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Há um golpe de Estado permanente no Brasil, que
se manifesta não na política, mas na economia. Os
mecanismos institucionais da democratização e da republicanização
estão completamente superados pela economia. Este é
o estado de exceção permanente. A tese foi defendida
pelo sociólogo e economista Francisco de Oliveira, professor
titular aposentado de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Chico de Oliveira, como
é conhecido, é coordenador-executivo do Centro de
Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP e foi um dos
fundadores do PT, do qual decidiu retirar-se no final do primeiro
ano do governo Lula. No artigo em que consumou seu afastamento
sob o título Tudo que é sólido se desmancha
em cargos, publicado em 30 de dezembro de 2003 na Folha de
S. Paulo , Oliveira já acusava o governo petista de
ser um terceiro mandato de FHC, aprofundando as políticas
adotadas no governo tucano. Suas críticas já vinham
sendo feitas antes mesmo da posse, quando as escolhas do PT o levaram
à convicção de que o primeiro governo federal
do partido não chegaria a bom termo. O PT no governo
é um prolongamento da longa via passiva brasileira,
a expansão do capitalismo da exclusão, a repetição
do mesmo, desde o aliancismo desembestado até as políticas
dos tíquetes de leite, diz o artigo.
Chico de Oliveira foi o palestrante principal de mais um encontro
da série Diálogos Franco-Brasileiros, promovida pela
Livraria Fnac de Pinheiros no dia 22 de agosto, sob o título
Brasil Golpe de Estado permanente? Crise política
ou crise institucional?. Também participaram do debate
Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e ex-secretário
estadual de Ciência e Tecnologia no governo Quércia
(1987-1990), e os jornalistas franceses Thierry Ogier e Yann Le
Houelleur, correspondentes dos jornais Les Echos e La Tribune, respectivamente.
Para Chico de Oliveira, a economia colonizou inteiramente a política
e, quando os interesses econômicos são contrariados,
as conseqüências aparecem na forma de crises. Os
ritmos parlamentares e democráticos são lentos e não
conseguem acompanhar o ritmo dos investimentos, diz. Nesse
contexto, a política enquanto formulação da
economia não tem nenhuma chance e é sujeita
a crises cíclicas tais como esta que estamos vivendo,
acrescentou. Não estou defendendo a canalhice que essa
crise política expressa. Só estou tentando entender
o processo para que não fiquemos num discurso moralista que
não vai a lugar nenhum e apenas ressuscita o velho moralismo
da UDN, diz o professor, referindo-se à União
Democrática Nacional partido fundado em 1945 e que,
na definição de Oliveira, batia às portas
dos quartéis toda vez que o voto não lhe dava os resultados
esperados.
A situação de golpe permanente não
foi criada agora, adverte o professor, mas existe praticamente
desde que o Estado brasileiro, a partir da década de 1930,
tentou estruturar uma nova sociedade. Chico de Oliveira listou
uma série de sobressaltos institucionais que justifica a
tese: a Revolução de 1930 e a revolta constitucionalista
paulista de 1932; o primeiro golpe de Estado de Getúlio
Vargas ao elevar-se de presidente provisório a presidente
constitucional; a Intentona Comunista de 1935; o Estado Novo de
1937; um novo golpe com a destituição de Getúlio
de 1945, a decretação da ilegalidade do Partido
Comunista em 1947; a morte de Getúlio em 1954, que foi um
suicídio do ponto de vista pessoal, mas politicamente uma
deposição; as tentativas fracassadas de golpes
contra Juscelino Kubitschek antes de sua posse e durante seu mandato
em meio século de República, aliás,
um caso raro de presidente eleito a terminar seu período
e passar o poder constitucionalmente.
