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A
saúde foi uma prioridade nos conteúdos das campanhas
eleitorais em 2004. Esperava-se que, uma vez empossados, os prefeitos
começassem a agir para cumprir suas promessas e para continuar
a construção do Sistema Único de Saúde
(SUS) no âmbito municipal.
O SUS é, reconhecidamente, uma importante conquista social
dos brasileiros, consignada na Constituição de 1988.
Uma das conseqüências práticas dessa conquista
é o fato de que, no Brasil, a avalanche neoliberal das últimas
décadas do século 20 não destruiu o sistema
público de saúde, como aconteceu em quase todos os
países da América Latina. Há muitos números
para comprovar os efeitos positivos da existência do SUS para
a saúde pública no Brasil, mas não é
o caso de entrar em detalhes aqui. Reconhecer isso não significa,
entretanto, desconhecer os enormes problemas que o setor de saúde
enfrenta, seja em decorrência das péssimas condições
de vida da maioria que têm grande impacto sobre os
níveis de saúde e, também, das dificuldades
orçamentárias e gerenciais que marcam a administração
pública.
Uma das mais importantes inovações do SUS é,
justamente, operar como um sistema com participação
das três esferas de governo e sob comando único em
cada nível, sendo facultado aos municípios se consorciarem
para otimizar recursos e melhor resolver seus problemas. Foi superada,
finalmente, a absurda discussão para saber se o mosquito
é municipal, estadual ou federal. É preciso,
simplesmente, combater os males do mosquito. No recente episódio
da doença de Chagas em Santa Catarina, com a conjugação
de esforços de diferentes instituições, o que
se viu foi que, uma vez detectado o problema, as ações
correspondentes foram prontamente tomadas. Simples assim.
Constata-se então que, no caso do SUS, embora o sistema seja
único, é flexível o bastante para realizar
ações adequadas a realidades tão distintas
quanto as representadas pelas diferentes regiões brasileiras.
Para financiá-lo há fundos governamentais específicos
e a cidadania controla o SUS por meio de conselhos e conferências
de saúde nas três esferas de governo.
A construção do SUS tem sido uma paciente tessitura
que, envolvendo milhares de órgãos, instituições,
entidades do movimento sindical, movimentos sociais de defesa de
pacientes ou portadores de condições especiais, entre
outros, possibilitou superar o quadro de fragmentação
e centralização das ações de saúde
pública que predominou no país no século 20.
A exigência da carteira de trabalho como condição
para atendimento de saúde foi simplesmente banida com a criação
do SUS.
Dentre as muitas e importantes inovações que vieram
com o SUS na gestão da res publica no âmbito da saúde,
a crucial é a descentralização, com a possibilidade
de os municípios tomarem decisões sobre as ações
e programas mais adequados às suas realidades. Para um país
de dimensões continentais e com a tradição
centralizadora que nos marca desde o descobrimento, descentralizar
é uma verdadeira revolução.
Mas a exigência posta aos administradores públicos,
e sobretudo aos prefeitos, é que defendam a descentralização
e assumam o comando único do SUS no âmbito municipal,
nos termos da Constituição da República e da
legislação complementar.
Nesse sentido, o fato mais marcante no setor da saúde, nesses
primeiros meses de governos municipais, é, sem dúvida,
o episódio do Rio de Janeiro. A intervenção
do governo federal e a reação do prefeito Cesar Maia
produziram um cenário onde tudo preocupa, dos efeitos da
intervenção aos disparates do mandatário carioca.
Adepto de factóides políticos para se manter em evidência,
Cesar Maia errou o cálculo ao tentar manipular politicamente
a saúde na cidade que dirige e, em poucos dias, reuniu uma
das maiores coleções de bobagens ditas sobre saúde
em tão pouco tempo. Adotou uma tática eticamente condenável:
a de acusar seus adversários políticos de fazerem
o que pratica no caso, usar politicamente a saúde
e acusar o governo federal de fazer isso. Com essa postura conseguiu,
quase que ao mesmo tempo, insultar a população do
Rio de Janeiro, ser injusto com técnicos da mais alta qualificação
e faltar com o respeito a vários dirigentes federais
chamando tristemente a atenção a falta de educação
com que se referiu a Jorge Solla, um pós-graduado em Saúde
Coletiva pela Universidade Federal da Bahia, médico sanitarista
cuja experiência profissional é amplamente reconhecida,
à direita e à esquerda no meio de saúde pública,
apenas por ser ex-secretário de Saúde de Vitória
da Conquista o que, per se, na visão de Cesar Maia,
atestaria uma espécie de intrínseca inadequação
para exercer funções no Ministério da Saúde.
