, Walter Knapp pediu ao filho para projetar uma vaca em tamanho natural, para uma exposição tradicional "Ahoyland" em Zurique, Suíça. A vaca é um dos símbolos do país, que é conhecido no mundo todo por seus chocolates. Estes bovinos gigantes seriam distribuídos para os artistas locais usarem e abusarem de sua criatividade pintando da forma que desejassem. Utilizando como matéria-prima principal a fibra de vidro, Pascal fez vários estudos, primeiro com quilos de argila, madeira e fios. E em cinco semanas, trabalhando arduamente esculpiu a primeira vaca em três dimensões, em pé como se estivesse andando e de cabeça levantada, que após muitas modificações e aproximadamente duas toneladas de argila conseguiu ser finalizada. O primeiro protótipo preservou a amigável aparência do animal ao mesmo tempo em que foram significadamente definidas suas formas e anatomia, aplainando ângulos e curvas que no decorrer do processo serviram como desafios e inspiração ao artista. Knapp que estilizou várias vacas em fibra de vidro para uma parada da cidade. Foi um sucesso desde a sua concepção.


O advogado norte-americano, Jerry Elbaum, ficou encantado com o evento e resolveu comprar os direitos das esculturas de Knapp e criou o holding Cow Parade. No verão de 1997, Pascal começou o laborioso processo e criou os modelos de argila das vacas reclinadas e pastando, onde obteve ainda mais elogios que o primeiro protótipo da escultura em pé de cabeça ereta.


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Logo em seguida, os eventos similares foram paulatinamente pipocando pelo país. Foi uma invasão de porcos, bacalhaus, tubarões, pelicanos, anjos, cabeças de batatas, todos produzidos e distribuídos à artistas locais, mas que não atingiram a mesma projeção e admiração das esculturas das vacas. Alguns supersticiosos de plantão chegaram mesmo a imaginar que havia algo de "muito estranho" com o motivo vaca, por que somente elas podiam brilhar ao sol, por que tanta projeção?

A VACA COMO PRODUTO DA INDÚSTRIA CULTURAL
Tudo isto é muito interessante se não levarmos a cabo a reflexão de que a obra de arte passa a ser um bem acessível à população, mas perde o que Walter Benjamin , grande expoente da Escola de Frankfurt, defendia: "a aura da obra de arte" com as sucessivas reprodutibilidades observadas neste exemplo das vacas de três formas distintas: em pé com a cabeça ereta, sentada e em pé com a cabeça baixa.
Além de Benjamin, outros expoentes da Escola de Frankfurt, composta por um grupo de intelectuais que em 1923 fundou na Alemanha um Instituto para a Pesquisa Social, viam na sucessiva repruditibilidade de bens culturais, uma mudança de hábitos e estruturas, a concepção generalizada e banalizada de uma indústria cultural. De acordo com Horkheimer, M. e Adorno, T.W. a indústria cultural traz à luz o tratamento dado à arte popular e à arte erudita e burguesa, geralmente misturando ambas, de forma que sejam transformadas e apresentadas sempre como produtos industrializados para serem reproduzidos e consumidos em grande escala. Seus consumidores tornam-se meros objetos e perdem a condição de sujeito. O que é oferecido ao consumidor é mercadoria; o que importa é o que é vendável e o que tem mercado para ser consumido e o consumidor como objeto de lucro. Tudo se transforma em artigo de consumo. No mercado, todas as teorias se equivalem, seja a de Marx, Hitler ou Lênin. E aqui vai o questionamente: as vacas são obras de arte? São outdoors ambulantes estilizados? São produtos facilmente consumíveis? É uma mercadoria onde o patrocinador expõe sua marca?
Todas as manifestações artísticas e culturais que são repetidas como se fossem uma fórmula popularizam-se, são consumidas de forma intensa e são refletidas nesta indústria da cultura. Tais circunstâncias intensificam a passividade humana e a uniformização técnica leva, por sua vez, à administração centralizada.
Adorno dizia que a indústria cultural aponta para um mundo dominado pelo princípio da indiferença, tal como este é concebido no pensamento do economista e filósofo Karl Marx: a indiferença entre coisas e coisas, coisas e homens, homens e homens e complementa:

"A arte ligeira tem sido a sombra da arte autônoma. É a má consciência social da arte séria [...]. A própria divisão é a verdade: pelo menos ela expressa a negatividade da cultura que as diferentes esferas constituem. E menos ainda pode a antítese ser reconciliada absorvendo-se a arte ligeira na séria ou vice-versa".[1]

Sob este aspecto, podemos considerar que no mercado a transmutação de todos os valores se equivale ao valor de troca. Em contrapartida, a noção de indivíduo - aquela que se forjou no Iluminismo do século XVIII - continua intacta para ser vivida. E a Cow Parade tem uma valor substancial na era da globalização, pois a arte de cada país com suas tradições e folclore pode ser identificada e consumida, preservando as suas características, mas não deixa de ser um dos três tipos de canvas desenvolvidos por Pascal, só muda a decoração.
O que expressou fundamentalmente os frankfurtianos foi a noção de indivíduo, numa guerra declarada às leis do mercado que regiam a vida de cada homem:

"Tudo o que pode ser comparado, pode ser trocado, tem um preço; o que não pode ser comparado, não pode ser trocado, não tem preço, mas dignidade : o homem. Para que o homem pudesse ser trocado, foi necessária a construção de uma igualdade abstrata, porque destituída das diferenças entre indivíduos concretamente desiguais, incomparáveis era necessária a destruição da unicidade deste".[2]

Portanto para eles, os produtos da Indústria Cultural teriam cinco utilidades fundamentais:

  • Serem comercializados
  • Promover a deturpação e a degradação do gosto popular
  • Obter uma atitude sempre passiva dos seus consumidores
  • Igualar os gostos e padrões
  • Baratear custo


Como eram feitos para serem vendidos, os produtos da Indústria Cultural tinham a função de sempre "agradar ao consumidor". A produção era homogeneizada. A visão crítica por parte do espectador não era possível dentro da Indústria Cultural, pois "a transformação do ato cultural em valor suprime sua função crítica e nele dissolve os traços de uma experiência autêntica". [3]


Embora seja fundamental para a análise dos meios de comunicação de massa, em especial na primeira metade do século passado, a noção de Indústria Cultural tem sido objeto de diversas críticas. Martellart em História das Teorias da Comunicação, por exemplo, desconfia que T.W. Adorno e M. Horhheimer estigmatizaram a Indústria Cultural em decorrência de seu processo de fabricação atentar contra certa sacralização da arte: "Na verdade, não é difícil perceber em seu texto o eco de um vigoroso protesto erudito contra a intrusão da técnica no mundo da cultura". (Martellart, p. 79).[4]


Quando se fala em Indústria Cultural é importante destacar que ela é fruto de uma sociedade capitalista industrializada, em que até mesmo a cultura é vista como produto a ser comercializado. E nesse caso vem o questionamento.
Mas afinal, o que é Indústria Cultural? Podemos dizer que tudo o que é produzido pelo sistema industrializado de produção cultural (cinema, rádio, jornal, revistas, propaganda, entre outros) é elaborado de forma a influenciar, aumentar o consumo, transformar hábitos, educar, informar, pretendendo-se ainda, em alguns casos, ser capaz de atingir a sociedade como um todo.


Assim, cada vez mais, a máquina da Indústria Cultural, ao preferir a eficácia dos seus produtos, determina o seu consumo e exclui tudo o que é novo, tudo o que ela configura como risco. A identidade do domínio que a indústria cultural exerce sobre os indivíduos, aquilo que ela oferece de continuamente novo não é mais do que a representação, sob diferentes formas, de algo que é sempre igual.