A lista não acaba, relata Oliveira: Aí veio
o homem da vassoura (Jânio Quadros), que tentou dar um golpe
de Estado e ficou por ali mesmo; depois veio o golpe na forma do
parlamentarismo, que João Goulart conseguiu reverter, mas
em 1964 vem o golpe de uma vez. Mesmo entre os militares,
sucediam-se guerras internas pelo poder. Nem o fim do ciclo militar
representou o fim dos solavancos, porque a derrota da emenda das
diretas, em 1984, e a morte de Tancredo Neves, no ano seguinte,
consumaram novos golpes no início da redemocratização.
Pela Constituição, o sucessor de Tancredo não
era o seu vice (José Sarney, que assumiu a presidência),
mas Ulysses Guimarães, presidente da Câmara dos Deputados,
que seria obrigado a convocar novas eleições em 60
dias. E chama-se este país de cordial, ironizou o professor.

O encontro Diálogos Franco-Brasileiros, na Fnac: Corrupção
é endêmica no capitalismo, disse Chico de Oliveira
Assimetrias
A atual crise vivida no Brasil, defende Chico de Oliveira, não
pode ser decifrada a partir dos R$ 3 mil de um pequeno ladrão
ou dos R$ 50 milhões do senhor Marcos Valério.
Citando seu antigo mestre, o professor Ignácio Rangel, Oliveira
diz que a corrupção é endêmica
ao capitalismo. É um tempero, tal como os baianos colocam
pimenta no vatapá. O problema é quando o tempero se
transforma no prato principal. Ainda assim, se a economia
é um circuito fechado no qual nada se perde, cinicamente
pode-se dizer que o fulano que roubou aqui ou ali vai ter que aplicar
esse dinheiro, que portanto volta a irrigar a economia.
A questão
mais grave nesse quadro, entretanto, é o que Oliveira vem chamando
de irrelevância da política. Se a economia opera sozinha,
a política, que é uma extraordinária invenção
para corrigir assimetrias de poder em qualquer sistema, sobretudo
no capitalista, torna-se inútil. A pergunta a fazer então
é: para que serve o voto dos cidadãos? O que a
política faz no sentido de corrigir as assimetrias de poder,
sobretudo o econômico? No cenário da globalização
e do desequilíbrio a favor do poder econômico, mesmo
os mecanismos criados pelas democracias ocidentais para prover um
certo reequilíbrio como os sindicatos perdem
muito de sua efetividade. O que pode fazer o sindicato dos trabalhadores
da indústria automotiva na França ou nos Estados Unidos
quando as empresas demitem em massa nesses países e deslocam
suas unidades para outros continentes?
Para o professor, a globalização impõe aos países
periféricos como o Brasil um ritmo suicida, que
requer uma permanente adaptação e uma permanente aceleração
que as economias periféricas não têm como manter.
Para acompanhar o passo, é necessária uma taxa
de investimento colossal, que geralmente não se sustenta em
recursos nacionais. Daí que não é à toa
que esses países periféricos não conseguem sair
do circuito da dívida externa e são obrigados, para
se socorrer de recursos externos, a praticar políticas internas
fiscais e de gastos suicidas, afirma.
Um exemplo dado por Oliveira é o da situação
do Banco Central (BC), que no Brasil não presta contas
a ninguém. O que faz o BC? Mantém ou aumenta
a taxa de juros, e com isso liquida o orçamento da República.
Aquilo que o Congresso Nacional, mal ou bem, levou meses discutindo
é destruído com uma penada pelo BC. Pior do que
isso, argumenta o professor, é que as principais decisões
do órgão são tomadas num pequeno circuito de
consultores financeiros dos bancos nacionais e fundos de risco
ou seja, representantes do capital privado , enquanto a representação
pública fica restrita ao ministro da Fazenda e à diretoria
do próprio Banco Central.
Peronização
Para Luiz Gonzaga Belluzzo, foi a crise fiscal e financeira do final
dos anos 80 que acabou levando à solução neoliberal,
que qualificou como projeto da classe dominante brasileira.
