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Blog da USP - 17/05/2010 - Imprimir Imprimir

“É a modernização que está em jogo”

O reitor da Universidade de São Paulo, João Grandino Rodas, sofreu um revés na semana passada. Na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que dirigiu até o início do ano, alunos protestam por falta de acesso à biblioteca desde janeiro. A briga gira em torno da transferência de parte do acervo, no fim de sua gestão. A polêmica culminou com uma sindicância contra o vice-diretor, Paulo Borba Casella.

Casella, que pediu afastamento temporário, é apontado como próximo do reitor e teria revogado ordem de retorno dos livros para o prédio principal. Para Rodas, a crise foi fomentada por grupos com interesses divergentes. De professores a bibliotecárias, ninguém estaria interessado em dar prosseguimento às reformas. “O que está em jogo não é a localização da biblioteca. É a modernização da faculdade”, afirma, em entrevista a seguir.

  • A maior polêmica que o senhor enfrentou foi em relação à biblioteca da Faculdade de Direito. A que o senhor atribui essa grande tensão?

A biblioteca histórica da faculdade continua, desde a década de 1930, no prédio principal. A parte do acervo transferida para o novo prédio (da Rua Senador Feijó) é de livros que compunham as bibliotecas dos departamentos. Mas o que está em jogo não é a localização da biblioteca. É a modernização da faculdade. O projeto pedagógico e a grade curricular eram antiquados e o primeiro passo foi propor mudança, o que ocorreu no fim de 2006 (início de sua gestão). Duas mudanças foram necessárias: aumentar o número de professores e diminuir o de alunos por sala de aula.

  • A que atribui essa oposição na Faculdade de Direito?

É feita por grupos cujo único ponto em comum é conseguir bandeiras para seus objetivos: ganhar as eleições para o centro acadêmico ou para representações com assento nos órgãos colegiados, influenciar a nova diretoria, começar campanha para a próxima diretoria, utilizar-se do contexto para aumentar a agitação sindical. E, por parte de um grupo de bibliotecárias, para manter o férreo controle exercido por décadas.

  • A transferência foi feita dias antes de o senhor tomar posse como reitor. Por que foi realizada às pressas?

Novas salas eram necessárias para acomodar classes com um menor número de alunos. Decidi, com o aval de ampla maioria do conselho técnico administrativo, reformar quatro andares do prédio da Senador Feijó e transferir, durante as férias, os livros da biblioteca dos departamentos. Pensei que, em no máximo dois meses, a biblioteca seria aberta. No final de janeiro, ainda não se tinha a posse dos cinco andares superiores, somente entregues em março. Como não foram reformados, a luz desses andares foi cortada e o acesso dos elevadores, impedidos. Daí a notícia dada pela metade, de que o prédio em tela não possuía iluminação.

  • Segundo o Ministério Público, o prédio está quase abandonado. Por que foi escolhido?

Pela localização da faculdade, mais espaço só poderia ser conseguido com a desapropriação de prédios contíguos. Em 2006, o governo desapropriou um prédio na Rua Riachuelo, para sediar a parte administrativa da faculdade. Em 2009, a Prefeitura cedeu prédio da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio para a sessão de Apoio Acadêmico e auditórios para a defesa de dissertações e teses. O da Senador Feijó foi desapropriado pelo governo em dezembro de 2009.

  • O vice-diretor Paulo Casella sofre sindicância interna, pois teria revogado decisão do atual diretor, Antonio Magalhães Gomes, de fazer o acervo voltar ao prédio do Largo São Francisco. Qual é seu posicionamento?

Cabe à direção da faculdade decidir pela volta ou não do acervo para o prédio principal. A reitoria poderia ter colaborado nesses meses e pode ainda colaborar com a reforma dos cinco andares superiores, o que pode ser feito em curto prazo. Com razão da relativa autonomia que gozam as unidades da USP, é imprescindível uma solicitação da diretoria da faculdade. Conservo a confiança no atual diretor. Resta-me esperar que na mais antiga das unidades da USP haja bom senso à altura de sua tradição.

  • O senhor enfrenta protestos, pois publicou portaria na São Francisco em que batizou salas com nome de dois doadores de verba, o advogado Pinheiro Neto e o banqueiro Pedro Conde.

A contestação começou quando um professor, em junho, informou uma procuradora de que a construção de salas e de sanitários em curso não possuía autorização do Condephaat. A obra foi finalizada, por ser regular. Frustrado, o professor iniciou campanha contra dar nomes às salas. Em 2007, a Associação dos Antigos Alunos, a diretoria e o centro acadêmico haviam encetado campanha para a obtenção de fundos para dotar a faculdade de salas de aulas modernas. A campanha pedia contribuição de R$ 1 mil de cada antigo aluno, mas apenas cerca de R$ 650 mil foram arrecadados. Surgiu a possibilidade de que dois doadores construíssem cada qual uma sala. O documento foi assinado pela Associação dos Antigos Alunos, pela diretoria e por representantes de agremiações discentes.

  • O contrato com os herdeiros de Conde foi considerado “de gaveta” por professores e alunos; só veio à tona após a reforma. E a maioria achou que a tradição de usar nomes de ex-professores foi quebrada.

Não se assumia obrigação final no contrato, mas de levá-lo à consideração dos “órgãos competentes da faculdade”. Quanto à questão dos nomes, há salas com nome de não professor – a Visconde de São Leopoldo. Na USP inexiste proibição de se colocar nome de aluno ou de terceiros. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz tem o nome do doador do respectivo terreno e na Escola Politécnica há o prédio nominado Olavo Setubal, ex-aluno ilustre e doador.

QUEM É

CV: O advogado João Grandino Rodas foi diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Na eleição do ano passado, foi o segundo colocado, mas foi o indicado pelo governador José Serra. Ele presidiu o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) durante a compra da Garoto pela Nestlé e, antes disso, foi consultor jurídico do Ministério das Relações Exteriores, durante o governo Fernando Henrique. 

(Entrevista publicada no Jornal O Estado de S. Paulo, edição de 17/05/10)

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