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tempos imemoriais a casca de cultura tenta se impor, dentro do
homem, sobre sua característica eminentemente
irracional. A ciência por vezes tenta prevalecer, mas dificilmente
se pode dizer que a cultura humana se faz mestra através
da razão. Grandes generais impõem derrotas a seus
inimigos através de seu carisma em relação
a seus comandados. A cultura ocidental se deve, em grande parte, às
vitórias romanas sobre Aníbal, que não soube
se desvencilhar de seu ódio visceral por Roma, e da fibra
quase imaterial de Leônidas nas Termópilas. Tais características
se repetem na história, no fracasso do sábio Juliano,
o apóstata em reerguer o Império Romano, na vitória
do grande Saladino em Tiberíades, no fiasco de Luís
XVI, na derrota de Napoleão na Rússia, no terrível
destino de tantos homens pela foice irracional do Terceiro Reich.
No entanto, por muito tempo o homem ignorou a importância
do irracional como força motriz da história humana.
Essa ignorância custou tantas derrotas ao ser humano, e ainda
hoje há ditos intelectuais em vários meios que não
sabem aquilatar as terríveis forças que jazem no
inconsciente humano.
Wolfgang Pauli, em seu dueto com Carl Jung, desvendou as forças
internas que moviam Kepler em sua busca por leis que pudessem reger
o movimento dos astros. Kepler partiu da premissa de que a matemática é o
arquétipo da beleza do mundo, hipótese que não
pode ser demonstrada, pois jaz no âmbito da confiança
nas leis, e não em sua prova. Kepler obviamente obteve grande
sucesso.
A busca pela verdade científica em contraposição à cultura
do irracional sempre esteve presente na história humana.
No caso das ciências há demonstrações
claras dessa luta intestina nos dois últimos séculos.
As conseqüências da universidade moderna na Alemanha
se fizeram ver de maneira absolutamente clara no século
19. Era uma universidade baseada sobre o mérito. Seu sucesso
foi tal que a Alemanha ultrapassou, em técnica, a própria
Inglaterra, venceu a França nos campos de batalha e a cultura
científica alemã teve em seus estertores, no início
do século 20, a representação maior da ciência
moderna. A língua teutônica passou a ser a língua
da ciência na época. A química alemã era
a primeira.
Foi quando certos acontecimentos estranhos à ciência
tiveram lugar na sociedade alemã das décadas de 20
e 30. O irracional tomou conta do país na figura do nacional-socialismo,
grandes cientistas judeus foram presos ou fugiram do país
e até mesmo professores universitários sedentos de
um lugar ao sol, no jardim infernal do nazismo, passaram a defender
a linguagem de uma ciência ariana em contraposição
a uma ciência judaica. Foi a queda da ciência na Alemanha,
assim como o prenúncio da débacle do nazismo, pois
o mundo livre, configurado na época na América e
na Inglaterra, deslanchou suas descobertas, tais como o radar,
que foi primordial na destruição do arsenal aéreo
nazista de Göring, levando à derrota inexorável
da Alemanha.
Esse não foi um caso isolado na história. O declínio
do Ocidente na Idade Média, com a concomitante ascensão
da ciência árabe, e o declínio árabe
após Saladino, quando os turcos mamelucos tomaram o poder,
são exemplos da escolha do irracional como forma de se lidar
com a vida sobre a Terra e nossos co-habitantes.
O que ocorre hoje não é novo. O irracional continua
uma ameaça à vida humana superior, já que
somos, na maioria das vezes, incompetentes em relação
a essa importante componente de nosso próprio ser. É desse
modo que chegamos a ter sociedades onde alguns cidadãos
aparentemente esclarecidos defendem pontos de vista absolutamente
contrários à evolução do conhecimento.
O volume de Alan Sokal e Jean Bricmont, sobre absurdos intelectuais
de moda e abuso da ciência pelos chamados intelectuais pós-modernos, é um
exemplo claro do que chamo, neste artigo, de representantes das
hordas de anticultura, desta vez desde o próprio interior
da academia.
