UMA INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA DA
TEORIA DE RENDA
Csaba Deák
No espaço aberto pela rejeição
da
teoria de renda esboça-se um arcabouço de uma
análise
da organização espacial da produção
mediante
uma construção de categorias novas, próprias do
capitalismo,
tais como espaço, localização e
preço
do solo como forma de pagamento pela localização e parte
integrante do preço de produção das mercadorias.
Introdução
Marx
O objetivo deste capítulo é alinhavar as principais vertentes de uma crítica e de uma interpretação histórica da teoria de renda, que permita a rejeição da teoria de renda, e mostrar que isto é um passo inicial necessário para desobstruir o caminho da análise da organização espacial da produção capitalista. Uma primeira etapa subseqüente para a elaboração de um arcabouço teórico da organização espacial propriamente dita está esboçada no próximo Capítulo 52. Mencione-se desde já apenas, para colocar o que será exposto abaixo em contexto, que a rejeição da teoria de renda deve ser seguida de uma etapa dedicada à construção de conceitos básicos tais como espaço e localização, por um lado, e por outro lado, a transformação do processo individual de produção, incluindo o tratamento do capital fixo e circulante. Aí finalmente se pode construir o arcabouço de análise da organização espacial no capitalismo enfocando-se, em um primeiro momento, o preço do solo e a regulação pelo mercado, momento esse que, por suas limitações inerentes, leva necessariamente ao enfoque, em um segundo momento, de uma interpretação da intervenção estatal. Nessa etapa acaba por se revelar a articulação de ambas as instâncias de organização, a saber, regulação pelo mercado e intervenção estatal, através da dialética da forma-mercadoria constituída pelo antagonismo entre as tendências e contratendências para a generalização da produção de mercadorias, assim como para a concomitante reificação das relações sociais, no capitalismo.
Se a questão da teoria de renda tem uma
importância
óbvia para a questão da organização
espacial,
a mesma é igualmente relevante e central para outras
questões,
umas mais, outras menos, ligadas àquela última, tais como
o chamado 'caos' das cidades e a especulação
imobiliária,
o problema habitacional, o preço das mercadorias ou a
questão
da tendência de queda da taxa de lucro, isto é, o
próprio
desenvolvimento do capitalismo. Assim, mesmo se o motivo inicial em
enfocar
a teoria de renda for uma indagação acerca do
preço
do solo e de seu papel na organização espacial, no
prosseguir
da crftica o mesmo enfoque inevitavelmente se amplia para abranger
algumas
das questões fundamentais da produção e
reprodução
capitalista. Tais questões, no entanto, serão apenas
assinaladas
aqui, onde nos ateremos principalmente ao primeiro passo para uma
análise
da organização espacial da produção
capitalista,
a saber, à crítica e interpretação
histórica
da teoria de renda em Economia Política.
A transição do feudalismo para o
capitalismo
na Inglaterra
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Na grande luta do século XVII para decidir a quem iria o proveito decorrente da extensão do cultivo que era necessária para alimentar as cidades em crescimento, o povo subalterno (common people) foi derrotado tâo decisivamente quanto a coroa.
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O pano de fundo da teoria de renda, assim como da
própria
Economia Política, é a sociedade que emergiu da
Revolução
Inglesa após a Restauração da monarquia em 1660.
Com efeito, a teoria de renda é inglesa e somente pode ser
interpretada
tendo em vista as peculiaridades da sociedade que lhe deu origem. Tais
peculiaridades, por sua vez, decorrem do modo pelo qual se deu a
transição
do feudalismo para o capitalismo na Inglaterra.
Henrique VII
A transição começa com a
conclusão
das guerras de dinastias do século XV
(as prolongadas
'Guerras das Rosas') e que marca a dissolução da ordem
feudal
naquele país. O período que se segue já pertence a
uma nova era. Não houve transformação nas
instituições
– Henrique VII era rei ao mesmo título
que
seu predecessor, Ricardo III – mas o longo
reinado
dos três Tudors corresponde ao nascimento e
consolidação
de
fato do Estado-nação burguês. Henrique VII
usava chapéu em vez de coroa, empenhava-se na
construção
de uma poderosa marinha mercante e ao estímulo do
comércio
e das manufaturas, e governava apoiando-se na burguesia das cidades4,
política essa seguida também por seus sucessores, de
Henrique
VIII
a Elisabeth I. A derrota da Armada
Invencível
de Filipe II pela frota inglesa (1588)
foi apenas um marco visível e conseqüência do
dinamismo
da nova nação-estado. Em contraste com as monarquias
absolutistas
a que a crise do feudalismo deu origem na Europa continental, onde se
desenvolvia
a burocracia estatal que substituía a classe dominante decadente
–dos senhores feudais–5, o
período
Tudor na Inglaterra é marcado pelo fortalecimento ininterrupto
da
burguesia.
Desenvolvimento capitalista em arcabouço institucional feudal tinha seus limites, naturalmente. Estes se fizeram sentir assim que um monarca menos esclarecido (Charles Stuart I) se resolveu à fútil tentativa de dar marcha a ré e reverter o processo de erosão do poder real. A crise impunha a solução de quebrar as instituições feudais e assentar as fundações do Estado burguês, vale dizer, impunha a revolução burguesa. 0 modo pelo qual a revolução seria realizada era imposto pela especificidade da trajetória histórica que a precedia, acima esboçada.
A
Revolução Inglesa que se desenrola entre a revolta de 1640
e a Restauração (da monarquia, agora sob a tutela do
Parlamento)
de 1660 tem isso de particular: que a burguesia leva sua luta contra a
nobreza sem entrar em aliança com as classes subalternas do
campesinato
– à diferença, por exemplo, da Revolução
Francesa6,
tida por muito tempo como o próprio modelo de
revolução
burguesa7. A possibilidade de tomar
tal
curso havia sido aberta à burguesia pelos desenvolvimentos do
período
Tudor, do qual essa última emergiu suficientemente forte para
poder
estabelecer sua dominação através da
utilização
de seus próprios recursos. É bem verdade que 'homens
comuns'
–cultivadores independentes, artesãos, baixo clero, etc.–
tomaram
parte nas lutas ao lado da burguesia, que no entanto nunca perdeu a direção
dos acontecimentos. Sempre que esta foi desafiada pelo movimento dos Levellers
('Niveladores', que propunham a igualdade de todos através da
abolição
da propriedade privada), como em 1647 e 1649, o movimento era
imediatamente
sufocado e seus dirigentes executados8
. Assim, a burguesia inglesa era capaz de conduzir os acontecimentos
segundo
seus próprios desígnios durante todo o desenrolar da
revolução.
