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Estágio de desenvolvimento tardio / capitalismo tardio


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estag-tard/ cd, 6.3.15







 


Intervenção do Estado: 1880-1985, paises selecionados- Participação do Estado na economia: proporção dos gastos governamentais no produto nacional-PIB (Suécia, França, Grã-Bretanha, Alemanha, EEUU e Japão).
Fonte: World Bank, World Development Report 1991, Washington
Estágio de desenvolvimento tardio /
capitalismo tardio/ capitalismo contemporâneo

O estágio de desenvolvimento contemporâneo do capitalismo caracteriza-se pelo fortalecimento sem precedentes da contratendência à tendência fundamental de expansão da produção de mercadorias, o próprio motor  do desenvolvimento capitalista. O estágio contemporâneo, ou simplesmente capitalismo contemporâneo, se designa frequentemente também por capitalismo tardio.

Em seu primeiro estágio de desenvolvimento, o assalariamento da força de trabalho, primeiro incipiente, foi se extendendo, mediante o paulatina eliminação das terras comunais ('cercamentos') e sua transformação em propriedade. Por isso esse estágio é denominado estágio extensivo.

Quando o estágio de desenvolvimento extensivo se esgota, não havendo mais espaço para a extensão da produção de mercadorias, o capitalismo entra em seu estágio intensivo. →No estágio intensivo a expansão da produção de mercadorias se restringe ao aumento da produtividade do trabalho, que por sua vez depende do progresso das técnicas de produção e a elevação do nível de subsistência da força de trabalho, necessária para permitir a operação das técnicas de produção crescentemente complexas.

No estágio intensivo o antagonismo à base da dialética do Estado e o mercado se desenvolve com força e a tendência à generalização da forma-mercadoria é sobrepujada pela contratendência de expansão do Estado (Figura ao lado).

O encolhimento do âmbito do mercado torna-se crítico a partir da exaustão do 'boom' de reconstrução pós-guerra, pelos meados da década de 1960. A saturação do estágio intensivo com o desenvolvimento das técnicas de produção (e crescente automação), dando lugar a uma crise de superprodução. Esse é o estágio contemporâneo, ou capitalismo tardio.

Na verdade, o estágio tardio é simplesmente uma denominação que se refere à crise decorrente da saturação da segunda e mais desenvolvida fase do capitalismo, o estágio intensivo. A expressão surgiu após a crise de 1929 (como Spätkapitalismus em livro de Natalia Moskovska, Zürich, 1943), hibernou durante o boom da reconstrução pós-guerra e ressurgiu adquirindo amplo uso com a exaustão desse (Mandel, 1972).

As manifestações externas da crise constituem as  'características' do capitalismo tardio, ou contemporâneao, entre as quais as principais são, além da continuada  expansão da intervenção do Estado, a tremenda expansão da capacidade produtiva via desenvolvimento tecnológico resultando ao mesmo tempo em superprodução e em diminuição da força de trabalho empregada na indústria (que tem sido chamado impropriamente de desindustrialização) e sua realocação em serviços ( donde o termo um tanto mais próprio 'terciarização'), colocando a questão adicional da medida em que a provisão dos serviços em expansão pode ser produzida enquanto mercadorias.

A crise provoca a reação neoliberal, que procura sustar o estreitamento do espaço da produção de mercadorias, enquanto procura apresentar-se como tendências ineluctáveis em vez de políticas deliberadas. A ideologia neoliberal centra-se numa primeira vertente, na apresentação ahistórica do capitalismo contemporâneo,  apresentando-no como algo novo, através de um arsenal de neologismos e pseudoconceitos tais como globalização, privatização, associado um tanto paradoxalmente ao anúncio do fim da história augurando a perpetuação do status quo (a sociedade burguesa).  Numa segunda vertente, o discurso da desqualificação do Estado enquanto provedor de infraestrutura física e institucional ou como representante do interesse coletivo, legitimando  as mais variadas formas e sub-formas de uma 'sociedade organizada'.

As políticas neoliberais, sem lograr reconstituir o âmbito do mercado, acabam se resumindo em movimentos de desmonte do Estado de bem-estar, de concentração de capital e de renda e o prolongamento insustentável do endividamento para financiar o consumo, enquanto o centro de gravidade da produção social desloca-se da indústria para os serviços, dando origem aos fenômenos conhecidos como 'desindustrialização' e 'terciarização'.



* Para uma interpretação das políticas neoliberais no Brasil, cf. "Globalização, ou crise global?", in fine.

Bibliografia

Ball, Michael & alii (1989) The transformation of Britain. Contemporary economic and social change Fontana, London
Deák, Csaba (1994) "Globalização, ou crise global?" várias eds.

Mandel, Ernst (1972) Late capitalism Verso, London 1978

cd, 6.3.15

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