Quando uma mania vira doença [Revista Espaço Aberto USP] PDF Imprimir E-mail
Ter, 15 de Outubro de 2013 21:44

 

Veículo: Revista Espaço Aberto USP

Seção: Comportamento

Data: junho/2013

Estado: SP

Pesquisador Citado: Paulo Abreu

 

QUANDO UMA MANIA VIRA DOENÇA

 

O transtorno obsessivo compulsivo, mais conhecido pela sigla TOC, atinge 2% da população mundial. Muito além de uma simples mania, a doença transforma a vida daqueles que a possuem em uma série de obrigações e rituais a serem realizados, impedindo-os de levar uma vida normal.


 

O transtorno pode ser caracterizado por dois tipos de comportamento: a aparição constante de pensamentos indesejados e a repetição de determinadas ações. Chama atenção a tortura psicológica que ele provoca. Um portador pode pensar algo do tipo “se eu não lavar as mãos, vou me contaminar com Aids”, conta o psicólogo e doutorando pelo Instituto de Psicologia, Paulo Roberto Abreu. Ações que na realidade não possuem nenhuma conexão são motivo de uma grande ansiedade, pois na mente dos portadores se estabelece uma forte relação de causa e efeito, que só pode ser evitada se certos rituais forem cumpridos.

 

 

“Os sintomas, em geral, são preocupação excessiva com contaminação associada a comportamentos de limpeza e lavagem, pensamentos trágicos com comportamentos que visam a evitar esses acontecimentos, necessidade de simetria e uma organização constante”, afirma a psiquiatra e coordenadora do Programa Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (IPq-HCFMUSP), Roseli Shavitt. Além desses, é comum a presença de pensamentos indesejados, com conteúdo de blasfêmia ou mesmo incestuoso, que a pessoa não consegue controlar. Ter esses pensamentos é motivo de sofrimento para o portador, que começa a evitar as situações que os causam, o que pode atrapalhar sua relação familiar,social e profissional.

 

 

Doença do segredo


 

Mas apenas evitar o problema não acaba com ele. “O apelido do TOC é doença do segredo. Os portadores em geral têm noção do quanto não razoável é o pensamento ou o comportamento repetitivo, mas eles acabam não compartilhando esse sentimento”, conta a psiquiatra. Abreu percebe o mesmo tipo de comportamento em seus pacientes. “Deles, 99% sabem que o resto da sociedade não aceita seu comportamento. Porém, isso não significa que eles consigam mudar isso sozinhos”, ressalta.

 

 

Quando o comportamento ou o pensamento obsessivo causa sofrimento àquele que o possui, é a hora de procurar ajuda profissional. O tratamento para a doença pode variar conforme a idade do portador, a intensidade do transtorno e a velocidade esperada até o desaparecimento dos sintomas. A terapia comportamental, individual ou em grupo, é uma das opções. Indicada para todos os pacientes, costuma não ser muito aceita pelos adultos, que procuram uma solução mais rápida.  Como explica Roseli, “o que acontece com os adultos é que, como eles têm a doença normalmente há mais tempo, podem resistir um pouco mais a fazer a terapia e querer um resultado mais rápido”. Nesse caso, são usados medicamentos que combatem a ansiedade e antidepressivos.

 

 

O psicólogo trabalha com seus clientes o método de Exposição com Prevenção de Respostas, que consiste em hierarquizar as situações que causam ansiedade na pessoa e ir gradativamente fazendo com que ela enfrente essas situações. O terapeuta pode estar presente nesses momentos, para dar segurança e impedir que o cliente venha a realizar os rituais associados à situação que está sendo enfrentada. “Em um primeiro momento a ansiedade sobe, mas depois isso vai diminuindo. As exposições são feitas pelo menos quatro vezes por semana e aos poucos a situação vai incomodando menos”, afirma. O portador do TOC vai percebendo que o que ele temia que fosse acontecer se não realizasse determinado ritual, não se concretiza. “Se a pessoa aprendeu a ter ansiedade, ela pode desaprender”, explica Abreu.

 

 

A psiquiatra ressalta que o tratamento da doença é mais longo do que o aplicado a outros transtornos de comportamento. “Diferente da depressão, que em duas semanas você já começa a ver um resultado, no TOC se espera até 12 semanas, se possível, antes de descartar um tratamento. Quando aparece o efeito e vemos a melhora, mantemos o tratamento por até um ou dois anos.”

 

 

Realizar o tratamento, porém, não significa cura total. “A gente não elimina a pré-disposição do indivíduo a ter aqueles sintomas, falamos em controle”, afirma Roseli. O paciente com o transtorno vai aprender a identificar os sinais de sua volta e pode passar a controlá-los. Entendendo como a doença funciona, ele evita que os rituais ocorram novamente.

 

 

A pré-disposição para o desenvolvimento do Transtorno Obsessivo Compulsivo pode estar ligada a fatores genéticos. Filhos de portadores têm 10% mais chances de desenvolver o transtorno do que outras pessoas. Fatores ambientais também podem causar o TOC. Eventos traumáticos, grandes mudanças – boas ou ruins – e até mesmo problemas no parto podem desencadeá-lo.

 

 

Importância de receber apoio


 

Uma boa notícia é que o transtorno está cada vez mais conhecido pela sociedade. Se antes seus portadores eram vítimas de discriminação e motivo de piada, hoje é mais comum que seus comportamentos sejam identificados como um transtorno sério. Como conta Abreu, “os pacientes têm vergonha deles mesmos”, então receber o apoio de pessoas próximas é essencial para que o portador decida procurar tratamento. Os dois profissionais afirmam que quando uma personalidade pública revela possuir TOC, como aconteceu com o cantor Roberto Carlos, há uma onda de procura por apoio profissional, pois as pessoas passam a prestar mais atenção ao problema.

 

 

Uma boa oportunidade para aqueles que estão buscando ajuda são os estudos realizados no IPq. Atualmente o instituto está com triagem aberta para dois deles, um voltado para adultos e outro para crianças. O dos adultos tem como objetivo testar a potencialização de medicamentos. Já no estudo das crianças, o objetivo é avaliar qual a melhor ordem de aplicação de tratamentos já consagrados, que são os medicamentos e a terapia comportamental. Os interessados podem ligar para o telefone 2661-6972 e deixar uma mensagem na secretária eletrônica, com nome e número de contato. O IPq retornará a ligação para agendar uma entrevista.