Simplesmente aceitamos de forma acrítica todo o receituário
do Consenso de Washington, diz, referindo-se à lista
de recomendações dirigidas pelo economista John Williamson,
em 1989, aos países dispostos a reformar sua economia. Entre
os itens da lista estão a privatização, a desregulação
e a abertura comercial. Isso não é coisa que
um presidente ou um partido façam individualmente. É
produto de uma situação ideológica e social
construída ao longo dos anos da crise, diz.
As propaladas reformas dos anos 80 e 90, afirma, foram realizadas
de maneira muito rápida e a partir de uma interpretação
totalmente equivocada do processo de globalização.
Como fruto dessas medidas, o Estado brasileiro perdeu completamente
sua capacidade de gestão, disse. Ao referir-se à defesa
da estabilidade econômica feita pelo ministro Antônio
Palocci, o professor da Unicamp perguntou: Se olharmos a taxa
de juros real de 15% ao ano, como se pode dizer que uma economia
dessas está estabilizada? Ela é uma economia doente,
que não tem liberdade para fazer política monetária
de crédito que promova desenvolvimento econômico.
Belluzzo concorda com Oliveira quanto às raízes da
crise atual. A crise política e o fenômeno da
corrupção nascem da impotência e ao mesmo tempo
da rendição da política diante da economia,
defende. As práticas de corrupção na política
fermentam nas próprias campanhas eleitorais milionárias
e deságuam no poder de barganha de quem tem 20 mil cargos
na administração pública federal para distribuir.
O governo tem uma dificuldade tremenda de formar maiorias
num país que tem essa quantidade enorme de partidos políticos.
E nossa Constituição é semiparlamentarista,
o que obriga os governos a fazer acordos em bases que não
são políticas, mas de interesses. Para Belluzzo,
alguns partidos deveriam estar enquadrados no Código
Penal como formação de quadrilha.
O professor diz que a indiferenciação dos projetos
de poder, que levou a uma indiferenciação das práticas
dos partidos, também está na raiz da crise. Faz-se
o que for preciso para se chegar ao poder, comenta. Se
cede e faz o jogo rasteiro, você perde, porque joga com as
regras e armas do adversário, que joga melhor. Hoje temos
o uso de paraísos fiscais, de caixa dois, ou seja, de tudo
o que os outros fizeram. Só que eles fizeram melhor do que
os de agora, que não souberam jogar o jogo, afirma.
Para Belluzzo, a crise vai prejudicar o debate sobre as alternativas
de política econômica para os próximos anos,
que tende a ser empurrada para parâmetros ainda mais conservadores.
O PT, diz, perdeu a chance de apostar em mudanças ainda durante
a campanha eleitoral de 2002, quando divulgou a Carta ao Povo Brasileiro,
na qual se fala da vulnerabilidade da economia nacional diante do
cenário externo. A carta foi a capitulação,
porque o PT se apavorou diante das ameaças externas. Ninguém
iria acabar com o Brasil coisa nenhuma. O País poderia muito
bem ter feito a inflexão sem ter sofrido nenhuma retaliação,
defende. Belluzzo participou da equipe que discutiu o programa econômico
do partido durante a campanha de 2002 e na época chegou a
ser questionado pelo candidato José Serra (PSDB). O
Serra é meu amigo e colega de universidade. Quando ele reclamou
que eu estava apoiando o Lula, eu disse: Serra, nem você
votaria no candidato do Fernando Henrique. Ele entendeu perfeitamente
o que eu estava dizendo.
