mestrado


O êthos de Aníbal em Tito Lívio e Cornélio Nepos: imagines

The ethos of Hannibal in Livy and Cornelius Nepos: imagines

cynthia helena dibbern

A pesquisa tem por objetivo a reflexão acerca da construção retórica do êthos de Aníbal (247- 183 a.C.), comandante cartaginês na Segunda Guerra Púnica, no Liber de excellentibus ducibus exterarum gentium, obra biográfica de Cornélio Nepos, e nos Ab urbe condita libri, de Tito Lívio. Ambos os autores, o primeiro, scriptor vitae e o segundo, scriptor historiae, valem-se de procedimentos retóricos para criar, pela palavra, imagines visuais do temível e obstinado inimigo romano. Dessa maneira, fazem-se necessários a tradução parcial da obra e o estudo da aplicação dos conceitos da ékphrasis, da euidentia e da descriptio, procedimentos retóricos relativos ao ornatus e, portanto, à elocutio do discurso, capazes de despertar no leitor a phantasia. Nepos, em suas uitae, constrói retratos de grandes generais estrangeiros, interessando-se notavelmente pelas diferenças entre os costumes romanos e de outras nações.

Tito Lívio vê a História em termos pessoais e morais1, afirmação que pode ser deduzida de uma análise do Prefácio da História Romana. A obra tinha por objetivo a instrução moral e, dessa maneira, a persona histórica constituía-se como exemplum a ser seguido ou evitado. Aníbal, inimigo da pátria, será retoricamente vituperado ou elogiado, conforme as intenções de cada autor, que podem ser associadas, em alguns aspectos, aos ideais de cada época: Nepos aos do período Republicano, e Lívio do augustano.

A pesquisa visa, assim, à análise da aplicação do gênero de discurso epidítico nessas duas obras, proporcionando uma maior compreensão sobre a relação entre retórica epidítica e gênero histórico entre os romanos, sobre o uso de procedimentos ecfrásticos e da euidentia para a composição da figuração dos éthe, e ainda sobre o uso de exempla no gênero histórico. O desenvolvimento da pesquisa também possibilitará a reflexão acerca da relação entre história e res ficta na Antiguidade, acerca dos limites entre o res explicare e o enarrare vitam, entre o Verossímil e o Verdadeiro na Historigrafia Antiga, e ainda entre verbum e pictura.

Para a realização destes estudos e reflexões, consideramos necessária a tradução da vita de Aníbal, de Nepos, e dos trechos da obra de Lívio nos quais Aníbal é retratado, de forma que podemos conhecer seu caráter. Podemos já destacar as passagens XXI.4-5 (retrato do Aníbal jovem), XXI.10 (discurso de Hanão contra Aníbal), XXI.41, XXI.43 (discursos de Cipiãoe de Aníbal diante da Batalha de Tesino), XXII.22 (contraste entre a ação dos cartagineses e dos romanos na Hispânia), XXII.47 (Batalha de Cannas), XXII.56 (carta romana ao Senado retratando o Aníbal pós-guerra de Cannas), XXIII.45 (discurso do cônsul Marcelo), XXX.30 (discursos de Cipião e Aníbal diante da batalha de Zama), XXXII.45 (Aníbal persiste incitando a guerra contra Roma) e XXXIX.51 (morte de Aníbal).

Uma vez que o estudo almejado pautar-se-á nos procedimentos retóricos, a tradução entenderá o texto de partida como um texto histórico e retórico, afeiçoado às preceptivas destes dois gêneros, e buscará a aproximação da elocução do texto latino e da língua portuguesa, tentado reproduzir, na medida do possível, a representação visual dos textos. Ela deve contemplar também as especificidades genéricas, sendo que buscaremos a precisão terminológica, evitando o uso de conceitos modernos e observando o uso de termos retóricos e técnicos. As notas consistirão em comentários pertinentes ao estudo a ser realizado, aclarando e destacando, por exemplo, termos que apontem para o uso dos procedimentos retóricos e para a visualidade, indicações de especificidades dos subgêneros historiográficos, ou termos que sinalizem a analogia entre retórica e pintura, entre artes letradas e artes plásticas e figurativas.


