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Os três volumes das obras de Barreto e o livro de Maciel de Barros (abaixo): idéias para o Brasil

O positivismo, filosofia concebida pelo pensador francês Auguste Comte (1798-1857), foi uma das correntes de pensamento que mais frutificaram no Brasil na segunda metade do século 19 e no início do século 20. A idéia comteana dos três estágios da humanidade – o religioso (primitivo), o metafísico (ou filosófico) e o positivo, ápice da evolução da espécie – arrebatou algumas das mentes mais brilhantes da época. Entre os partidários de Comte no País – que incluíam Miguel Lemos, Júlio de Castilhos e Benjamin Constant – estava o médico Luís Pereira Barreto, considerado pelos especialistas o mais “completo” positivista brasileiro, autor de uma obra em que analisa toda a problemática do Brasil segundo os princípios comteanos.

Nascido na cidade fluminense de Rezende em 1840, Pereira Barreto formou-se em Medicina na Bélgica, em 1864, época em que abraçou o positivismo. De volta ao Brasil, fixou-se em São Paulo, onde, além de atuar como médico, exerceu uma intensa atividade intelectual, difundindo os ideais positivistas através de livros e artigos de jornais.

Até há pouco tempo esquecida e dispersa em publicações já esgotadas, a vasta produção de Pereira Barreto tem sido recuperada e divulgada pela USP. No final do ano passado, foi publicado pela Humanitas – editora ligada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – o terceiro volume das Obras filosóficas de Pereira Barreto, organizadas pelo falecido professor e ex-diretor da Faculdade de Educação da USP Roque Spencer Maciel de Barros.


Autor da tese “O pensamento de Pereira Barreto e o seu significado pedagógico” – com que se doutorou na USP em 1955 –, Maciel de Barros organizou a edição de todos os textos filosóficos de Pereira Barreto, que colecionou após exaustiva pesquisa em jornais da época – principalmente A Província de S. Paulo, mais tarde O Estado de S. Paulo. Dos quatro volumes que planejara, o professor viu apenas o primeiro, lançado em 1967 pela Editora Grijalbo. Nele, foi publicada a Filosofia teológica, a primeira parte de As três filosofias, a principal obra do pensador positivista, além de Teoria das gastralgias e das nevroses em geral. Tese defendida em 1865 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, para revalidação do diploma obtido na Bélgica, a Teoria das gastralgias é “a primeira manifestação de ‘positivismo integral’ no pensamento brasileiro” e “uma das mais significativas aplicações do positivismo aos problemas da medicina”, como explica Maciel de Barros na introdução.

Após a morte de Maciel de Barros, em maio de 1999, a professora da Faculdade de Educação Gilda Naécia Maciel de Barros, viúva do professor, dedicou-se a concretizar os planos iniciais, publicando os volumes seguintes. Em 2001, o segundo volume foi publicado pela Editora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), incluindo a Filosofia metafísica, segunda parte de As três filosofias (obra que ficou inacabada, pois Pereira Barreto não escreveu a terceira e última parte, A filosofia positiva, como pretendia). A Humanitas entregou o terceiro volume. A professora Gilda espera publicar em breve o quarto volume – que trará o texto “O século 20 sob o ponto de vista brasileiro”, entre outros –, ainda sem data e editora previstas.

Política e religião

O novo volume está dividido em três partes. A primeira delas intitula-se Soluções positivas da política brasileira e traz artigos publicados em A Província de S. Paulo e reunidas em livro lançado pelo autor em 1880. Positivismo e teologia é a segunda parte do volume, incluindo textos sobre o tema, também publicados em livro naquele mesmo ano. Finalmente, a terceira parte, Artigos sobre assuntos filosóficos e sociais publicados em A Província de S. Paulo, contém textos sobre temas como abolicionismo, metafísica, darwinismo e educação.