Antes de prosseguir, convém esclarecer que o município
do Rio de Janeiro assumiu, em 1999, a gestão plena do sistema
municipal de saúde, o que significa que, dadas as características
do SUS, passou a ter, no âmbito do seu território e
nos termos da lei, competências plenas sobre todos os recursos
de saúde ali existentes, estatais ou particulares. Em outras
palavras, passou a exercer o comando único do
SUS em sua esfera de governo. Mas é desalentador constatar
que Maia parece não saber disso ou, se sabe, deduz-se
das suas declarações e de sua prática que faz
questão de recusar esse comando. Apequenando suas competências,
limita suas falas e ações aos hospitais municipais.
Nenhuma palavra sobre sistema de saúde, nada a declarar sobre
o SUS e seus desafios na cidade que dirige.
Frente aos péssimos indicadores do SUS na cidade, à
intervenção federal saudada pela opinião
pública e ao êxito inicial na resolução
dos problemas das pessoas, o prefeito iniciou uma enfadonha cantilena
sobre pacto federativo, respeito ao povo do Rio de Janeiro
(sic), autonomia do município, providências judiciais
para retomar o controle dos hospitais municipais, ingerência
federal nos hospitais municipais... E, fazendo-se de
vítima de um suposto autoritarismo, buscou a
imprensa para balbuciar impropriedades sobre hospitais federais,
modelo cubano, saúde preventiva,
tudo isso se fazendo acompanhar por linguagem empolada e um gestual
que impressionam leigos, mas que não encobrem o que está
à vista de todos: é precária a prestação
de serviços públicos de assistência à
saúde na cidade, pelos quais, como prefeito, Maia é
o principal responsável. E responsável há muitos
anos, pois foi reeleito no pleito de 2004. Reconhecer essa precariedade
seria bom para, agora, mesmo que tardiamente, começar a resolver
os problemas.
Mas a vista do prefeito carioca parece não alcançar
para além dos hospitais municipais, que distingue
e separa dos hospitais federais. Para justificar a estreiteza
do olhar, andou fazendo longas perorações sobre IAPB,
IAPI e outros institutos de aposentadorias e pensões, findos
com a criação do INPS ainda nos anos 60 do século
passado.
Com a cabeça na institucionalidade do século 20, Cesar
Maia ignora completamente o SUS e os preceitos constitucionais da
saúde erigidos pela Carta Magna de 1988. É grave,
gravíssimo, que o prefeito desconheça o SUS como uma
política de Estado, e não deste ou daquele governo,
deste ou daquele partido.
Em 28 de março passado, o prefeito do Rio de Janeiro participou
do programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo.
Discorreu copiosamente sobre a saúde na cidade que administra
e também no Brasil, pois segundo Maia
esses problemas do Rio de Janeiro aconteceriam em todo o País.
Em mais de uma hora e meia de programa, nada disse sobre o SUS,
ocupando-se, lamuriento, dos hospitais municipais...
Questionado sobre a assistência aos doentes e a organização
dos programas de saúde, desconversou e contrapôs ações
de saneamento e de educação em saúde que estariam
sendo realizadas em sua gestão que, aliás,
não estavam em questão, posto que não há
quem as recuse ou reconheça a importância.
