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Antelóquio

Ao traduzir Catulo no mestrado, foi possível verificar que vários poemas mencionam livro e materiais de escrita, como tabuinhas de cera, papiro, pergaminho, etc e que a presença do livro nos poemas era signo do cabedal poético do poeta e a necessária urbanidade, e também, como conseqüência, a evidenciação de apreço ao que os materializava fisicamente, o objeto livro. Em seus metapoemas, quando Catulo qualificava ou desqualificava o livro em seus atributos físicos estava a qualificar ou desqualificar os poemas nele contidos: metonímia dos poemas e de poetas, o livro era a própria presença deles.

Ao recolher ilustrações para O livro de Catulo, em que se transformou a dissertação de mestrado, vi que havia várias imagens romanas - afrescos, esculturas, relevos, mosaicos, pinturas vasculares - em que também se figuram o livro e os materiais de escrita, e desde então cremos necessário e oportuno reunir iconografia e textos antigos sobre livros e vinculá-los por meio deste projeto.


rascunho - escritura - discurso definitivo

As tabuinhas enceradas, em latim, chamadas tabellae, codicilli, pugillares, no plural, em grego pínax e consistiam de algumas placas de madeira retangulares, "encadernadas" pelo lado maior esquerdo, revestidas com camada de cera, sobre a qual com a ponta do estilo (stylus, ausente nesta figura, mas presente na FIGURA) se sulcavam os caracteres. Para apagar erro, usava-se a outra extremidade do estilo, que, larga, achatada e sem gume, funcionava como pequena espátula com que se podia raspar superficialmente a cera na área em que se havia errado (ver FIGURA. As tabuinhas enceradas não só permitiam fazer correções no que se escrevia, como podiam ser reutilizadas, para o que bastava retirar-lhes toda camada de cera inscrita e revesti-las com outra, intacta. Assim, as tabuinhas prestavam-se às anotações corriqueiras do dia-a-dia e, no que toca à elaboração de textos, eram rascunhos, que respondiam materialmente a seus estágios provisórios, isto é, ensaios, provas e tentâmens, antes da versão final. Na imagem, as tabuinhas enceradas iconizam, em termos antigos, a composição do discurso, ou, em termos modernos, a redação do texto.

Logo à direita das tabuinhas vemos o TINTEIRO (atramentarium, recipiente de bronze para o artramentum, "tinta") e, ao lado, o CÁLAMO (calamus), feito de pedaço de cana ou de junco com talhe oblíquo que, embebido na tinta, fazia-a escorrer em filete pela ponta formada pelo viés do corte e, em contato com o suporte, traçasse a escrita. Na imagem, o tinteiro e o cálamo figuram a dimensão física, gráfica, do discurso: a escrituração do discurso que se considera já composto. Remetem o observador ao ato escritural, pictórico ele mesmo, em que se desenham e pintam letras, que, embora obedeçam a convenções de uma sociedade, sempre guardam na particular caligrafia manuscrita a organicidade da mão humana.

À direita vê-se o ROLO (o uolumen, biblos) de papiro com o texto duas vezes pronto, pois que composto e grafado. O rolo está desprovido do UMBÍLICO (umbilicus), cilindro em torno do qual o papiro é enrolado e do TÍTULO (index, littera ou titulus), pequena cartela de couro que, apensa numa das extremidades do umbílico, trazia escrito o nome do autor e do livro, e nessa imagem a ausência ressalta ter sido recém-inscrito e ser, assim, a última etapa da existência doméstica e privada do discurso ali contido, pois a etapa seguinte, que a seqüência sem mostrar projeta, se dará fora do ambiente doméstico. Aqui, assim como o rolo de papiro, que é suporte material, é portável, quando devidamente protegido e acondicionado, assim também o discurso que contém há de existir como poesia, ou como prosa, em âmbito público e coletivo: o discurso, agora, pela cidade, seja no fórum, seja nos cenáculos políticos, filosóficos ou poéticos, vai ressoar, pronunciado pela voz de um orador, ou transitar, inscrito nos volumes que se reproduzirão. Estivesse a pintura na biblioteca de uma residência privada, como é provável, ou em outro recinto, é ela o intermédio entre vida pública (razão de ser por excelência do homem antigo), marcada ali pelo rolo de papiro, que ele pode levar aonde quer que fale - e o retiro em que, recolhido, elabora o que há de falar.

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