Aí reside, precisamente, a especificidade da Revolução Inglesa, e que teve um resultado duplo. Por um lado, o caminho estava livre para a transformação integral do campesinato, servos e cultivadores livres igualmente, em proletariado, constituindo força de trabalho assalariado abundante9. Para ressaltar esse ponto fundamental, Christopher Hill contrasta as duas revoluções, resumindo a essência da questão:
Tal aliança se manteria durante dois
séculos,
embora com o paulatino fortalecimento da posição relativa
da burguesia. É esse o período de gestação
e florescimento da Economia Política, a ciência da
burguesia
ascendente.
A conquista final da hegemonia pela burguesia no campo institucional
através
do alargamento do sufrágio de uma base de 220 000
para cerca de 670 000 eleitores pela 'Reform
Bill'
de 1832 l0, e que permite assumir o
pleno
controle da economia (vitória do 'livre-comércio' e
abolição
das barreiras de proteção à produção
de cereais – as Corn Laws, 1846), vale
dizer,
a conquista do aparelho do Estado, já marca também o
declínio
da Economia Política através de sua
vulgarização
em economia utilitário-marginalista (Mill, Evans, Marshall) – a
ciência da burguesia no poder.
O conceito de renda em Economia Política
A
gênese
do conceito de renda capitalista é complementada pelo fato de
que
a Economia Política herdou o conceito de renda dos fisiocratas.
Assim, tanto o conceito de renda, quanto os pressupostos básicos
da teoria de renda, decorrem da maneira pela qual Adam Smith efetua a
incorporação
da categoria 'renda' em sua teoria do capital. Ora, Smith já
negava
à terra o atributo de ser 'fonte de toda riqueza', como era tido
pelos fisiocratas13, atribuindo este
ao
trabalho, mas conservava a visão – que viria a ser conservada
por
toda a história da Economia Política – de que a terra
é
um recurso natural e a noção que daí
decorre,
a saber, que a renda é um pagamento por uma dádiva da
natureza
'monopolizada' por uma classe. E fácil ver que a mudança
operada por Smith corresponde âs mudanças sociais
ocorridas
na Inglaterra. Mais de cem anos após a revolução –
A
riqueza das nações data de 1776
– a hegemonia burguesa estava inequivocamente estabelecida a esta
dependia
do trabalho assalariado, o que impunha o enunciado da teoria do
valor-trabalho.
Por outro lado, a presença da classe de senhores de terra na
visão
da Economia Política trazia com ela a noção da
natureza,
herdada do feudalismo assim como a própria noção
daquela
classe.
Em suma: o conceito de renda no pensamento da economia clássica da linhagem Smith–Ricardo–Marx é de que a renda é um pagamento de transferência do excedente do trabalho entre duas classes: dos capitalistas aos proprietários de terra, em troca de direitos de uso desse recurso natural – dádivas da natureza – monopolizado por aqueles últimos enquanto classe.
Essa conceituação corresponde precisamente ao estágio de desenvolvimento das forças e das relações de produção na Inglaterra nos quase dois séculos que se seguem à revolução burguesa naquele país.
Vale salientar o que já está implicado
no
exposto acima, a saber, que para a Economia Política 'renda'
não
é mera tecnicalidade14, mas
é
uma categoria fundamental derivada da visão de uma sociedade
concreta.
Ainda, e como decorrência, que a teoria de renda ocupa uma
posição
central no arcabouço teórico da Economia Política,
sendo relacionada a alguns de seus pressupostos e teses fundamentais,
tais
como a concepção de equilíbrio, a teoria do valor
ou a taxa generalizada de lucro e sua tendência à queda.
Antes
de passar à discussão desses últimos, vamos
considerar
por um momento as 'tecnicalidades', isto é, a forma
específica
da teoria de renda.
Ricardo e a renda diferencial

Ricardo expôs o essencial de sua teoria de
renda
em seu Princípios da Economia Política (1817)
de uma forma clara e concisa, e que pode se expor em síntese
como
segue. Os investimentos em um regime de retornos decrescentes e livre
circulação
de capitais sobre terras de diferentes qualidades A,
B
e C defimidos pelas respectivas
funções
de produção são tais que os retornos sobre a
última
unidade de capital investido – os retornos marginais – são
iguais
entre si e à taxa média de lucro na economia (figura
abaixo).
O preço de mercado do cereal (o mesmo em todas as terras, sendo
o 'produto básico') é o preço de
produção16
na pior terra C, onde não
há
renda. Assim, os capitalistas produzindo nas terras melhores, A
e B, podem –e também devem,
devido à
competição entre capitalistas pela terra– pagar as rendas
RAPAeRBPB
respectivamente, ficando com um lucro à taxa média p
. Renda é assim um 'excedente de retorno' acima da taxa
média
de lucro –às vezes chamada de 'sobrelucro'17–
que resulta da produção de um mesmo produto (cereal)
sobre
terras de diferentes qualidades, sobre todas as terras exceto a de pior
qualidade. É um resultado das condições naturais
da
produção e embora ela vá parar no bolso dos
senhores,
ou proprietários de terra, esses últimos não
têm
nenhuma participação em sua criação – de
fato,
no capitalismo, eles foram tão completamente alienados da
produção
que "o proprietário de terra poderia passar toda sua vida em
Constantinopla,
enquanto suas terras estejam na Escócia"18.
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Renda diferencial: Funções de produção de três tipos de terra de diferentes fertilidades A, B e C. A parcela do retorno total abaixo de cada curva assinalada pela hachúria é 'sobrelucro', acima da linha P = I (l + p ), onde P é o retorno sobre o investimento I e p é a taxa média de lucro na economia.

Os pressupostos da teoria de renda
Havíamos visto que os pressupostos fundamentais da teoria de renda decorrentes do próprio conceito de renda são, primeiro, que renda é o pagamento por uma dádiva da natureza – as propriedades produtivas naturais do solo –, e segundo, que a mesma é um pagamento de transferência de uma classe a outra, de capitalistas a senhores de terra. A esses pressupostos somam-se outros, específicos à teoria de renda diferencial acima esboçada.
Em primeiro lugar, o pressuposto do equilíbrio que permite que todos os capitais estejam, 'em determinado instante', nas devidas posições sobre as funções de produção para serem remunerados com o mesmo retorno marginal. Em segundo, o pressuposto da perfeita fluidez de capitais que permite que, após uma alteração das condições de produção (como, por exemplo, uma expansão da produção ou introdução de uma nova técnica de produção), um novo equilíbrio possa ser atingido instantaneamente – isto é, os atuais processos de produção possam ser substituíveis pelos novos sem fricção, ou custo, como seria a inutilização do respectivo capital fixo. Em terceiro lugar, o pressuposto da existência de um produto único, ou 'básico' (na tradição da teoria de renda, grão), cujo preço no mercado unificado19 estabelece os diferenciais de produtividade das terras de diferentes qualidades – com produtos diferentes produzidos sobre terras de qualidades diferentes, cada qual com seu próprio preço de mercado, a renda diferencial torna-se inconcebível, independentemente de haver ou não pagamento pelo direito de uso da terra20.