Respondendo a perguntas dos jornalistas franceses sobre os cenários
para o desfecho da crise e o futuro de Lula e do PT, Chico de Oliveira
e Luiz Gonzaga Belluzzo disseram não acreditar num impeachment
pelo menos dadas as circunstâncias atuais. O
Lula ainda tem muito prestígio entre o povo, e uma tentativa
de impeachment pode encontrar muita resistência. A idéia
é deixar sangrar, diz Oliveira. Para o professor, o
grande perigo que o PT corre é de sofrer um processo como
o do peronismo na Argentina. Se o Lula desabar como liderança,
o que é provável, o PT vai ficar com uma espécie
de espólio à disposição de gangues que
disputarão esse espólio entre si. Não estou
exagerando: o presidente do partido hoje é boicotado pelo
senhor José Dirceu, exemplifica. Outra alternativa
para o futuro do PT é a militância que
continua enorme e empenhada se rebelar e dar outro
rumo ao partido.
Chico de Oliveira voltou a se referir à Argentina ao dizer
que no país vizinho o desencanto com os políticos
chegou a tal ponto que fermentou o discurso do que se vayan
todos algo como que todos vão embora.
Não sou dessa opinião, pois essa é a
pior situação. Política só se resgata
fazendo. Não há nenhuma fórmula abstrata que
diga como fazer. Para Belluzzo, o saldo positivo da atual
crise é de que a sociedade está se movimentando e
repolitizando as discussões. Não há possibilidade
de deixar vazio o espaço de representação dos
anseios das camadas desfavorecidas, porque é muito grande
a desigualdade, defende. Não tenho perspectiva
ruim dessa crise. A sociedade brasileira tem capacidade de se regenerar.
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Não
há debate público na mídia
Frases
do professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo durante o evento
Diálogos Franco-Brasileiros
*
Nos anos 90, havia uma situação internacional
muito favorável que foi atirada pela janela. Nós
votamos pela mudança, pela revogação
da política econômica neoliberal de FHC. Votamos
e perdemos de maneira cabal, porque a política econômica
do PT
é mais conservadora do
que a de FHC.
* O Brasil tem uma base industrial respeitável, embora
cada vez menos competitiva. Não conseguimos incorporar
novos setores, como outros países estão incorporando.
A diferença entre Brasil e China em 1980 era enorme
a favor do Brasil. Hoje a estrutura industrial chinesa é
muito mais diversificada e avançada que a brasileira.
Eles tiveram uma estratégia de desenvolvimento governada
pelo seu
Estado nacional.
* No Brasil é desproporcional e danosa à democracia
a capacidade da mídia de formar opinião. Nas
questões fundamentais não há debate público.
Jornalistas me perguntam sobre blindagem. Blindagem
do quê? Estão todos com a cabeça formada
de que a economia está blindada.
* Por ocasião das privatizações não
houve debate público. Houve o despejo de uma dose maciça
de ideologia pró-privatização. Quem falava
contra era desqualificado, chamado de neobobo, de jurássico.
A imprensa passava por cima das opiniões contrárias
como um trator. Muda-se de canal e as opiniões são
as mesmas.
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Partidos
são simples braços estatais
Frases
do sociólogo da USP Chico de Oliveira durante os Diálogos
Franco-Brasileiros
*
Não se pode produzir superávit primário
de 6%
do PIB e ao mesmo tempo fazer programa social.
Só sendo Mandrake.
* Hoje os partidos são simples braços estatais,
não são mais partidos. O Estado transformou
o partido num braço seu para regular a sociedade. O
Estado avassalou o partido. Daí o fato de que o FHC
saiu do governo que liderou por oito anos e no dia seguinte
ele e seu partido não valiam nada. Ninguém que
opera no mercado financeiro daria um tostão furado
pelo PSDB e isso vai acontecer com o PT. Deixou o governo,
é irrelevante.
* A incompetência visível do governo tem a ver
com a menina dos olhos do PT, que eram os programas sociais.
Na política econômica, estão fazendo a
coisa direitinho desde que você esteja daquele
lado, claro. Certamente esses dirigentes seriam incompetentes
para fazer política econômica transformadora.
* Administrações municipais do PT ganharam reconhecimento
internacional. Porém, não se pode simplesmente
fazer transplante de política social aplicada no nível
municipal para política federal. Basta dizer que um
município não maneja a moeda.
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