Nesses textos, sobressai a originalidade de Pereira Barreto, considerado um dissidente do positivismo brasileiro, em contraposição ao ortodoxo Miguel Lemos. “Positivista ortodoxo a princípio, heterodoxo depois, Pereira Barreto guardou sempre total fidelidade ao positivismo como pedagogia, como instrumento a serviço de um ideal civilizador e ecumênico”, afirma o professor Maciel de Barros em sua tese de doutorado, publicada em 1967 pela Grijalbo, sob o título A evolução do pensamento de Pereira Barreto. “Pensando o passado para estabelecer as bases de um programa de futuro, procurou sempre, ao mesmo tempo, demonstrar exemplarmente a viabilidade de seu programa. E é essa preocupação de aliar sempre a teoria à prática que mais eloqüentemente revela o impulso educador de sua obra, trate ele de educação propriamente dita, de filosofia, de política, de viticultura ou de medicina.”


O mal da metafísica

A seguir, trecho de “A metafísica”, de Luís Pereira Barreto, artigo originalmente publicado em A Província de S. Paulo, em 9 de janeiro de 1881, e incluído no terceiro volume de Obras filosóficas de Pereira Barreto, organizado pelo professor Roque Spencer Maciel de Barros e publicado pela Editora Humanitas

Reiteradas vezes temos afirmado que os erros e aberrações em política e em reformas sociais provêm de erros e aberrações correspondentes em filosofia. No momento atual o público tem uma magnífica ocasião para verificar a justeza e o alcance da nossa asserção. A propaganda abolicionista, com todo o seu cortejo de princípios absolutos, de ficções subjetivas e proposições intransigentes, oferece o melhor campo de observação possível, para que cada um aí possa medir com toda a clareza o grau de responsabilidade que cabe ao sistema filosófico, que serve de base à propaganda.

Temos combatido com energia os excessos e tendências aberrantes dessa propaganda: entretanto, somos os primeiros a afirmar que os abolicionistas, mesmo os mais intransigentes, não são individualmente responsáveis pelos perigos de convulsão social, com que ameaçam comprometer a marcha ascendente da nossa nascente civilização. Seria uma grave injustiça supor que são maus homens todos esses cidadãos que se apresentam fanatizados pelo dogma da liberdade absoluta. Alguns dentre eles nos são perfeitamente conhecidos, e o conhecimento exato que temos de sua conduta privada e pública só nos pode inspirar a mais franca simpatia para com as suas pessoas.

Sabemos que a dedicação de muitos para com suas idéias filosóficas sobe ao ponto de frisar as fronteiras de uma monomania. No terreno das intenções puras e da sinceridade de convicções, são inatacáveis todos esses exaltados propagandistas. (...)

Não há duvidar: é na filosofia oficialmente ensinada nos liceus e nas academias que os abolicionistas beberam todos os princípios que procuram aplicar à sociedade. É a metafísica, e só a metafísica, que é responsável por todos os excessos cometidos em nome da propaganda. Não se iludam aqueles que vêem no grupo abolicionista um insignificante número de espíritos descarrilados, ao passo que o número daqueles que passaram igualmente pelo ensino da filosofia acadêmica e que pensam mui diversamente é imensamente superior. A verdade é que os abolicionistas são os mais fiéis intérpretes da filosofia, que se ensina por conta do Estado, isto é, por conta de todos nós; a verdade ainda é que, entre eles e aqueles que pensam diversamente, a diferença está apenas na coragem com que sustentam a lógica dos princípios e tiram suas imperturbáveis deduções. A propaganda estriba-se logicamente sobre os princípios absolutos que o ensino oficial derrama nas nossas academias; é o próprio Estado que obriga toda nossa mocidade a recebê-los e assimilá-los; é o próprio Estado quem condena a um envenenamento forçado as cândidas inteligências juvenis, que lhe batem à porta para lhe pedir a esmola da instrução superior. (...)

Ora, se se conhecesse o que é na realidade o positivismo e o darwinismo, estamos certos de que a sociedade em peso levantar-se-ia indignada como um só homem para expelir de seus últimos redutos a metafísica, essa fonte de discórdia e de convulsões sociais que põem eternamente em perigo as mais laboriosas aquisições dos séculos.

O positivismo na história e o darwinismo na história natural estão inquebrantavelmente de acordo para nos afirmar, com todo o peso da autoridade que lhe dá austera ciência, que a marcha do progresso não obedece senão a leis fixas e invariáveis, imanentes na substância da humanidade, leis que não permitem o crescimento social senão por sucessivos pequenos acréscimos, segundo uma evolução contínua e ininterrupta, em que o tempo entra como o principal fator.

 




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