Por fim, vale mencionar aquilo que parece ser uma dedução, mas em verdade é um pressuposto, a saber, que a pior terra não paga renda. Isso poderia parecer uma questão de somenos importância, ainda que a assunção como tal contradiga o bom senso (já que ninguém cederia o direito de uso de sua terra sem uma contrapartida). No entanto, o mesmo é de fato um pressuposto necessário para salvaguardar não menos que a teoria do valor de Ricardo:21 o preço da mercadoria (aqui, o grão), expressão do valor da mesma, e determinado pelo preço de produção na pior terra, não pode incluir um componente que não se origine no trabalho. Daí que a renda é um 'sobrelucro' (nem lucro, nem trabalho necessário); mas sobrelucro na pior terra é nulo e assim necessàriamente nula é também sua renda.
O conjunto de seus principais pressupostos, assim
reunidos,
permite-nos efetuar uma avaliação crítica da
teoria
de renda22, que a seguir
esboçamos
sumàriamente. Tendo em vista que o interesse na teoria de renda
deve-se a uma eventual aplicação sua à
análise
do processo urbano, um critério relevante de
avaliação
diz respeito à correspondência, ou não, de seus
pressupostos
às características do capitalismo contemporâneo. O
que precede provavelmente já deixa entrever que a teoria de
renda
dificilmente resistirá a uma crítica por esse
critério.
A surpresa maior deve ser a descoberta que, na verdade, os pressupostos
da teoria de renda nunca tiveram raiz em características
concretas
de qualquer estágio do capitalismo.
Estação
espacial
Mir
Quanto ao pressuposto fundamental de que renda é
um pagamento por uma dádiva da natureza, poderia parecer
razoável
na Inglaterra do séc. XVIII –
época
de nascimento da teoria de renda – quando a principal
'indústria'
era a agrictultura23 e o teor
'natural'
das condições de produção parecia
predominante.
Já a mesma visão carece de qualquer
verossimilhança
no capitalismo contemporâneo até na agricultura, para
não
falar das aglomerações urbanas que são
espaços
historicamente produzidos em que se paga pela terra enquanto
localização
naquele espaço e não como recurso natural. Mas não
é só isso: um exame mais atento revela que de fato nunca
se pagou por terra enquanto recurso natural, senão
enquanto
propriedade
privada o que é certamente um produto social e não um
dom da natureza (haja visto o caso do desafortunado Mr. Peel contado
por
Wakefield, e recontado por Marx).24
Segundo o outro pressuposto fundamental indispensável ao próprio conceito de renda, essa última é um pagamento de transferência da classe dos capitalistas a uma classe de proprietários de terra, o que implica naturalmente na existência dessa última como uma terceira classe da sociedade capitalista ao lado do proletariado e da burguesia, ou seja, na 'Fórmula da Trindade' da Economia Política já referida. Aqui também é inevitável a conclusão de que imaginar a sociedade capitalista em três classes não é somente um erro, hoje evidente, de interpretação histórica e que há um século seria menos evidente25, como também não encontra fundamento na dialética das relações sociais em que capitalistas opõem-se a assalariados e senhores feudais opunham-se (no feudalismo) a servos. Como assinala Rey,
O segundo pressuposto, da perfeita fluidez de capitais, decorre do pressuposto do equilíbrio e é precisamente um exemplo de anulação do concreto (a transformação do processo de produção) e sua substituição pela ficção do equilíbrio ('estados' tecnológicos de geração espontânea). É assim que o processo de substituição de técnicas de produção, ou seja, a obsolescência das técnicas e o próprio progresso técnico, nunca pôde ser satisfatoriamente analisado em teoria econômica. A melhor tentativa, na corrente neoclássica, é provavelmente Salter (1960). Mas seu conceito subjacente de equilíbrio em que taxa de retorno, taxa de lucro e taxa de juros se confundem, leva Salter à tentativa de construir um modelo de 'equilíbrio móvel', do qual os processos cruciais de desvalorização e crises ficam excluídos. Assim, as correntes de teoria econômica, sejam elas marxistas ou vulgares, continuam sem instrumento de análise da transformação do processo individual de produção, seu capital fixo e capital circulante, precisamente devido à presença do pressuposto da perfeita fluidez de capitais. É desnecessário dizer que tais teorias não podem servir de base a uma análise da transformação do uso do solo28 – sendo essa última nada mais do que a transformação de um processo de produção (ou de reprodução) –, vale dizer, do movimento elementar da organização espacial da produção.
Finalmente, quanto ao último pressuposto da teoria de renda diferencial, a saber, do produto único, ou 'básico', já foi mencionado que o mesmo não leva senão a uma indefinição na alocação de uma localização entre dois usos competidores. Também já foi assinalada a inconsistência daí decorrente para a teoria de renda (diferencial), que não pode admitir que a renda entre no preço do produto. Assim acrescentemos apenas que se pelas razões acima o pressuposto do produto único é inaceitável mesmo para uma análise da Inglaterra pré-revolução industrial, o mesmo torna-se irrisório para a análise do processo urbano contemporâneo, em que o fato crucial é precisamente a diferenciação do espaço e a diversificação dos usos na medida que a divisão social do trabalho se aprofunda29.
É fácil ver que a crítica de qualquer um dos cinco pressupostos aqui examinados fornece uma razão suficente, mesmo tomada isoladamente, para uma rejeição da teoria de renda. O quadro completo pode ser resumido como segue.
No estágio primitivo do capitalismo, a categoria de renda feudal foi transposta para a análise do capitalismo pela Economia Política, junto com o fantasma da classe de senhores de terra, a saber, os proprietários de terra. Membros dessa classe detêm um suposto monopólio de algumas dádivas da natureza – inclusive, da terra – renda sendo o pagamento pelo uso dos "poderes produtivos" da terra extraído por seus donos aos capitalistas. Tendo sido identificada com essa categoria fictícia, a renda da terra foi então analisada sob o pressuposto do equilíbrio (como na teoria de renda diferencial de Ricardo). Pelo fato desse último, por sua vez, implicar em perfeita fluidez de capitais (permitindo a transição de uma situação de equilíbrio a outra sem custo), a teoria de renda não pode sequer abordar a questão da transformação do uso do solo onde o fato crucial é a rigidez de capitais materializados em processos concretos (individuais) de produção30.
Para se formar uma idéia de pleno peso das
limitações
da teoria de renda, lembremos ainda que marginalismo é
precisamente
sua generalização para a economia como um todo31
– mas isto nos leva ao próximo tópico. A saber, à
questão de, posta a extrema fragilidade de seus pressupostos,
qual
a razão do inegável e indisputado sucesso de que a teoria
desfrutou desde sua promoção por Ricardo até
recentemente,
isto é, por mais de um século e meio? A resposta a essa
questão
reside naturalmente, não em alguma análise mais
pormenorizada
da teoria, senão em uma interpretação
histórica
da época específica em que tal sucesso prevaleceu.