Imagines Amoris: a Figuração de Amor do Final da República ao Período Augustano

Imagines Amoris: the Representation of Love from the Late Republic to the Augustan Age

lya valéria grizzo serignolli

Esta pesquisa tem por objetivo o estudo da figuração de Amor/Cupido/Eros na poesia, mais especificamente em obras de Catulo, Propércio, Ovídio, Tibulo, Virgílio e Horácio; e na pintura e escultura romanas entre o final da República e o Período Augustano; com atenção às preceptivas retóricas e poéticas de adequação ao gênero e de verossímil e, especialmente, aos lugares-comuns empregados pelos artífices para a construção da personagem.

O estudo pressupõe a busca na tratadística antiga de conceitos específicos relativos a essas artes mencionados por autores como Quintiliano, Horácio, Cícero, Aristóteles, Vitrúvio e Plínio, o Velho, para que sirvam como aparato instrumental para a discussão.

Desse modo, o projeto dá continuidade à pesquisa de Iniciação Científica que desenvolvi, intitulada Imagines Amoris (FAPESP - 2010), a qual consiste em um estudo semelhante cujo corpus, mais restrito, abrange elegias de três autores augustanos, Propércio, Tibulo e Ovídio (Amores), com enfoque específico nos poemas em que o deus é mencionado. Pretende-se, portanto, um aprofundamento do estudo da presença do deus na elegia e a ampliação do corpus da pesquisa para outros autores e gêneros poéticos, pertencentes ao intervalo temporal especificado acima. Pretende-se, ainda, desenvolver um estudo de pinturas e esculturas de Eros que foram selecionadas durante a pesquisa de Iniciação Científica, além de outras que devem ser integradas por meio de novo levantamento.

Considerando-se a poesia romana, é preocupação da pesquisa a verificação de como esses poetas romanos construíam as imagines do Amor, considerando-se o decoro quanto ao gênero, ao artífice e à recepção das obras. Assim, a partir da leitura dos poemas pretende-se verificar: primeiramente, quais os lugares-comuns empregados por cada um dos autores – Catulo, Propércio, Ovídio, Tibulo, Virgílio e Horácio – para compor o retrato tipológico da personagem, pela enumeração dos seus caracteres físicos e anímicos, das suas ações e das afecções que desperta nos amantes; em segundo lugar, os motivos associados ao deus, como seruitium amoris, militia amoris e outros; e, por fim, o emprego de figuras retóricas de amplificação que veiculam a personagem nos poemas, como evidência, écfrase, descriptio, sermocinatio, alegoria, símile, metáfora e exemplum.


Écfrase e phantasia, pinturas e(m) palavras: Filóstrato, o Velho

Ekphrasis and phantasia: paintings in words: Philostratus, the Elder

rosângela santoro de souza amato

A pesquisa ocupa-se de dois objetos estanques, mas interdependentes. A primeira parte consta da tradução anotada e comentada dos “Eikônes” (Imagens), obra atribuída consensualmente, a Filóstrato, o Velho. Tal trabalho entenderá o texto de partida como material didático-retórico-poético afeito, portanto, a mediações específicas de elocução estabelecidas por essa poikilia genérica. Esse dado também enceta nossos critérios de tradução, dos quais poderíamos apontar:

1. Aproximação entre a elocução do texto grego original, segundo suas especificidades genéricas e de performance e o texto final.

2. Precisão terminológica, para evitar a projeção de conceitos modernos sobre o objeto antigo.

3. Observação das questões de homologia e/ou de analogia entre o léxico da pintura e da retórica, com anotação e comentário.

4. Estabelecimento de um glossário de recursos ou procedimentos pictóricos descritos.

5. Estabelecimento de notas de compreensão de matiz linguístico, poético-retórico, mitológico e histórico-cultural.

6. Busca de deleite para o leitor contemporâneo. Tendo em vista as três funções retóricas – mouere, docere e delectare – que as Imagens também possuem, a tradução fundamentalmente atentará aos processos utilizados pelo autor para obtenção de deleite, sem porém, excluir as outras duas. Em outras palavras, como pressupomos que não se tratava na Antiguidade nem se trata agora de mero manual sobre procedimento retórico, a écfrase, mas de texto fruível por especialistas e não especialistas, a tradução atenderá às questões, por assim dizer, “literárias”.

A obra que traduziremos é dividida em dois livros, precedidos de um prólogo e contém descrições de quadros temáticos nomeados. O primeiro livro contém 31 quadros e o segundo, 34.

