Entrevista com a Professora Drª. Tamara Maria Gomes.

Vista parcial da Plenária Geral da ONU, em discussão dos ODS. (Foto do arquivo pessoal da Profa. Tamara Gomes)

Texto escrito por Mariana Zanarotti Shimako e Tauane Baitz, alunas de graduação de Engenharia de Biossistemas em FZEA-USP, orientadas pelo Prof. Dr. Fabrício Rossi dentro do Programa Unificado de Bolsas da USP.

Professora Doutora Tamara Maria Gomes (http://www.fzea.usp.br/?page_id=3416)

A Professora Drª. Tamara Maria Gomes, formada em Engenharia Agronômica, UNESP, atualmente professora na USP (Universidade de São Paulo)-FZEA (Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos)  esteve presente no High Level Political Forum da ONU (HLPF) 2018 e nos contou um pouco da sua experiência de participar do fórum. A Profa. é assessora da Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) e contou, um pouco do que é a SGA.

O HLPF ocorreu entre os dias 9 e 18 de julho de 2018 e teve como tema “Transformação para sociedades sustentáveis e resilientes”, além do acompanhamento e revisão da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Portal Biossistemas: O que é a SGA e quais são seus objetivos?

Profª Tamara: A SGA é uma Superintendência de Gestão Ambiental foi criada em 2012, e é um segmento dentro da Reitoria que trata das questões ambientais da USP. A superintendência é composta por uma supertindentende, nesse caso é a Profª Patrícia Iglecias, e seus assessores técnicos que a auxiliam na parte técnica da área ambiental da Reitoria. Trabalha com ações relacionadas com a gestão ambiental e ações “regulamentadoras” nas questões das áreas ecológicas dentro das áreas da USP. Desde a fundação ela vem trabalhando com o desenvolvimento de uma política ambiental para a USP, e em Janeiro de 2018 foi publicada a Resolução que trata dessa política que foi elaborada por técnicos da área dentro da Universidade, com a colaboração de Docentes, servidores técnicos administrativos e alunos da graduação e pós-graduação. Essa política foi dividida em várias temáticas que estão relacionadas com as questões socioambientais, por exemplo ocupação territorial, pensando em como ordenar a ocupação, no caso da FZEA que é uma fazenda mas ao mesmo tempo tem que ter toda infraestrutura de prédios para atender o público universitário. São no total 11 temáticas, uma delas é a educação ambiental uma temática transversal que “conversa” com todas as outras.

Agora estamos no processo de implantação dessas políticas nos Campi, como cada Campus tem suas especificidades, portanto é implantada através de um Plano Diretor Socioambiental.

A SGA tem um orçamento anual que é utilizado nas questões de gestão ambiental nos diferentes Campi. Em 2013 foi criada a resolução que coloca áreas da USP como reservas ecológicas, no Campus Fernando Costa tem cerca de 38% de sua área declarada como reserva, essas áreas tem um direcionamento específico do orçamento.

Outro trabalho que a SGA vem trabalhando é a internacionalização da Universidade na questão de sustentabilidade de Campus, no Mundo há várias redes que medem a sustentabilidade dentro dos Campi universitários. A USP está atualmente em 28º no Ranking da GreenMetric.

Portal Biossistemas: Qual seu papel na SGA como assessora?

Profª Tamara: O assessor faz a parte de assessoramento técnico, de acordo com as demandas, em especial eu tenho o trabalho mais dedicado ao Campus de Pirassununga, coordenando a Comissão Técnica de Gestão Ambiental do Campus, que está trabalhando no desenvolvimento do Plano Diretor, e outras questões que vem sendo demandada; assessorando na implantação do Plano do Campus de Bauru, trabalhando na divulgação, internacionalização, e nos projetos pilotos, que são projetos criados pela demanda de algo, como por exemplo o tratamento dos resíduos da suinocultura e para isso devemos implantar um biodigestor e fazer a reutilização desses efluentes, ou seja uma demanda levantada pelo Campus que chega à SGA e os assessores avaliam e acompanham na parte técnica.

Portal Biossistemas: O USP recicla é uma das ações lideradas pela SGA. Quais são os resultados desse projeto na FZEA?

Profª Tamara: O USP Recicla é o programa mais antigo, é um programa permanente e foi criado em 1994, e está sendo reformulado em função da política ambiental. Antigamente, antes da criação da SGA ele era o programa mais importante quando se tratava de educação ambiental, após a criação da SGA e da elaboração da política ambiental o USP Recicla passa a ser uma ferramenta de educação ambiental que temos dentro da USP.

