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Por que Economia?

Como me tornei um economista

Trecho do Memorial apresentado no concurso para provimento de cargo de Professor Doutor (efetivo) junto ao Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, realizado no período de 18 a 21 de julho de 2000.

Ainda me lembro claramente do resultado do teste vocacional a que me submeti, em outubro de 1987, com o Professor Oldach, coordenador pedagógico do Colégio Loyola. Àquela época, com dezessete anos recém completados e terminando o segundo ano científico em uma das instituições de ensino mais tradicionais de Belo Horizonte, tinha que enfrentar a primeira de uma série de decisões que definiriam a minha trajetória profissional. Era o momento de escolher a área de concentração do meu último ano no então ensino secundário: ciências biológicas, humanas ou exatas.

No primeiro semestre daquele ano, participara de um curso especial de biologia marinha em Anchieta, Espírito Santo, que, apesar de ter contribuído para um melhor aproveitamento dos meus mergulhos autônomos, não propiciou o algo mais necessário para a escolha de uma carreira. Além do mais, se não se vislumbrava um futuro nas ciências biológicas semelhante ao de Jacques Cousteau, por que considerar esta área de concentração? Já nas outras duas áreas – humanas e exatas – levaria com prazer uma vida sem grandes aventuras em troca dos desafios intelectuais que me pareciam mais promissores. Filho de professores universitários, minha mãe professora de sociologia e meu pai de economia, fui criado em um ambiente altamente intelectualizado, em que não raro me encontrava sentado ao lado de meus pais escutando discussões com amigos sobre temas que a cada vez tornavam-se menos distantes para mim. Os temas econômicos, principalmente, sempre estiveram presentes em nosso dia-a-dia e só mais tarde pude perceber a importância destes debates na decisão que estava por tomar.

Como não considerar os anos dedicados aos estudos de línguas estrangeiras? Já se passaram quase seis anos de estudo do inglês, três do alemão e do grego moderno e dois do francês. Por que não levar adiante este meu gosto pelo aprendizado de línguas estrangeiras e me tornar um lingüista profissional? Na verdade, esta minha opção em idade tão pouco avançada representava um meio de concretizar um de meus sonhos de aventureiro que era conhecer o mundo. Viajar. Por isso também, neste momento de minha vida, já desenvolvera uma série de leituras em geografia e história antiga. Talvez, em outubro de 1987, Heinrich Schliemann ou Arthur Evans personificassem melhor meus anseios profissionais do que Jacques Cousteau.

O Professor Oldach parecia ter acertado em cheio: arqueólogo ou diplomata! A arqueologia poderia esperar. Tornar-me-ia um diplomata profissional e, posteriormente, um arqueólogo amador. Com algum tempo ainda disponível antes da decisão mais importante da minha vida, fui atrás de informações sobre a carreira diplomática. O primeiro passo seria completar dois anos de um curso superior e intensificar meus estudos de inglês e francês. A estratégia estava traçada e a meta era me preparar para um novo vestibular: o exame de admissão para o Instituto Rio Branco. Nesse exame, se me lembro bem, constavam provas de geografia e história, inglês e francês, e direito e economia. Não via problemas para me preparar sozinho para as quatro primeiras provas. Afinal, eram o meu “forte”. Poderia fazer dois cursos superiores, do que fui dissuadido pelos meus pais por considerarem efeitos negativos no fator qualidade. Depois de algumas conversas, convenci-me de que também poderia me preparar sozinho para a prova de direito do Itamaraty e decidi estudar economia. No ano seguinte, dos vinte e dois alunos do colégio que prestaram vestibular para economia, vinte eram da turma de ciências humanas do terceiro científico. Eu me matriculara na turma de exatas. Quiçá por influência do meu pai, economista, já pensava em termos de vantagens comparativas.

Tendo passado em segundo lugar no vestibular da PUC-MG e em terceiro no da UFMG, senti a sensação de dever cumprido. Afinal, tudo indicava que estava iniciando uma nova etapa de minha vida com o pé direito.

O primeiro ano do meu curso de graduação em economia não foi dos mais estimulantes do ponto de vista intelectual. É verdade que a orientação precisa de meu pai servia-me para aguçar o interesse pela matéria. Mas, com a perspectiva de passar um semestre na Europa, meus esforços concentraram-se em outras tarefas. Em 1989, intensifiquei e diversifiquei meus estudos de línguas estrangeiras. Ciente da necessidade de estabelecer um conhecimento bem fundamentado de princípios econômicos, procurava sempre conciliar minhas leituras universitárias com minhas atividades extra classe. Paul Samuelson, Rudiger Dornbusch, Stanley Fisher, Karl Marx, Ugo Napoleoni e Émile Durkheim são autores de que me recordo tê-los lido no original (confesso que menos interessado no conteúdo de seus escritos do que em sua estrutura léxico-sintática). A extensa biblioteca de meus pais possibilitou-me tal luxo, algumas vezes compreensivamente considerado extravagante por alguns colegas menos interessados.

Durante os sete primeiros meses do ano de 1990, mais precisamente do dia 20 de janeiro ao dia 13 de agosto, vivia um dos períodos mais ricos de minha história pessoal. Depois de um investimento intelectual prazeroso, dentro de quatro paredes, buscando desvendar os mistérios de outros povos e culturas, tinha a oportunidade de vivenciar a experiência que tornava esses mistérios mais afastados do agradável cheiro de livro, dando textura, cor, som, gosto e odor ao imaginário. No decorrer de minhas andanças, encontrava-me a todo momento deslumbrado com o poder de minhas leituras. A satisfação obtida com o conhecimento acumulado para aquela ocasião fazia-me sentir cada vez mais poderoso e, ao mesmo tempo, angustiado com a existência de horizontes inatingíveis. Começavam a configurar-se os elementos que, mais tarde, levar-me-iam à opção pela vida acadêmica.

