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Blog da USP - 27/03/2012 - Imprimir Imprimir

Engenho dos Erasmos: testemunha das raízes do Brasil

Construído em uma acrópole natural durante os primeiros estágios da colonização portuguesa do Brasil, o Engenho dos Erasmos foi erguido não apenas para dar início ao que se tornaria uma bem sucedida empreitada açucareira, mas principalmente para defender a região recém-descoberta. Visionário, o explorador Martim Afonso de Sousa apostou no açúcar como possível fonte de riqueza enquanto deu seguimento à conquista do território brasileiro. Sobrevivendo a conflitos armados e a dois incêndios, a construção, que resistiu parcialmente à corrosão do tempo, foi doada à USP em 1958.

O Engenho dos Erasmos, em Santos, construído no século 16: uma das ruínas mais importantes do Brasil

Alçado ao status de Monumento Nacional após seu tombamento em 1963, o Engenho dos Erasmos continua a enfrentar o avanço do tempo, agora sob a direção da professora Vera Lucia Amaral Ferlini, uma das maiores especialistas em história do açúcar no Brasil e docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Estamos falando aqui de uma das ruínas mais importantes do país”, revela a professora. Polo de realização de múltiplas atividades profissionais, o sítio arqueológico possui atualmente uma base avançada e conta com um time de cientistas, técnicos e estagiários que atuam na divulgação, promoção e pesquisa científica.

Extensão

Adquirido por um proprietário local em 1943, o Engenho dos Erasmos foi cedido à FFLCH no final dos anos 1950. Entretanto, só passou a ser verdadeiramente estudado enquanto tesouro arqueológico em 1999, após a Prefeitura de Santos ter entrado em acordo com a Universidade, que se comprometeu a transformá-lo numa base para extensão e pesquisa.

Tornando-se um órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, o Engenho assistiu seu potencial ser explorado e desenvolvido por uma série de diretores de especialidades distintas. Gestor até 2001, o professor Julio Roberto Katinsky da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP reforçou a importância arquitetônica da construção cinquentenária. Assumindo em 2004, a professora Maria Cecília França Lourenço, também da FAU, iniciou estudos em educação patrimonial sobre o local, que teve sua base concluída e inaugurada em 2009.

Em março de 2010, sob a direção da professora Vera, o Engenho ganhou novos especialistas e incluiu estagiários tanto da USP quanto da Universidade Católica de Santos (Unisantos), que se tornou parceira conveniada do órgão. Com um total de 10 estagiários e um grupo de pesquisadores docentes, o monumento cresceu não apenas em estrutura, mas também em reconhecimento, ao ser integrado no roteiro cultural da Baixada Santista, procurado tanto por turistas, quanto por estudantes da região.

Luz e som

“O Engenho dos Erasmos é um testemunho do processo de ocupação sistêmica do território até então português”, conta a professora Vera ao revelar as intenções da equipe para a promoção do lugar. Com turmas de visitação frequentando regularmente o Engenho, uma das maiores preocupações é como continuar promovendo os passeios sem destruir o espaço de preservação.

Vera: novos projetos para as ruínas

Com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) somado aos recursos da própria Universidade, a professora Vera e sua equipe pretendem dar início a um conjunto de obras que transformará o Engenho em um pequeno parque arqueológico. Contando com uma torre de observação e passarelas móveis que facilitarão não apenas a apreciação do sítio, mas também sua manutenção, o projeto a ser implantado nos próximos anos também espera enriquecer a experiência dos visitantes ao disponibilizar um espetáculo noturno de luz e som. Através de tecnologia do video mapping, os pesquisadores pretendem projetar vídeos, de caráter tanto lúdico quanto ilustrativo, diretamente na estrutura.

Não bastasse a ampliação das pesquisas no território do Engenho, a equipe, ainda, recebeu da Prefeitura de Santos a proposta de expandir seu estudo para toda a Baixada, que conta com diversas ruínas de engenhos inexplorados em Bertioga, Guarujá e na área continental de Santos. “Essa região era importantíssima no abastecimento da Colônia e servia como ponta-de-lança dos portugueses para assegurarem seu domínio no entorno do rio da Prata”, explica a professora ao revelar a importância não somente histórica, mas também antropológica e cultural de um estudo dessa magnitude.

Cientes de que o trabalho de pesquisa que atravessa a década ainda está apenas no começo, a equipe do Engenho dos Erasmos espera conscientizar a população sobre a importância das ruínas enquanto testemunhas das raízes nacionais. Entre as rochas que restauram a forma original do engenho, e aquelas que demarcam espaços fechados como o fosso, a capela e até mesmo um cemitério indígena, ainda há muito que se desvendar sobre os mistérios dos primeiros exploradores do Brasil.

(Jornal da USP, edição de 26 de março a 1º de abril de 2012 / Fotos: Marcos Santos)

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