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O que reina hoje em Gaza são a insegurança e
condições desumanas de vida. A desocupação
só foi possível porque a ocupação já
atingiu seus objetivos. Ali impera um cenário de desolação
e caos. Nunca nestes 38 anos os palestinos puderam criar
sua própria infra-estrutura, disse na USP o estudante
israelense Eyal Sagie
A retirada israelense da Faixa de Gaza após 38
anos da ocupação iniciada com a Guerra dos
Seis Dias, em 1967 não é significativa para
a formação de um futuro Estado palestino e não
aponta para nenhuma mudança real de rumo na política
exterior do primeiro-ministro Ariel Sharon, pois já era uma
estratégia esperada. A ação militar reprovada
por muitos israelenses, na verdade, foi mais um passo para a desagregação
da sociedade palestina. As opiniões, que soariam naturais
na boca de um palestino, foram proferidas pelo estudante israelense
Eyal Pundak Sagie, durante debate no Anfiteatro do Departamento
de História da USP, promovido dia 25 de outubro pelo Instituto
de Cultura Árabe e pela Faculty for Israeli-Palestinian Peace
International (Ffippp), entidade educacional de caráter internacional
cujo objetivo é promover a paz, a justiça e a democracia
no Oriente Médio.
Aluno de Literatura Clássica Comparada na Universidade de
Tel-Aviv, Sagie manifestou seus pensamentos sobre o conflito árabe-israelense
ao lado do palestino Salah Haboob, bacharel em Ciências Sociais
e Humanidades pela Open University of Israel. A passagem dos dois
estudantes por São Paulo integrou uma série de palestras
realizadas entre os dias 21 e 26 de outubro em universidades paulistas.
O mesmo já havia sido feito entre os dias 17 e 20 de outubro
em cidades francesas. A Ffippp, que realiza debates e intercâmbios
universitários com o objetivo de cooperar para conter a escalada
da violência no Oriente Médio, pretende levar uma delegação
de estudantes brasileiros para aquela região. As informações
sobre a iniciativa estão no site www.ffipp.org.
Ao se referir à situação em Gaza, Sagie disse
que o que reina no lugar hoje são insegurança e condições
desumanas de vida. A desocupação foi possível
porque ali a ocupação já atingiu seus objetivos.
Ali impera um cenário de desolação e caos.
Nunca nestes 38 anos os palestinos puderam criar sua própria
infra-estrutura e Israel, como ocupante, tinha a obrigação
de providenciar serviços públicos à população.
Agora os palestinos têm de fazer isso, diz o israelense,
que se recusou a servir no exército de seu país, ao
contrário da maioria dos seus compatriotas que assumem o
ato como praxe e desejo. Para Sagie, o exército em Israel
funciona como uma espécie de segunda escola, pela qual todos
passam. É como as pessoas se tornam de fato parte da
sociedade israelense e como incorporam e reproduzem os valores e
a imagem sobre a ocupação.
As origens e as razões distintas não impediram que
Haboob e Sagie lutassem pelo ideal comum. O objetivo de ambos, além
de colaborar para um diálogo possível entre os dois
lados, é fazer as pessoas em geral reverem seus conceitos
e preconceitos criados pelas notícias veiculadas na mídia
sobre o conflito. Queremos pintar um quadro diferente nesse
processo de opressão global no qual, sem a ajuda de potências
como os Estados Unidos, a ocupação não poderia
se efetivar. Isso ninguém critica. Não dá para
simplificar dizendo que um lado representa a democracia e o outro,
o fundamentalismo, o terrorismo. As minorias oprimidas estão
dos dois lados e nossa luta é contra a opressão,
defendeu Sagie.
Ativista do The Active Students Forum e do The Student Coalition,
o israelense se diz representante de uma minoria em Israel. Em
nome da ocupação, a sociedade israelense abre mão
da própria democracia. Acho que as próprias lideranças
de Israel se surpreendem em saber que podem cometer tantos crimes
em nome da liberdade. Israel caiu numa grande armadilha, que foi
se tornar um país dependente e não democrático.
Elementos importantes numa sociedade, como democracia, educação
e liberdade de expressão, não estão presentes
em Israel. Aqui me sinto livre e posso falar o que quiser,
desabafou.
O estudante disse que se deu conta da opressão à liberdade
de expressão em seu país durante uma reunião
familiar. Estávamos numa comemoração
do Yon Kipur (Dia do Perdão, celebração judaica
para a reflexão e renovação espiritual). No
entanto, cada opinião minha tinha de ser acompanhada de exaustivas
explicações, enquanto que as minhas perguntas eram
sempre respondidas com evasivas. Eu tinha de me defender porque
o outro fazia parte do lado forte. Perdi a paciência e isso
me fez pensar em por que os palestinos têm certas reações,
como explodir a si próprios com bombas. Isso é o que
os palestinos estão vivendo. Uma situação de
constante interrogatório. Para trabalhar, estudar, visitar
a família, sempre têm de dar uma justificativa para
seus atos, diz Sagie.
A
vida em Ramalah
Haboob discorreu sobre o que viu, viveu e sentiu na pele durante
os sete anos em que ficou detido pelas forças inimigas. Falou
de um amontoado de leis israelenses que subjugam os direitos civis
e humanitários dos palestinos, sob vistas grossas da comunidade
internacional. Fez greve de fome para ter o direito de estudar.
Não só conseguiu concluir o bacharelado como se tornou
mestre em Estudos Israelenses, o que o ajudou a ver e entender
o outro lado social de Israel. Trabalha no Ministério
para Assuntos de Prisioneiros da Autoridade Palestina em Ramalah.
A conversa corriqueira do palestino é fulano
está preso, o filho, o irmão, a irmã
de fulano está preso ou morto. É sobre isso
que falamos. E toda a vida gira assim. Em função disso,
toda e qualquer ação se torna política, porque
fazemos política o dia todo. Nunca tivemos um país
e não temos know-how para fazer isso. As pessoas desconhecem
suas leis. As manifestações e os movimentos sociais
são a única forma de organização e é
por isso que surgem tantos grupos políticos, diz Haboob.
Para Haboob, nada em Gaza mudou. A diferença é
que antes os soldados atiravam da esquina, agora atiram de aviões.
Os moradores estão num gueto. De um lado têm o mar,
do outro, o Estado de Israel. A fronteira com o Egito é controlada
por Israel. Os palestinos não têm exército nem
armas para se defender. Ninguém pode entrar ou sair sem autorização.
A desocupação de Gaza foi um primeiro passo. Mas acredito
que um Estado Palestino tem que existir com as fronteiras de 1967.
Pai, avô e conhecidos de Haboob também já passaram
pelas prisões israelenses. O que acontece lá
dentro é uma afronta aos direitos humanos. As pessoas sofrem
todo tipo de pressão e até torturas para confessar
crimes que não cometeram. São obrigadas a assinar
confissões escritas em hebraico. Os familiares quase não
têm informações sobre o prisioneiro, que é
constantemente transferido como estratégia para não
se articular ou se rebelar, disse.
Haboob afirmou que a Palestina é hoje a maior prisão
do mundo, onde estão não apenas homens, mas
também mulheres, grávidas ou não, casadas,
com ou sem filhos, e até crianças. A prova mais
clara desse terrorismo é a existência de cidadãos
israelenses que apóiam a causa palestina. Nessa luta
desigual, as mulheres se tornaram um símbolo porque
são irmãs, mães e mártires.
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| Sagie:
estratégia esperada |
Haboob:
nada mudou |
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