Verlaine Freitas comenta que para T.W. Adorno: "O indivíduo autônomo, consciente de seus fins, está em extinção, em desaparecimento. É ele que deve ser recuperado"[5]; porque é ele que está sendo levado automaticamente por uma estrutura forçosamente autoritária e camuflada, sem identidade social, metamorfoseando-se e mesclando-se ao contexto da indústria cultural


Esta mega exposiçaõ pode ter lá o seu caráter consumista por termos várias vacas fabricadas em série, e elitista também, por depender de um patrono para que se possa ter o exercício da arte, mas é sobretudo democrática, por deixar cada local pintar suas vacas da maneira que melhor lhe convier. Ela não deixa de extrapolar os limites de uma globalização já deflagrada, exportando vacas de fibra de vidro para várias cidades do mundo ao mesmo tempo, com o detalhe de não perder a sua autenticidade e respeitando a sua glocalização. É preciso ter coragem para se fazer uma COW Parade e ela está aí para que ninguém diga ao contrário. É interessante observar que Walter Benjamin criticava a obra de arte com o advento da fotografia, o que será que diria da extrapolação das quase 3000 vacas pintadas de diferentes formas em mais de 28 cidades ao redor do mundo. Noção de espacialidade ele tinha, pois era um viajante, um buscador de identidades estrangeiras como bem salienta Massimo Canevacci:


" Benjamin trabalhou constantemente sobre a cidade, com uma abordagem que pode ser absorvida sob a condição de aceitar sermos empurrados para uma desorientação pessoal. Com ele pela primeira vez a redação de uma pesquisa sobre a cidade - não só a respeito de Paris, mas também Moscou, Berlim, Nápoles, Marselha, etc. - encara com a mesma seriedade a grande poesia e a publicidade nascente, a filosofia e o jornalismo, a arte de vanguarda e os estilos eminentemente móvel, suja como os resíduos e farrapos que pretendia redimir"[6] ( p. 101)

Benjamin era um homem do futuro que olhava o mundo com olhos de criança. Sabia onde estavam os pontos de fuga das grandes metrópoles. Estabelecia com elas alguns pactos de descobertas, seguidos de ritos de passagem. Cada lugar, segundo ele, possuía seus cheiros, suas cores, seus ir e vir, seu tempo, seu espaço. Ele foi um dos primeiros a descobrir os mistérios da passagens. As galerias parisienses do século XIX , com suas lâmpadas à gás, o reflexo dos espelhos e as vitrines coloridas traziam um fascínio transformador, o grande segredo entre o novo e o velho, o interior e o exterior, o presente e o passado. E é esta sensação que esta exposição nos traz, uma espécie de dejá vu, porque como bem coloca Pascal:
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"Não há realmente nenhum outro animal que pode adequadamente substituir a vaca e produzir o mesmo grau de realização artística evidente neste MOO-seum. As estruturas da área de superfície e dos ossos são perfeitas, como também. a altura e o comprimento.
A vaca faz parte do nosso inconsciente e ela nos remete à nutrição, amor, aconchego, proteção. Ela nos passa segurança, pois promove o nosso desenvolvimento".


COW PARADE NO BRASIL
São Paulo foi a cidade escolhida para sediar a primeira CowParade da América Latina. 150 esculturas de fibra de vidro no formato de vacas, em tamanho natural, assinadas por alguns dos mais renomados artistas plásticos, arquitetos, estilistas, diretores de arte, grafiteiros e designers do Brasil, entre outros representantes das diferentes linguagens artistícas fizeram parte da exposição. O rebanho criativo levou arte à diversas áreas na cidade, as obras foram expostas em locais públicos e áreas privadas como shopping centers, lobby de hotéis, sedes corporativas e os principais pontos turísticos e comerciais da cidade, como avenida Paulista, Parque do Ibirapuera e Praça da República. Pontos conceituados por receber obras internacionais e difundir a arte brasileira, a Pinacoteca do Estado, MASP, MuBE, MIS, Museu da Casa Brasileira, Memorial da América Latina e Sala São Paulo foram algumas das localidades que integraram o circuito. Multicoloridas, modernas e arrojadas as esculturas de vacas também alegraram aeroportos, rodoviárias, estações de metrô da zona norte, sul e oeste passando pela Sé, Luz e Anhangabaú, entre outras. A iniciativa privada também abriu suas portas para o rebanho nos centros empresariais São Paulo, Nações Unidas e Conjunto Nacional. Entre os bancos, sediaram a mostra: Itaú, Real, Safra, Santos e Bank Boston.Enfim locais de grande fluxo de pessoas, transformando o espaço urbano em uma gigante galeria de arte em céu aberto.