O sucesso de Ricardo
No tempo de Ricardo a 'revolução industrial' jã estava em seu auge. A indústria inglesa em que agora predominava a manufatura, construida em um século e meio atrás das barreiras protecionistas34 implantadas desde a revolução de 1640-60, era a única indústria mecanizada do mundo e com uma capacidade de produção até então inimaginável que só poderia continuar a crescer através da conquista de mercados externos. Nestas condições, a política protecionista tradicional tornou-se obsoleta. A proteção à indústria manufatureira era simplesmente supérflua já que essa detinha ampla superioridade técnica em relação à indústria de qualquer outro país. Já a proteção à agricultura tornou-se francamente prejudicial para o capital industrial, por duas razões. Primeiro, porque mantendo o preço do cereal alto, obrigava à elevação dos salários para cobrir os custos de subsistência do proletariado que, naturalmente, incluem a alimentação – e, também para Ricardo, os salários são uma 'dedução' dos lucros35. Segundo, porque se a indústria inglesa estava pronta para exportar seus produtos mundo afora, protecionismo nos demais países era um obstáculo a isso, e a Inglaterra não podia razoavelmente esperar que seus parceiros comerciais levantassem as barreiras protecionistas deles, enquanto ela mesma mantinha suas próprias, situação essa da qual Metternich produziu um resumo cristalino ao dizer para o representante britânico em Viena: "Comprem nosso trigo e nós compraremos vossas manufaturas"36.
Os objetivos do capital estavam assim claramente definidos e se tornaram ainda mais prementes em meio à recessão que seguiu a conclusão das guerras napoleônicas (1815), que deram um estímulo extraordinário à grande indústria. Para completar o quadro em que a burguesia teria de operar para alcançar aqueles objetivos, resta esboçar a configuração das forças sociais em que tal processo se desenrolaria.
Havíamos dito que o período de dois séculos a contar da revolução inglesa era caracterizado pela ascensão ininterrupta da burguesia. Isso não significa dizer que a mesma ascensão tivesse se dado segundo uma trajetória linear e uniforme, ou na ausência de resistência dos trabalhores a sua submissão à condição de assalariados; apenas que em última instância a burguesia acabou sempre prevalecendo em sua luta para remover os obstáculos em seu caminho. Particularmente turbulento no referido período foi precisamente sua fase final, entre Waterloo (1815) e as revoluções européias de 1848, em que a burguesia estabeleceu seu controle político direto e implantou as modificações na política econômica em seu interesse. A luta pelo poder político foi conduzido em meio a intrincadas e efêmeras combinações entre classes e frações de classe, cuja interpretação desafiava a própria historiografia inglesa tradicional37. Uma das características principais desse período de transição compondo sua complexidade 'desconcertante' é que como resultado da revolução industrial, a iniciativa e liderança da burguesia estava passando dos mercadores aos industriais e que os primeiros estavam usualmente ao lado dos senhores de terra. Uma outra é que, em sua luta pelo poder institucional, a burguesia tentou arregimentar – com sucesso – a classe operária a seu lado. Para esse efeito, de todas as medidas que comporiam a legislação de 'livre comércio', a abolição da 'Lei dos Cereais' foi erigida como bandeira (combate à carestia, etc.) para angariar suporte popular, enquanto generosos fundos eram canalizados para financiar a panfletagem, transporte, etc, necessários para os movimentos de massa. Assim que a 'Reform Bill' foi aprovada (1832), essa 'aliança' foi rompida – o operariado ficou excluído do direito eleitoral –, mas a mesma explica a intensidade da agitação operária durante as primeiras décadas do século XIX, desproporcional para as relações de força prevalecentes entre o operariado e a burguesia38.
Nessas condições, a abolição da Lei dos cereais tornou-se a pedra angular de toda a política de livre comércio e colocou os acalorados debates contemporâneos em termos de uma oposição entre 'senhores de terra' e 'burguesia'. A teoria de Ricardo fornecia farta munição e uma arma eficaz para o lado dos abolicionistas. Além de apresentar argumentos para o rebaixamento do preço do cereal e assim a favor do desmantelamento das barreiras protecionistas, justificava a imposição de taxas sobre a renda, recuperando parcela dessa última para o controle do capital. Ainda, e numa perspectiva mais ampla, ao situar no aumento da renda a causa da tendência de queda da taxa de lucro, ressaltava o conflito de interesses entre proprietários de terra e capitalistas ao extremo: se a pressão do preço do trigo sobre os salários era um fardo no presente, a mesma tornava-se uma ameaça fatal a longo prazo para a própria existência do capitalismo.
Ricardo estava, portanto, do lado progressista e vencedor – é nesse sentido que e1e "tinha razão, tanto do ponto de vista prático quanto do ponto de vista histórico"39 e aí residem as razões de seu imenso prestígio frente ao qual as eventuais fraquezas de sua teoria podiam ser facilmente silenciadas e perdoadas. Na verdade, aquilo que na crítica acima esboçada aparece como a mais grave das fraquezas da teoria de renda, a saber, o pressuposto de retornos marginais iguais – que implica, por sua vez, o pressuposto do equilíbrio e imprime o caráter a-histórico à teoria de Ricardo –, estava longe de ser percebida como uma 'fraqueza' teórica pela burguesia industrial. Devido àquele pressuposto a renda aparece como se surgisse independentemente da vontade dos proprietários de terra, sendo uma decorrência da própria produção, da 'ordem natural das coisas'. Ricardo nunca sequer aludiu à abolição das rendas, discutindo apenas o nível das mesmas, advogando sua diminuição e taxação.
Essa característica de sua teoria permitiria mais tarde, após a vitória do capital industrial sobre os senhores de terra – ver também nos lucros uma simples conseqüência da produção em geral e não da produção capitalista em particular, assim como orientar a discussão entre trabalhadores e capitalistas para se manter nos confins de uma disputa sobre os níveis de salário, sem questionar a relação salário/capital mesma. Como se sabe, foi precisamente o que ocorreu com a referida generalização da teoria de renda para a economia como um todo pela economia neoclássica.
Assim, se o fato de que a teoria de renda de Ricardo
fornecia
uma justificativa para duas importantes medidas econômicas –a
saber,
a abolição da Lei dos cereais e a
taxação
sobre a renda– no interesse da burguesia contra os senhores de terra,
tornava
a teoria bastante atraente para a burguesia ascendente, o fato de ter
logrado
isso sem pôr o papel dos proprietários de terra na
produção
e distribuição do excedente em contornos demasiadamente
nítidos
ou em perspectiva histórica, tornava essa teoria ainda mais
atraente,
e sua fraqueza teórica acabou por constituir mais uma das
razões
de seu sucesso.