De fato, o professor Sokal, inconformado com o fato de se escrever
um grande número de bobagens aparentemente calcadas em verdades
científicas, escreveu um artigo em uma revista de estudos
culturais, a Social Text, onde suas afirmações careciam
de qualquer sentido lógico, mas usavam de tal forma o jargão
científico que o artigo foi publicado. Posteriormente o
professor Sokal revelou sua brincadeira intelectual.
É assim que a horda de anticultura pode se revelar de várias
formas, através do mau uso da ciência (conforme demonstrado
pelo artigo de Sokal), através de premissas que supõem
a existência de uma ciência nacional em contraposição
a uma ciência universal, ou finalmente através da
simples negação do mérito acadêmico
como forma de se resolver questões dentro de uma universidade,
ou de uma sociedade superior.
O segundo caso, qual seja, da ciência nacional, além
do exemplo nazista, tem tido eco nos bastidores mais sórdidos
da militância política do Brasil. O desprezo pela
busca de novos métodos e pelo emprego de genética
em agricultura é o caso mais gritante, mas não o único,
já que não são poucos os colegas (na falta
de uma denominação mais adequada que não seja
pejorativa demais em um artigo) que defendem a adoção
de, em nosso caso, uma física nacional que possa eventualmente
resolver os problemas nacionais. Essa é uma forma muito
deletéria de contracultura (que por razões históricas
nomeei anticultura), pois, além de nos separar da ciência
internacional de competência, relegando-nos ao abandono acadêmico,
leva o país como um todo em direção a um quarto
mundo de ignorância, tudo em nome de formas políticas
ultrapassadas, que há meio século (portanto já no
século 20) desprezavam a genética como falsa ciência!
A terceira forma de anticultura, qual seja, o desprezo pelo mérito,
configurado pelo julgamento dos pares, está, infelizmente,
alastrada na universidade brasileira, sendo, em nossa opinião,
a pior das formas, mas que vem aparelhada com representantes das
duas outras formas de anticultura, portanto, três Erínias
sem senso de justiça ou de saber.
De fato, há, na universidade brasileira, uma mistura bastante única,
se comparada com universidades internacionalmente competentes,
que é a conjunção, por um lado, de um grupo
de competência internacional, ligado às linhas de
pesquisas de importância, e por outro lado, representantes
do mais retrógrado pensamento, que usam até mesmo
as imposturas intelectuais já mencionadas. Vejam-se o Hospital
das Clínicas ou vários outros departamentos, com
pesquisadores da mais alta competência como representantes
do primeiro grupo, e uma associação que congrega
cerca de um a cada cinco docentes, da qual participam vários
docentes que, apesar de serem pagos para se dedicarem integralmente à docência
e à pesquisa, passam vários anos sem escrever uma
letra sequer que componha parte da cultura, ciência ou tecnologia
nacionais (ou internacional, se for o caso), como representante
do segundo grupo.
Em meio a tudo isso, há ainda um grande número de
professores que simplesmente (e infelizmente) lavam as mãos
em relação à maioria dos acontecimentos. Nessa
dicotomia, acabam muitas vezes prevalecendo aqueles que têm
mais tempo disponível, ou seja, quem não faz da universidade
sua profissão, mas que aproveita de movimentos irracionais
para dar um sentido à sua miserável vida. Em geral,
acusam quem trabalha de pertencer à extrema direita!
Essa conjunção de valores e seus opostos formam um
colorido típico que desfaz o tecido social que permeia a
universidade, onde o trabalho intelectual, que necessita de paz
de espírito e concórdia, mesmo em meio ao debate,
termina por ser ineficiente.
Não há, no horizonte próximo, solução
para esse problema. No caso da Universidade de São Paulo,
deve-se fazer todo o esforço no sentido de se colocar o
mérito acadêmico e a discussão competente,
no sentido que bem conhecem os reais acadêmicos, como qualidade
essencial para participação em decisões e
critérios de julgamento de qualquer questão interna à academia.
Elcio Abdalla é professor do Instituto de Física
da USP
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