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paciente, mas olhar também para os entes mais próximos, que passam por grande sofrimento.
A partir de entrevistas semi-estruturadas (sem a presença de um questionário fechado, por se tratar de um estudo qualitativo), a psicóloga identificou três temáticas referentes aos sentidos do câncer e da conjugalidade: o câncer em si, que inclui a confirmação da enfermidade, a fase de tratamento e a vida a dois na doença.
O momento de chegada da doença foi fortemente relacionado pelos casais ao sentido de sacrifício e ao desfecho de morte, ainda que atualmente os recursos terapêuticos para o tratamento do câncer sejam bastante eficazes quando o diagnóstico é feito em seus estágios iniciais. Cintia conta que “culturalmente o câncer ainda é associado à idéia de ‘castigo’, então os casais se revoltam por julgar não ‘merecer’ passar por aquela situação”. Percebeu-se também a presença da religião e a relação dos casais com a idéia de Deus.
Valores tradicionais – Na fase do tratamento, foi constatado que a ajuda dos maridos consistia principalmente em levar a esposa aos locais de tratamento. “Lidamos com casais mais velhos, influenciados por valores tradicionais, nos quais as tarefas domésticas são esperadas da figura feminina, então, em geral, estas ficavam a cargo de uma empregada. Da mesma maneira, cuidar dos doentes está tradicionalmente relacionado à mulher, e no grupo estudado tarefas como ajudar no banho e fazer curativos eram desempenhadas por uma parente”, relata a psicóloga.
Sobre a questão da diminuição das relações sexuais nas mulheres que passaram por mastectomia (cirurgia para retirada de parte ou totalidade da mama), Cintia ressalta que não é possível atribuir esse fato somente ao câncer e à operação: “Em se tratando de casais mais velhos, também temos de levar em conta mudanças próprias à idade, como ressecamento vaginal na mulher e dificuldades de ereção para o homem”.
Em relação à idéia de casamento, foi perguntado a cada um dos parceiros o que era para ele ser marido, e o que era para ela ser esposa, e percebeu-se que a questão do câncer influenciou nos conceitos de ambos. Alguns maridos, por exemplo, citavam que um de seus papéis era manter a fidelidade mesmo na doença – remetendo ao juramento que é realizado durante a cerimônia religiosa, à crença de que os parceiros devem ficar juntos “até que a morte os separe”. O “ser esposa”, para as mulheres, refletiu a crença na completude recíproca do casal e no papel da mulher ligado ao cuidado da casa e de seus membros.
Os casais relataram maior proximidade após o evento da doença, mas também disseram que os sentimentos mais íntimos dos dois em relação ao câncer não foram divididos – e essa ocultação parece ter sido uma medida para não afetar os laços conjugais, como explica a pesquisadora: “Não revelar o que estavam sentindo em relação ao que estava acontecendo, ser tolerante, paciente e ‘fazer vistas grossas’ foram relatados tanto pelos homens como pelas mulheres”.
Superação – “Notamos que os casais entrevistados conseguiram superar a doença sem ajuda profissional, baseados em valores típicos da moral que rege os relacionamentos no século 20. O que não quer dizer que isso possa ser generalizado, já que cada um lida à sua maneira com as situações. Se tivéssemos entrevistado casais mais jovens, por exemplo, pode ser que dissessem que o correto é que o casal viva tudo em conjunto, e relate ao outro todos os seus sentimentos, como acontece com o que chamamos de ‘casais grávidos’, em que o marido acompanha a gestante em todas as etapas da gravidez, e às vezes até engorda com ela. E nada impede que esse modelo possa ser eficaz no enfrentamento de uma doença.”
Para efetivar o estudo, analisando as saídas construídas pelos casais nessa situação, a psicóloga utilizou bibliografia e conceitos do chamado “construcionismo social”. “O construcionismo social postula que construímos sentidos para nossas vidas articulados com as relações sociais que estabelecemos ao longo de nossa existência, sempre contextualizados com o momento histórico e cultural vivido”, conclui.
A pesquisa foi realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e resultou na tese de doutorado “Sentidos construídos para o relacionamento conjugal na vivência do câncer de mama feminino”, defendida em novembro de 2007 na EERP, sob orientação da professora Ana Maria de Almeida.
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