Marx e a teoria da renda


Várias abordagens se propõem aqui e nós nos ateremos abaixo a apenas uma delas. Assim, deixaremos de lado uma análise das contradições contidas nas perto de 500 páginas que Marx escreveu sobre a renda, ou a discussão da renda absoluta e sua relação com a teoria do valor40. Vale lembrar, no entanto, inicialmente, a natureza das fontes que contêm o grosso dos escritos de Marx sobre renda. O terceiro volume do Capital foi editado por Engels onze anos após a morte de Marx partindo de um mero esboço4l datado de 1865, enquanto que Teorias da mais-valia é efetivamente uma série de cadernos de notas tomadas no período 1861-3. Marx mesmo, não chegou a editar uma linha sequer sobre a teoria de renda, fato esse freqüentemente ignorado e que deu origem a numerosas interpretações apressadas e inadvertidas42.
O fato inescapável é que o
estágio
de evolução do capitalismo em seu tempo não
permitiu
a Marx ver que ao perseguir a análise da renda e da propriedade
em terra por uma classe, na verdade ele estava se debruçando
sobre
coisas do passado. Por volta de 1865 as
transformações
se aceleraram com o advento da Grande Depressão e Marx abandonou
de vez essa linha de investigação, preparando-se para
começar
um novo estudo sobre renda que afinal não pôde realizar43.
No entanto, mesmo que as condições históricas
não
fornecessem uma base para Marx refutar a teoria de renda e abandonar a
própria categoria renda – e o que é o mesmo, a classe de
proprietários de terra44 –, a
lógica
dialética impunha exatamente isso: na medida em que o
modo
capitalista domina a produção (Capital III:614),
não havia lugar em sua análise para categorias
correspondentes
a relações baseadas em modos de produção
pré-capitalistas
eventualmente sobreviventes. Análise histórica deve
seguir
não somente a observação, senão
também
a lógica dialética. Essa necessidade, se não levou
Marx a rejeitar de uma vez a categoria renda, o conduziu a uma
alteração
de vulto de toda a estrutura projetada de Capital. É
esse
filão que vamos explorar abaixo.
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Quando em 1857 Marx estruturou o trabalho que pretendia escrever sobre Economia Política, ele previa uma seqüência de seis livros. Os três primeiros corresponderiam às três classes da sociedade (capitalista) de acordo com a 'Fórmula da Trindade' já referida e inconteste em Economia Política, sendo: |
I Sobre capitalEsses seriam seguidos por outros três (IV Sobre o Estado, V Sobre o comércio exterior e VI Sobre o mercado mundial e crises) correspondendo a níveis sucessivos de expansão do processo de produção capitalista às escalas nacional, internacional e mundial respectivamente, a última sendo o próprio limite da expansão e por esse fato, a mesma leva à questão das crises, que também incluiria. À primeira vista tal plano parece ser tão bom quanto concebivelmente pode ser. Parte-se das forças sociais que se confrontam no processo de reprodução social e a seguir passa-se a explorar os limites do mesmo processo. No entanto, em 1865 Marx introduziu uma modificação – que se tornaria final – e os seis livros foram reduzidos a um, sendo:II Sobre a propriedade em terra
III Sobre o trabalho assalariado
Capital
Esse único livro sobre capital era para ser
dividido em três volumes, segundo níveis decrescentes de
abstração,
a saber, capital em si, muitos capitais e formas concretas de
(re)produção,
respectivamente:
Vol. I O processo de produção do capital,Vol. II O processo de circulação do capital,
Vol. III Formas do processo como um todo,
seguidos por um quarto volume (que se tornaria
conhecido
como Teorias da mais-valia):
Vol. IV A história da teoria,
dedicado a uma interpretação
histórica
da Economia Política.
Trata-se obviamente de uma alteração substancial e que tem atraído surpreendentemente pouco interesse. Ainda assim, a questão foi levantada de quando em quando e Rosdolsky (1967), de sua parte, dedicou a ela o segundo capítulo de seu The making of Marx’s Capital que fornece uma valiosa abordagem como ponto de partida. O nosso próprio interesse aqui será especìficamente o importe da alteração para uma avaliação da crítica de Marx da teoria de renda.
No que concerne o conteúdo específico de ambos os projetos, a alteração equivale ao abandono (ou postergação?) dos Livros IV-VI do primeiro esboço, à incorporação do Livro II (sobre propriedade em terra) na Parte VI do Vol. III do Capital na forma reduzida de 'Renda do solo capitalista', e à inclusão do material do Livro III (sobre trabalho assalariado) no Vol. I45. Finalmente, o Vol. IV é um acréscimo em relação ao plano original.
Quanto a uma interpretação da alteração, comecemos com um breve relato da discussão do próprio Rosdolsky (op. cit. p.23-55). Rosdolsky mesmo refere-se primeiro a uma interpretação proposta por Grossman (p.23) de quem ele cita uma passagem conclusiva:
Na verdade, o argumento é correto num certo sentido, mas também é incompleto. Ele reproduz a contradição de Marx entre as compreensões histórica e dialética da transição do feudalismo para o capitalismo, mas não consegue resolver a contradição porque recua ante a decisão entre a aparência da existência histórica,* em capitalismo pleno, de uma classe de senhores de terra e a necessidade dialética da recusa, ao mesmo tempo, de sua existência.
Eis aqui a origem das contradições no
tratamento
de Marx da teoria de renda referidas anteriormente, muito mais do que
em
seu caráter inacabado. No entanto, a investigação
das razões da alteração, em que a lógica
dialética
impôs a eliminação da propriedade em terra da
estrutura
de Capital, mostra a extensão do caminho percorrido por
Marx
em direção ao reconhecimento da extinção da
classe de senhores de terra e de que a teoria de renda tornou-se
obsoleta.
É verdade que a mesma lógica operou a
eliminação
também do trabalho assalariado como um elemento separado
da estrutura, mas enquanto o trabalho foi deslocado para o centro da
análise
para formar em conjunto com o capital – em uma ‘unidade dos opostos’ –
o core e núcleo mesmo do Capital 47,
a propriedade em terra ficou relegada ao limbo das formas concretas do
‘processo como um todo’. Tal modificação, e em
particular,
o afastamento da propriedade em terra do centro da análise
permite
a interpretação de que, em verdade, o método de
Marx
levou a melhor sobre ele mesmo. Em toda probabilidade, Marx estaria
longe
de ver na vitória de seu método uma derrota sua.
Epílogo
Expostas as limitações da teoria de renda à luz da crítica, compreendidas as razões de seu prestígio através de uma interpretação histórica, e concluído que a mesma sempre foi um instrumento de produção de ideologia e não de conhecimento, a rejeição da teoria de renda torna-se a um tempo possível e necessária.
Esse resultado é também o ponto de partida para uma investigação da organização espacial da produção capitalista em que terra, enquanto recurso natural, dá lugar à localização em um espaço socialmente produzido. 'Localização' e 'espaço' só adquirem especificidade enquanto suporte às atividades econômicas e, inversamente, as leis econômicas que governam a produção e reprodução social permanecem incompletas a não ser que levem em conta, desde sua incepção, a dimensão espacial da economia48.