Essas considerações sobre o episódio da intervenção
no Rio de Janeiro não decorrem de nenhuma predileção
minha pelo dirigente municipal carioca. Ocupo-me do fato apenas
porque ele é emblemático do modo como muitas autoridades
públicas olham para a saúde: de modo despreparado
e eleitoreiro. Buscam tirar vantagens (e votos) de situações
que fazem vítimas diariamente. Em artigo no Jornal da USP
(n° 702, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004), afirmei,
durante o processo eleitoral do ano passado: Chega a ser repugnante,
em alguns casos, a mal disfarçada manipulação
da dor e do sofrimento das pessoas, para tentar ganhar um punhado
de votos. Chega a ser constrangedor, também, o achincalhe,
com objetivos eleitorais, de órgãos e obras públicas.
Aliás, é sempre oportuno lembrar que instituições
públicas não pertencem a este ou àquele governo,
mas são propriedades de toda a sociedade. O desrespeito com
que a maioria dos candidatos se refere a hospitais, ambulatórios
e outras unidades públicas de saúde dá a exata
medida do que entendem por política e do que se pode esperar
deles à frente de qualquer governo e não me
refiro, por certo, apenas aos candidatos que urram ou carnavalizam
o processo eleitoral.
Esse episódio carioca, a que todo o País assiste entre
perplexo e indignado, se repete em centenas, talvez milhares, de
municípios brasileiros. A dor e o sofrimento, decorrentes
de problemas de saúde, sendo objeto de jogos políticos,
guerrinhas eleitorais, provocações irresponsáveis,
ações aventureiras. Perversões com um olho
nas urnas e outro nos eleitores.
O outro lado do problema é a ameaça que a intervenção
no Rio de Janeiro significa para a descentralização
do sistema de saúde brasileiro. São algumas décadas
de luta para que os municípios possam tomar decisões
sobre o que fazer em saúde, levando em conta suas realidades
e seus problemas concretos nessa área. Tem sido árdua,
mas até agora bem-sucedida, a batalha para construir no Brasil
um sistema de saúde no qual recursos públicos, de
diferentes esferas de governo, sejam aplicados de modo articulado
e com eficiência.
Mas não faltam os que preferem que tudo se resolva em Brasília.
Não faz tempo, compravam-se em Brasília galochas,
guarda-chuvas, bicicletas e outros insumos para as ações
de saúde e saneamento. Hoje menos, mas ainda se compram muitos
produtos de forma centralizada. A luta pelo SUS que os brasileiros
precisam está apenas começando. Nessas batalhas, serão
necessários prefeitos que assumam suas responsabilidades
no comando único do sistema não de prefeitos
como o do Rio de Janeiro, que parece preocupado apenas com os
hospitais municipais.
O maior risco embutido na aventura político-sanitária
de Cesar Maia que, relapso na assistência médico-hospitalar
e nos programas de saúde, ensejou a intervenção
federal é exatamente este: que muitos mais no futuro
(e não os poucos e quase envergonhados de hoje) cogitem enterrar
o SUS e ressuscitar modelos centralizados de gestão da saúde,
cuja superação tanto tem nos custado em todo o País,
há tantos anos.
Mas pode ser também que, por razões ideológicas,
seja exatamente este o objetivo de lideranças como o prefeito
carioca: destruir e sepultar o SUS. A prática, e não
apenas discursos confusos e empolados, esclarecerá sua posição.
Aqui em São Paulo, nas gestões Maluf-Pitta (1993-2000),
tivemos a versão bandeirante dessa aventura político-sanitária,
com a malfadada experiência do PAS Plano de Atendimento
à Saúde, cuja expressão-síntese, de
notória matriz ideológica neoliberal, é o descaso,
o abandono e o deliberado sucateamento de órgãos e
instituições estatais de saúde, entregando
a gestão da saúde pública à excelência
do setor privado. O resultado foi quase uma década de atraso
na construção do SUS na cidade, perda de recursos
públicos, corrupção e indicadores de saúde
piorando basta ver, para não me alongar em detalhes,
o que aconteceu com a cobertura vacinal e com a área de vigilância
sanitária.
Tudo indica que as eleições de 2004 não acabaram
e que as de 2006 já começaram. E que a saúde
continua sendo apenas um (bom, para alguns...) cavalo de batalha
em época de eleições.
Paulo
Capel Narvai é professor da Faculdade de Saúde Pública
(FSP) da USP
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