A edição brasileira do maior evento de arte de rua do mundo recebeu 573 projetos, inscritos por 377 artistas. A iniciativa foi da Toptrends, Tendências e Soluções em Comunicação, que assinou contrato de licenciamento com a CowParade Holdings Corporation, instituição americana. A realização ficou a cargo da Farah Service, uma das principais empresas de marketing de responsabilidade social do mercado brasileiro.


O Comitê de Arte, composto pelo curador Ricardo Resende, o crítico de arte Guy Amado, o diretor do Clube de Criação, Gilberto dos Reis e o arquiteto Ronado Kapaz, da Oz Design e membro do Conselho de Ética da Associação dos Designers Gráficos (ADG), selecionou 141 projetos, que participaram da CowParade - Circuito das Vacas São Paulo 2005. Os critérios de seleção, estabelecidos de acordo com as regras da CowParade Holding, empresa americana detentora dos direitos autorais da mostra internacional, priorizaram dois quesitos: a qualidade da obra e a viabilidade da execução do projeto. Além dos artistas selecionados, o portfólio do evento, que ocorreu no primeiro semestre de 2005, também contou com obras de artistas convidados como: Luiz Hermano, Rui Amaral, Guto Lacaz, , os estilistas Lino Villa Ventura e Jum Nakao e o arquiteto Arthur de Mattos Casa.e Anita Kaufmann, que desenvolveu dois temas: um sobre o centro de São Paulo, a Ecovaca, preocupada com a arborização da cidade, mostra a importância do verde em meio a milhares de prédios. Foram colocadas mais 600 folhas na escultura. Outro, a vaca Dupla Nacionalidade, a primeira vaca colocada em exposição na entrada da empresa Amcham, uma das patrocinadoras do projeto. Esta leva no dorso as bandeiras estilizadas do Brasil e EUA, enfatizando o elo de ligação entre os dois países.


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Todas as peças do CowParade foram patrocinadas e "adotadas" por empresas. Os autores dos desenhos que participaram da mostra receberam um kit de tintas e ajuda de custo para execução da obra. As esculturas contaram com uma placa de identificação com os nomes do autor da obra e do patrocinador.
O interessante neste projeto foi que além dos artistas selecionados e convidados, quinze das 150 esculturas de vacas foram pintadas pelas crianças e adolescentes de 15 organizações ligadas à Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, como segue o release da assessoria do evento:
Alunos de escolas públicas pintam vacas para exposição CowParade
Projeto "Vacas nas Escolas", realizado em parceria com a Fundação Abrinq e Toptrends e patrocinado pelo Instituto Votorantim, terá cinco vacas pintadas nos dias 14 e 16 de setembro.


Os alunos da Escola Estadual Doutor Vidal Fogaça de Almeida, na zona leste, irão pintar na quarta-feira, dia 14 de setembro, a partir das 9h, três vacas em tamanho natural feitas de fibra de vidro, que farão parte da exposição CowParade - Circuito das Vacas, em cartaz em locais públicos da cidade de São Paulo.
Com idades entre 12 e 18 anos, os alunos receberão apoio técnico de dois artistas plásticos: Carlos Barmak, arte educador, e Marcela Ascar, cuja vaca "Miss Tropicow" já integra a exposição CowParade. No dia 16, serão pintadas outras duas por alunos da Escola Estadual Dom João Maria Ogno, também na zona leste. Os estudantes que participam do projeto foram selecionados pelos professores de arte das escolas (de 5ª série ao ensino médio).


Os eventos fazem parte do projeto "Vacas nas Escolas", formatado pela Fundação Abrinq e patrocinado pelo Instituto Votorantim, para colocar alunos da rede pública de ensino em contato com a realização artística. Depois de pintadas, as vaquinhas ficarão expostas na Praça Ramos, no centro, e na avenida Luiz Carlos Berrini, região sul da cidade.