Tal determinação recíproca entre o 'espacial' e o 'econômico' é integrado, dentro do processo urbano, através do pagamento por localização no espaço urbano, uma condição necessária a toda atividade econômica. Isto leva a investigação a se centrar sobre o preço da terra, a forma predominante em que o pagamento por localização se materializa no capitalismo contemporâneo.
A essência do capitalismo é a generalizaçáo da forma-mercadoria dentro das limitações geradas pelo próprio processo de imposição dos valores de troca sobre os valores de uso. Assim em economias capitalistas a regulação da produção se dá por uma combinação das ‘leis’ do mercado e da intervenção do Estado, sendo postulada a primazia do primeiro. A compreensão do processo de produção depende de uma teoria analítica que dá conta da regulação pelo mercado, combinada com uma interpretação histórica que dê conta da intervenção estatal.
Pelo fato de a produção do
espaço
escapar a sua mercadorização49,
a inclusão do enfoque sobre a organização espacial
na análise do capitalismo põe em evidência a
dialética
da forma-mercadoria como método privilegiado de
interpretação
da evolução histórica do capitalismo. Uma economia
não pode ser completamente mercadorizada, nem as
relações
sociais podem ser completamente reificadas. A totalidade da vida
reemerge
do processo urbano inevitavelmente e de certo modo triunfalmente: ela
se
reimpõe contra o fetichismo da forma-mercadoria.
Notas
Não há menção aqui à produção brasileira nesse campo, pela simples razão de que esta apresentação é resultado de pesquisa conduzida no exterior e da correspondente falta de familiaridade minha com a mesma. Não obstante, e sem que isto seja uma crítica específica a qualquer contribuição particular, parece-me que se pode afiançar que a controvérsia sobre a teoria de renda no Brasil é marcada por um amplo predomínio da influência francesa e predomínio absoluto da ortodoxia em relação à teoria de renda mesma.
(2) Uma exposição mais completa encontra-se em minha tese de doutoramento (Deák, 1985), mas os capítulos desta Parte II resumem as principais etapas da mesma.
(3) Hill (1970):251.
(4) Morton (1938):174ss. "Henrique VII, fundador da nova monarquia, era uma figura simbólica no sentido completo do termo... Homem de negócios capaz, ... ele era a encarnação viva de todas as virtudes e vícios da pujante burguesia que prosperava sob a proteção do regime Tudor e a cujo apoio esse último devia sua estabilidade" (op.cit, p.174-5).
(5) Veja-se, por exemplo, o clássico de Perry Anderson, Linhagens do Estado absolutista, Anderson (1974).
(6) A aliança da burguesia com o campesinato contra a aristocracia na Revolução Francesa (além de Hill, 1970, já citado, vide também por exemplo, Morton, 1938:238 ou Soboul, 1965:21,155,160) teve a conseqüência de longo alcance que o pequeno agricultor permaneceu uma classe numerosa na França após a Revolução, o que por sua vez impediu a formação de um proletariado abundante, razão pela qual nesse país o capitalismo nunca chegou a seu pleno desenvolvimento.
(7) A própria historiografia inglesa escamoteou (por razões similares àquelas discutidas em conexão com o sucesso de Ricardo, abaixo) a transição feudalismo–capitalismo, atribuindo a gênese do Estado burguês à geração espontânea ocorrida na ‘Gloriosa Revolução’ de 1668, num movimento semelhante ao da historiografia brasileira que ‘produziu’ a Revolução de 30 (vide de Decca, 1975). A ‘descoberta’ da Revolução Inglesa é relativamente recente e data dos anos 1930. Ainda em 1942, o historiador marxista Christopher Hill sentiu a necessidade de demonstrar que houve uma revolução inglesa, e que a mesma não ocoreu em 1668 (Hill, 1940).
(8) Hill (1970): 86ss, 105. Em particular, os cercamentos prosseguiam durante e após a Revolução, privando os camponeses de seu meio de subsistência e forçando-os a se submeter ao assalariamento.
(9) A importância deste fato para o desenvolvimento do capitalismo é resumida por Marx em uma frase só: "Acumulação é o crescimento do proletariado" (Capital I :576).
(10) Morton (1938): 392. O 'alargamento' da base eleitoral de 220 000 para 670 000 eleitores, em uma população de 14 milhões de habitantes pode parecer irrisório. No entanto, o mesmo era o suficiente para incluir os capitalistas e seus partidários da classe média, que assim conquistaram uma representação majoritária no Parlamento.
(11) Ricardo (1817):40n.
(12) Visão essa compartilhada inclusive por Marx, que se propôs à crítica da Economia Política. Falta espaço aqui para uma discussão das razões de porque foi Marx incapaz de se livrar da visão de três classes sociais – e da própria teoria de renda –, mas veja-se Deák (1985), especialmente '2.4. Marx and the class of landowners', p. 58ss, onde se interpreta também uma contribuiçâo de Rey (1973) que critica a concepção de uma sociedade capitalista estruturada em três classes. Alguns elementos relacionados a essa questão encontram-se na seção 6 adiante.
(13) A visão dos fisiocratas nutria-se no feudalismo burocrático das sociedades das monarquias absolutistas, em que a principal fonte de excedente era a renda feudal (isto é, extraída do trabalhador diretamente do senhor da terra). Abstraídas as instituições feudais que impõem o trabalho servo, confundidas com a ‘ordem natural das coisas’, a apropriação do excedente depende do controle da terra e esta última aparece como a própria 'fonte' de riqueza.
(14) À qual foi reduzida com o eclipse da Economia Política e notadamente, na linha neo-ricardiana e baseada na reconstrução de Sraffa (Sraffa, 1960). Na formação de Sraffa renda não é mais que um resíduo decorrente de operações algébricas efetuadas sob a égide da equalização da taxa de lucro em condições de equilíbrio, fertilidade diferenciada e demais pressupostos da renda diferencial (discutidos adiante, na seção Ricardo e a renda diferencial).
(15) Ricardo elaborou uma teoria de renda mais pormenorizada e mais consistente do que Smith, ao preço de uma simplificação considerável. Sobre o caráter simples, e até simplista, da teoria de Ricardo quando comparada com aquela de Smith, veja-se a interpretação de Ben Fine:
'Devido à amplitude de seus conhecimentos e o desejo de comparar e contrastar estágios diferentes e desenvolvimento da sociedade e as forças que deram origem à transição de um estágio a outro, Smith se apóia sobre um vasto cabedal de ... material histórico... como um meio de colocação e de resolução de problemas teóricos. Aqui reside um contraste total com Ricardo. Muito embora Ricardo pretende aplicar sua análise às questões importantes da época, em relação à taxação e livre comércio, o que é crucial é a exigüidade das fontes subjacentes à teoria de Ricardo. (...) A teoria de Ricardo ostenta assim uma simplicidade encantadora por causa da pureza do conceito abstrato (a saber, do valor-trabalho - C.D.) que ele utiliza e a ingenuidade com a qual o conecta a conceitos mais complexos, como se, ou na esperança que, os mesmos não fossem mais complexos." (Fine, 1982:22).