Sem saber, as experiências vividas na Europa preparavam-me para o mercado de trabalho. Domínio de línguas estrangeiras, experiência internacional e desafios confrontados pelo viajante solitário enriqueciam minha bagagem cultural. De volta ao Brasil, estava pronto e decidido a retomar meus estudos de economia, desta vez com o intuito de privilegiar o conteúdo de minhas leituras.

Os três últimos anos de meu curso de graduação evoluíram de forma surpreendente. O gosto pela matéria assumia proporções enormes e, já no último ano, arriscava incluir o termo vocação em meus discursos. A carreira diplomática parecia cada vez mais um sonho de criança, tendo as informações obtidas sobre a profissão ao longo dos últimos anos revelado um quotidiano árduo e não tão fascinante como eu imaginara. Àquela altura, a opção pela vida acadêmica era natural. A vontade de aprofundar-me nos temas econômicos, a identificação com a pesquisa revelada depois de desenvolver um projeto individual como bolsista do CNPq e, mais tarde, passar pela fascinante experiência de escrever a monografia de conclusão de curso, e, por que não, a experiência familiar bem sucedida contribuíram decisivamente para definir meus próximos passos.

Uma semana após a cerimônia de colação de grau, estava embarcando para os Estados Unidos. Fora aceito no Programa de Ph.D. do Departamento de Economia da Universidade de Illinois, onde iniciaria meus estudos com bolsa da própria instituição. O Professor Werner Baer foi o grande responsável por meu ingresso imediato na pós-graduação e, durante os quatro anos que passei em Champaign-Urbana, acompanhou com dedicação e interesse a minha formação. Se por um lado não apresentava maturidade intelectual, por outro estava livre dos vícios e preconceitos da vida acadêmica, o que mais tarde pude perceber ter sido de grande valia para minha formação. Aos vinte e dois anos, estava no lugar certo na hora certa. Hoje, tendo tido a oportunidade de conhecer de perto cursos de pós-graduação em economia em outras universidades nos Estados Unidos, Europa e Austrália, minha avaliação do programa de Illinois é altamente positiva.

Já no segundo semestre do curso, comecei a trabalhar como Research Assistant do Professor Geoffrey Hewings, que acompanhou de perto minha dissertação de mestrado e orientou-me a tese de doutorado. Durante os quatro anos que passei sob sua supervisão no Regional Economics Applications Laboratory, aprendi alguns segredos da vida acadêmica, para muitos revelados apenas em estágios mais avançados da carreira, que me ajudaram a percorrer o caminho do doutorado com muitas satisfações e poucas frustrações. Sempre com a orientação presente e dedicada do Professor Hewings, pude desenvolver um programa de estudos diversificado e calcado em uma sólida base de pesquisa. Ao defender a tese, já contava com doze trabalhos publicados.

Minha preocupação ao longo do curso de doutorado foi evitar o excesso de especialização e aproveitar ao máximo as facilidades apresentadas pelo Departamento de Economia e pela Universidade em geral, desde a infra-estrutura até os contatos acadêmicos. Contudo, reconhecia também a importância de integrar-me a um grupo de pesquisadores para que pudesse projetar meu trabalho internacionalmente. Encontrei o meu nicho na Regional Science Association International (RSAI), que congrega cientistas voltados para estudos de problemas regionais e urbanos. Minha identificação com a Associação foi imediata. Introduzido à comunidade científica por meu orientador, entusiasmado com os primeiros resultados de minhas pesquisas, sentia-me confortável naquele grupo e, depois de alguns encontros, já circulava com identidade própria.

Nesse sentido, o acaso deu-me um pequeno empurrão. Em minha segunda participação em encontros da RSAI, em novembro de 1997, tive a honra de ter o Professor Walter Isard em minha audiência. Interessado em meu trabalho, aproximou-se após minha apresentação fazendo-me uma série de perguntas e sugestões. A partir de então, nossos contatos começaram a acontecer com certa freqüência, havendo intensa troca de informações. No encontro seguinte, sugeriu-me que submetesse minha dissertação, já defendida, para publicação no formato de livro. Antes de nos despedirmos, contudo, escreveu-me uma dedicatória em seu recém lançado manual de economia regional, no qual um de meus trabalhos era citado como “a major step forward” na área de modelagem inter-regional, envaidecendo-me.

Quando terminei o doutorado, tive a oportunidade de passar um ano desenvolvendo um projeto de pós-doutorado na Universidade de Oxford. Meu projeto consistia no desenvolvimento de subprodutos de minha dissertação. Idéias de pesquisa deixadas de lado no decorrer do meu doutorado por restrição de tempo foram retomadas e desenvolvidas. Durante aquele ano, pude circular bastante, apresentando trabalhos em vários congressos e seminários na Inglaterra, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Portugal, Alemanha, Áustria e Estados Unidos. Em algumas oportunidades, tendo sido especialmente convidado para proferir palestras e dar aulas teóricas. Esta experiência deu-me a agradável sensação de continuidade. Defender a tese de doutorado não significava o término de uma fase, mas sim um passo a mais em direção a um projeto acadêmico.

Hoje, em busca da maturidade intelectual, encontro-me, como há dez anos, ainda seduzido pelo poder do saber. Entretanto, sinto-me menos angustiado ao entrar em uma biblioteca e deparar-me com as possibilidades sem limites do conhecimento potencial. Aprendera que o processo de formação consistia na filtragem de informações.


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