As escolas escolhidas para participar do "Vaca nas Escolas" fazem parte do programa Crer para Ver, da Fundação Abrinq em parceria com a Natura, cujo objetivo é dar apoio financeiro e técnico a projetos de melhoria do ensino público. Nessas escolas, o programa apóia o Projeto Cinema e Vídeo Brasileiro, desenvolvido pela Ação Educativa, que visa a aproximação das comunidades escolares com a linguagem audiovisual, por meio de videotecas, mostras temáticas e formação de professores.[7]
Em dezembro, haverá um grande leilão das esculturas das vacas no MuBE (Museu Brasileiro da Escultura), cuja verba será revertida para a Fundação Abrinq, entidade sem fins lucrativos, de Utilidade Pública Federal, criada em 1990 por um grupo de empresários. Sua missão é promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania da criança e do adolescente, usando como estratégia a articulação e a mobilização da sociedade civil e do poder público para transformar a criança e o adolescente em prioridade, além de promover e dar visibilidade a políticas e ações bem-sucedidas que possam ser disseminadas.


Mas a Cow Parade não pára em São Paulo e segue viagem pelo Brasil. Em 2006 ela vai para Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre e em 2007 chega no Rio de Janeiro. Segundo Catherine Duvignau, sócia-diretora da Toptrends, "a tendência é de que o interesse em expor as vacas decoradas aumente e que o país ganhe maior visibilidade perante os criadores internacionais da mega exposição open air[8]". Já pelo mundo, a Parada das vacas multicoloridas invade novas cidades até 2006 como Buenos Aires (Argentina), Lisboa (Portugal), Cidade do México (México, Varsóvia (Polônia), Bratislava (Eslováquia) e Florença (Itália) dentre muitas outras. Mas afinal, o que dizer para finalizar este ensaio sobre esta grande e maravilhosa manifestação artística, que extrapola o universo das artes plásticas, quebra os muros das galerias de arte, populariza o elitizado, coloca a população para olhar, mexer, fotografar, montar, se enquadrar, às vezes até danificar a vaca que nos é tão familiar que dá até vontade de levar para casa. Será que esta espécie de arte perde a sua aura ou a multiplica. Será que é também um produto da Indústria Cultural massificada, standartizada, sem um élan? Estamos em um tempo em que trocar de todas as formas, maneiras e conteúdos faz parte do "nosso show". A cidade oferece descobertas e seguir a rota das vacas virou uma grande brincadeira, como Benjamim salientou: "Não saber se orientar numa cidade não significa muito. Perder-se nela, porém, como a gente se perde numa floresta, é coisa que se deve aprender a fazer"[9]
E finalizo com Vaca Profana, de Caetano Veloso, que neste caso não poderia ter sido mais feliz para mostrar que a arte está atualmente no "sem fronteiras" na passagem entre o real e o irreal, o mágico e o concreto.


Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a "movida Madrileña"
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los "puretas"
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha cara
Nada de leite para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é "meu bem, meu mal"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us plau"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas... |


[1] Horkheimer, M.; Adorno, T.W.; T,W.; Habermas, J; - Textos Escolhidos., p.49

[2] Adorno, T.W.Théorie esthétique. Paris, Klincksieck, 1974, p.97.

[3] Hobsbaw, Eric. Em torno a los Orígenes de la Revolución Industrial. Madrid, 1988.

[4] Em História das Teorias da Comunicação, o autor traça um panorama sobre a comunicação de maneira detalhista e bastante concisa.

[5] Freitas, Verlaine, Adorno & Arte Contemporânea. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 2003

[6] Canevacci, Massimo, Cidade Polifônica. São Paulo, Estúdio Nobel Ed, 1997

[7] Release produzido pela assessoria de imprensa da Top Trends, a Cia. Da Informação, que está aos cuidados de Denise e Melissa no telefone 3071.3494.

[8] Catherine Duvignau é uma das mentoras da idéia no Brasil e salienta que as vacas são diariamente "produzidas" e arrumadas por uma equipe intitulada "Cow Hospital", um caminhão que faz a manutenção das esculturas limpando, lustrando e repondo adereços como caudas, chapéus e óculos

[9] Walter Benjamin, in: Canevacci, M - A Cidade Polifônica. Massimo segue a mesma trajetória de Benjamin, descobrindo os labirintos metropolitanos em que faz uma grande homenagem poética à uma metrópole chamada São Paulo