(16) Preço de produção: custo de produção mais lucro à taxa média. O preço de mercado é determinado pelas condições de produção na pior terra: se o preço fosse menor, ali não poderia haver produção e a quantidade total de cereais produzidos na economia cairia. Inversamente, para um aumento da produção, é necessário um aumento do preço de mercado para igualar o preço de produção sobre novas terras ainda piores - a razão mesma, para Ricardo, da tendência de queda da taxa de lucro com o desenvolvimento do capitalismo (vide ainda abaixo).
(17) Um péssimo nome para uma quantia que nunca existirá <i>enquanto lucro<i>, senão sempre somente enquanto renda.
(18) Capital III: 618. Marx –como também Ricardo– estava empenhado em apresentar o proprietário de terra no capitalismo como um parasita –por oposição ao capitalista, esse "funcionário indispensável da produção capitalista", que "não apenas 'deduz' ou 'rouba', mas assegura a produção de mais-valia e assim primeiro ajuda a criar aquilo que será deduzido". "Marginal Notes on Adolf Wagner", cit.in Rosdolsky, 1967:31-2.)
(I9) O rompimento dos limites de mercados até então separados e sua amalgamação em um mercado unificado é um dos processos fundamentais da gênese do capitalismo (veja-se Merrington, 1975) assim como, vale adiantar, da constituição do próprio "espaço" (Deák, 1985:99ss, aqui, Capítulo 5).
(20) Ricardo cala sobre "outros produtos" e Marx subscreve à noção de Smith segundo a qual ("Adam Smith – e isso é de seus méritos... já demonstrou que ...", Capital III:767) um outro produto (por exemplo, gado) deveria simplesmente pagar a mesma renda por uma determinada terra que a renda diferencial ali determinada pelo produto 'básico' (geralmente, grão). Pode-se demonstrar facilmente que tal condição é insuficiente, mesmo mantidos os pressupostos de equilíbrio e de perfeita fluidez de capitais, para levantar uma indefinição quanto à alocação dessa terra entre os dois produtos em questão (isto é, gado e grão). Observe-se ainda que nesse caso (isto é, para produtos não-básicos) a renda é determinante do preço do produto, à diferença do que ocorre com o produto básico – uma possibilidade que tanto Ricardo como Marx negam enfaticamente, em função de suas respectivas 'teorias do valor' (Deák, 1985:55ss).
(21) Theories of Surplus Value II:129. Veja-se também nota anterior, in fine.
(22) Note-se que a crítica de uma teoria que desfrutou de amplo prestígio durante séculos passa necessariamente por seus pressupostos. Alguém observou que eventuais falhas de lógica, dedução e, portanto, de coerência interna são certamente detectadas logo nos primeiros anos de vida de uma teoria nova. A teoria de renda não é exceção a essa regra e seus pontos críticos estão nas suposições sobre as quais o arcabouço teórico é erguido, e não tanto no arcabouço em si.
(23) Esta respondia, antes da Revolução Industrial, por quase metade do produto nacional (Deane & Cole, 1967:157).
(24) Wakefield era um 'teórico' e principalmente um advogado da colonização nos anos 1830. Mr. Peel, na Inglaterra um capitalista, desembarcou na Austrália com máquinas e equipamentos no valor de 50 000 libras esterlinas, junto com 3 000 trabalhadores, para montar uma fazenda. No entanto, algumas semanas depois, encontrava-se sem um servidor para lhe amarrar os sapatos... (Capital I:7I7). Na Austrália, a terra era um recurso natural e até mesmo os despossuídos podiam cultivá-la, pois que isso não implicava em pagamento algum; fato que lhes permitia, precisamente, escapar da condição de assalariamento. –Coitado do Mr. Peel– ironiza Marx, –havia levado os meios de produção à Austrália, mas esqueceu de importar também as relações capitalistas de produção.
(25) Vide também adiante, na seção sobre Marx.
(26) Rey (1973):55. Essa contribuição significativa de Rey foi largamente ignorada, devido provavelmente ao uso que ele fez da mesma, a saber, utilizá-la em sua concepção realmente problemática de articulação dos modos (capitalista e feudal) de produção, aliado a sérias fraquezas em suas interpretaçóes históricas e o fundo estruturalista (mais tarde reconhecido) de seu pensamento.
(27) Os conceitos de tempo e de história, como em Chauí (1978):24 ss.
(28) Para uma análise da transformação do processo individual da produção, e dessa sobre a localização dentro do espaço urbano, veja-se Deák (1985) Capítulos 5 e 7, respectivamente.
(29) No entanto, como já mencionado, a rejeição desse pressuposto torna sem sentido o próprio conceito de renda diferencial. Daí que, nas tentativas de aplicação da teoria de renda à análise urbana, era mister encontrar nas aglomeraçóes urbanas um 'produto único', algum equivalente ao cereal da teoria de renda. Tendo reconhecido corretamente o problema, Lojkine (1971) propôs que o produto básico urbano é a construção (o edifício), o que também resolveria o problema da renda absoluta, já que a indústria da construção tem tradicionalmente uma composição orgânica de capital notoriamente baixa e provavelmente abaixo da média. O exemplo de Lojkine mostra a que extremos se pode chegar ao se querer aplicar a teoria de renda à análise urbana a todo custo.
(30) Da mesma maneira, a Economia Política não dá conta da transformação do processo individual de produção. Mesmo em Marx e não obstante a sugestão correta contida no conceito de desvalorização, o tratamento de capital fixo/circulante é totalmente ausente. Engels inseriu, é verdade, no terceiro volume de Capital o seguinte: "A única distinção essencial em seu capital que se impõe no capitalista é aquela de capital fixo e circulante" (p.75); mas essa observação e o exemplo numérico que segue (onde, diga-se de passagem, o preço do solo entra como capital fixo e no preço do produto) permanecem referências isoladas.
(31) Vide Fine (1980a):145ss.
(32) Chauí (1978):31. Meus parênteses.
(33) Keynes ( 1936): 32-3. A explicação citada -- onde se reconhece o estilo peculiar de Keynes, para quem o capitalismo é "a economia como a conhecemos" (op. cit, 232) e capitalista é empresário ou 'rentista'– é introduzida por "deve ter sido". 'Prestidigitação', que poderia também ser 'malabarismo', é uma tradução livre da expressão 'Kaleidics' cunhada por Shackle em seu livro Keynesian Kaleidics, University Press, Edinburgh, 1974.
(34) Hill (1967):181ss. É surpreendente quão geralmente tem esse primeiro estágio do capitalismo, restrito basicamente à Inglaterra, sido chamado de capitalismo concorrencial ou de livre-comércio, quando no período de dois séculos assim designados (a ser seguido pela Grande Depressão de 1875-95 para daí emergir um estágio "monopolista"), a Inglaterra seguiu uma política de livre-comércio por apenas três décadas, a saber, a partir de 1846.