A segunda parte da pesquisa propõe análise do texto isto é, das descrições de pinturas que estariam em uma villa em Nápoles. A leitura e análise do texto partirá de pressupostos sobre a matéria ecfrástica, já assentados por Melina Rodolpho (2010), principalmente daqueles em que observamos as teorias da linguagem visual dos estóicos (para os quais essa linguagem constitui uma categoria central de sua óptica e psicologia3) e nos dos céticos, notadamente, Sexto Empírico, que no tratado Contra os Matemáticos apresenta uma teoria da representação mental, para aferirmos a relação entre écfrase, percepção, phantasia4, mimese, comoção e educação observada na obra desse autor. Outra obra, Dialexis, 2 (uma pequena peça retórica), será também traduzida, pois seu conteúdo está em relação direta com o proêmio de Imagens e, segundo Swain, pode até mesmo ter servido como introdução a uma das descrições ali contidas.


De translatione et descriptione germanorum: Tradução Comentada da Germania de Tácito e Estudo sobre Gênero e Processos Descritivos

henrique verri fiebig

Os objetivos desta pesquisa podem ser divididos em três partes: 1) tradução anotada da Germania, de Públio Cornélio Tácito, do latim para o português; 2) estudo acerca do estabelecimento do gênero da obra em questão; e 3) investigação dos procedimentos descritivos utilizados pelo autor na construção de uma imagem dos povos germânicos. No que toca à tradução, teremos como critérios e propósitos a aproximação entre a elocução (elocutio) do original latino e a versão em língua portuguesa, atentando aos elementos que dão-lhe o tom, a saber: as especificidades genéricas e o estilo particular do escritor; a precisão terminológica, evitando o uso de termos anacrônicos que possam projetar conceitos modernos sobre o texto antigo e observando os usos particulares dos vocábulos e os contextos nos quais inserem-se; e a elaboração de notas de cunho linguístico, geográfico, poético-retórico e histórico-cultural.


As Figurações de Lívia

simone demboski tonidandel



mestrados concluídos

Écfrase e Evidência nas Letras Latinas: doutrina e práxis

melina rodolpho

MESTRADO CONCLUÍDO

A poesia antiga, como sabemos, seguia não apenas os critérios da teoria poética, como também utilizava recursos retóricos na sua composição. É possível estabelecer certa relação entre os discursos retórico e poético a partir, por exemplo, do tom adotado (elevado/ baixo), bem como a adoção de ornamentos (tropos e figuras), gêneros e funções retóricas também aplicadas à poesia. Todo texto tem um objetivo e, não raro, encontra-se inserido na poesia uma das três funções retóricas, a saber: docere, mouere e delectare. Portanto, se os fins são os mesmos, há lógica que os meios também o sejam.

Os procedimentos estudados na presente pesquisa inserem-se dentre os recursos que servem tanto à retórica como à poética, mas o que nos interessa é estudá-los sob o prisma dos recursos que permitem produzir imagens verbais, entramos, portanto, em outra questão muito difundida na Antiguidade, trata-se da relação entre as artes verbais e as visuais.

Adotaremos inicialmente a terminologia ékphrasis equivalendo à descriptio latina, da mesma maneira, adotamos enárgeia e euidentia como correspondentes, no entanto, no decorrer desse estudo, verificaremos que as definições e nomeação dos conceitos não são tão exatas. Dissertação APROVADA PELA COMISSÃO JULGADORA NO DIA 9 DE ABRIL DE 2010 COM O SEGUINTE PARECER:

Tendo em vista que a dissertação apresentada:

- mostrou uma inusitada disposição de enfrentar um assunto intricado e de difícil percurso terminológico e conceitual;

- Pelo eficiente cotejo, síntese e coerência das definições recolhidas em ampla bibliografia de fontes antigas, resolveu questões que há muito resistiam às abordagens críticas mais capazes;

- Exibiu um esforço notável de análise de exemplos selecionados;

- a Banca Examinadora tem a honra e satisfação de considerar o trabalho aprovado, e insiste em recomendá-lo à publicação.

Prof. Dr. João Angelo Oliva Neto (VerVe/USP)

Prof. Dr. João Batista Toledo Prado (FCL/UNESP/Araraquara)

Prof. Dr. Paulo Martins (IAC/USP - Orientador)


pesquisadores

  • profa. cynthia helena dibbern
  • profa. lya valéria grizzo serignolli
  • profa. rosângela santoro de souza amato
  • profa. simone demboski tonidandel
  • prof. henrique verri fiebig

  • ex-pesquisadores de mestrado

  • profa. melina rodolpho
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