(35) Observe-se que, na verdade, trata-se nada mais que de interesses conflitantes entre frações de capital em diversos ramos industriais, e mais especificamente, entre uma indústria 'velha' e indústrias mais novas. Situações análogas se produzem constantemente, variando apenas os ramos industriais. Hoje, por exemplo, a indústria de aço é uma indústria 'velha' necessitando de proteção em todos os países "industrializados", ao que se opõem, naturalmente, a indústria automobilística e aeronáutica; à proteção dessas últimas se oporá (como ocorre de fato nos EUA) a indústria da informática, e assim por diante.
(36) Como relatado no Parlamento inglês em 16.3.1837 (Semmel, 1970: 149). Metternich, chanceler do Império Austríaco, o qual, com mais do dobro da população da Inglaterra (33 milhões) constituía um mercado potencial dos mais atraentes.
(37) Trevellyan, um dos mais prestigiosos expoentes dessa corrente escrevia: "A história política da época é desconcertante para o estudioso e rica em acontecimentos paradoxais" (cit. em Morton, 1938: 386).
(38) O processo de agitação assim desencadeado na década de 1820, combinado com a frustação provocada pela traição de 1832, produziu o maior movimento operário da história do capitalismo, o movimento Chartista (Morton, 1938: 43l ss). Fundado em 1837/8, em 1842 o movimento colheu mais de 3,3 milhões de assinaturas –que correspondia a algo como o total da população adulta masculina da Inglaterra– sobre uma 'Petição' ao Parlamento em prol de reformas que hoje seriam chamadas de 'democráticas'. Cinco anos depois o movimento era virtualmente suprimido e nas décadas subseqüentes seguiu-se a derrota total dos movimentos operários através da aplicação de um misto de violência e de suborno, segundo é testemunhado pelas 'tristes impressões ... (de) um antigo Chartista' escrevendo em 1870 (citado em Hobsbawn, 1968:126), ou também por Engels, em sua famosa resposta a Kautsky: "Você me pergunta o que os operários ingleses pensam sobre a política colonial? Bem, exatamente o mesmo que pensam sobre política em geral. Não há partido dos trabalhadores aqui, só há conservadores e radicais liberais, e os trabalhadores participam alegremente do festim da Inglaterra: monopólio das colônias e do mercado mundial" (Engels, 1882).
(39) Quando comparado com Anderson e Malthus (o primeiro o 'originador' o segundo, um 'plagiador') que empregavam a mesma teoria para defender os interesses dos proprietários de terra (Theories of Surplus Value II: 236 e 115).
(40) Ambas essas abordagens podem ser encontradas em Deák (1985), p.58ss e 49ss, respectivamente.
(41) "No caso do terceiro volume (por oposição ao segundo, também editado por Engels) não havia outra base senão um primeiro esboço extremamente incompleto." – Prefácio de Engels, Capital III:2.
(42) Por exemplo, no capítulo sobre a renda absoluta, Marx propõe uma solução tentativa para a existência de renda também sobre o pior solo, em que estão enunciadas duas condições (a saber, baixa composição orgânica de capital e classe de senhores de terra), cuja existência histórica permanece hipotética. Lojkine (op. cit, p.89) escreve a esse respeito: "Marx provou no Capital que essas duas condições são preenchidas no setor da produção agrícola" (grifo meu), ignorando até a referência explícita de Marx segundo a qual mesmo que haja renda absoluta em um determinado estágio do capitalismo, ela pode desaparecer em um estágio subseqüente.
(43) Segundo relata Engels: "Nos anos '70 Marx empreendeu estudos específicos inteiramente novos com respeito a esta Parte (VI) sobre renda do solo. Durante anos ele havia estudado... publicaçóes sobre o regime de propriedade de terra (na Rússia)... Devido à variedade de formas tanto de propriedade de terra quanto de exploração dos trabalhadores agrícolas na Rússia, esse país deveria ter o mesmo papel no tratamento da renda do solo que a Inglaterra tinha no Livro (volume) I com respeito ao trabalho assalariado. A oportunidade de realizar esse plano lhe foi, infelizmente, negada" (Capital III:7). – Após 1865, a Inglaterra cessou de ser aquele 'país modelo' e campo de observação favorável que havia sido até então; o centro dinâmico do capitalismo, em seu estágio emergente de acumulação predominantemente intensiva (no sentido de Aglietta, 1976) havia passado, ironicamente, para a terra natal de Marx, a Alemanha.
(44) Trata-se de um fenômeno difícil de ser captado fora da Inglaterra, mas nesse país a existência ou não de uma classe de proprietários de terra, ou a época de seu desaparecimento é assunto para polêmica até hoje. Morton coloca o declínio final daquela classe na primeira metade do séc. (op.cit, ss), Ball (1981) para o fim do mesmo século (p. 166-7) e Massey & Catalano (1978) julgam que a mesma classe "tem mesmo mostrado uma capacidade de permanência notável" (p.186). Uma das razões que tornou essas colocações, que situam a extinção da classe de senhores de terra no tempo, com pelo menos três ou quatro séculos atrasadas, é que a forma histórica predominante de pagamento por localização no estágio inicial do capitalismo (caracterizado pelo regime de acumulação extensiva) é, precisamente, a renda. Note-se aqui que esse estágio é historicamente restrito à Inglaterra: a difusão do capitalismo se deu quando o mesmo já estava entrando em seu estágio de acumulação predominantemente intensiva. Uma das conseqüências desse processo é que nos demais países o pagamento pela localização tomava diretamente a forma preço (para uma discussão mais detalhada dessa questão, veja-se o capítulo 6: "Accumulation and the form of payment for location" em Deák, 1985), de maneira que a forma renda ficou restrita à Inglaterra dos séculos XVI-XIX. Com o que (inter alia) esse país torna-se mais único do que "modelo", cuja trajetória de evolução não seria seguida por qualquer outro país.
(45) Para detalhes da alteração, veja-se Rosdolsky ( 1967): 10-23.
(46) P.23n. – A própria data do primeiro plano (assim como aquela de sua alteração) era assunto para polêmica. A data acima referida (isto é, 1857) é proposta por Rosdolsky, que disputa a data proposta por Grossman.
(47) Como Rosdolsky mesmo assinala (op. cit, p.54).
(48) É por essa razão que não pode haver uma 'teoria de organização espacial', do mesmo modo que não pode haver uma 'teoria de localização' – que não passa de uma inserção de última hora na teoria da economia neoclássica, como se pudesse haver processos individuais de produção determinados intrinsecamente, para a seguir serem 'localizados'.
(49) Isto é, imposição da forma-mercadoria. Localizações podem ser consumidas individualmente como se fossem mercadorias, mas só podem ser produzidas coletivamente, como resultado da transformação do espaço como um todo (cf. capítulo subsequente).
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