O projeto “Vamos de bike” no Campus de Pirassununga é um outro projeto piloto muito bem sucedido, que está dentro da questão de mobilidade e é um modelo para toda a USP e que tem a tendência de ser replicado para outros Campi da USP, e estamos inscritos em um prêmio do ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) com esse projeto.

Portal Biossistemas: Recentemente a professora participou do High Level Political Forum da ONU, você já havia participado de outra edição do evento, ou de algum fórum desse porte?

Profª Tamara: Primeiramente vou explicar como eu fui “parar” nesse Fórum. Além da SGA, foi criado dentro da USP, um Escritório Regional do Programa de Cidades do Pacto Global da ONU representando a Agenda 20/30, que é a agenda da ONU para implantação dos objetivos de desenvolvimento sustentável que são os ODS. Com esse Escritório, que também é coordenado pela Profª Patrícia Iglecias temos participado dessas ações. A Agenda foi criada em 2015 para ser cumprida até o ano de 2030, a maioria dos países do Mundo assinaram essa Agenda como comprometimento a esses ODS, que são divididos em 17 ODS, por exemplo o ODS 6 que é Água Limpa e Saneamento. São Objetivos que podemos separar por importância ambiental, social e, que vão se mesclando com o tempo, que de certa maneira faz com que eles se conectem. O Escritório foi trazido para a USP com o objetivo de levar a Universidade na participação da implantação da Agenda, que vem de “encontro” com a política ambiental da USP.

Os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU (ODS) (https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/).
Apresentação da USP, pela Professora Patrícia Iglecias, no SDG Learning Worhshop. (Foto do arquivo pessoal da Profa. Tamara Gomes)

Então esse Escritório trabalha nesse sentido de formação de recursos humanos e parcerias com a sociedade civil com os municípios para a implantação da Agenda, a função da USP nesse Escritório é como por exemplo conseguir financiamento para projetos, bolsas de graduação, pós-graduação, pós-doutorado, colocando o recurso humano em contato com esses projetos.

Vista parcial da Plenária Geral da ONU, em discussão dos ODS. (Foto do arquivo pessoal da Profa. Tamara Gomes)

Um dos projetos que já foi assinado é a regularização fundiária da Represa Billings que faz divisa com vários municípios da grande São Paulo é um grande reservatório de água para aquela região, e tem uma importância muito grande, mas ao mesmo tempo sofreu um impacto por sua ocupação, olharmos uma imagem área vemos um impacto muito grande, um local que seria de preservação permanente, sendo poluída. Essa água precisa de um processo de despoluição e ao mesmo tempo tem a questão social, o Escritório quando assina um projeto viabiliza a interlocução entre empresa privada e município e, traz conhecimento científico e tecnológico para ajudar na resolução dos problemas, fornece mão de obra e ao mesmo tempo forma recursos humanos, e é assim que tem participado nessas questões da Agenda.

Vista parcial da Plenária Geral da ONU, em discussão dos ODS. (Foto do arquivo pessoal da Profa. Tamara Gomes)

É a primeira vez que participo de um evento como esse e nesse caso era um evento que ia discutir o andamento da Agenda, que foi titulado como de alto nível político de discussão da Agenda e dos ODS. Tive essa oportunidade de acompanhar a Profª Patrícia, junto com a Luisa, estagiária da SGA. Fomos como a Delegação brasileira, então tínhamos acesso à todas plenárias e, participamos com a intenção de conhecer e ver em que situação está o desenvolvimento da Agenda, trazer parcerias para a Universidade e apresentar um pouco do que estávamos trabalhando. O evento tinha uma plenária geral onde cada país tem seu representante, no caso do Brasil era um representante da Agência Nacional das Águas, nessa plenária haviam debatedores a respeito dos ODS, sempre havia a apresentação dos dados estatísticos por uma pessoa da ONU e na sequência eram convidadas 4-5 pessoas que apresentavam sobre experiências sobre ao ODS que estava sendo discutido. Finalizada essa etapa os países se inscreviam e tinham um momento de fala para fazer um questionamento, cada dia era discutido um ODS. Paralela à sessão principal haviam outras com assuntos mais restritos, um deles foi a implantação dos ODS nas universidades, nessa sessão participamos apresentando nossos trabalhos.

Apresentação da USP, pela Professora Patrícia Iglecias, no SDG Learning Worhshop. (Foto do arquivo pessoal da Profa. Tamara Gomes)

Tivemos a oportunidade de apresentar o Escritório e as principais atividades que estamos fazendo com enfoque na questão do projeto da represa Billings. Hoje nosso escritório já assinou com 23 municípios do Brasil, na intensão do desenvolvimento dos 17 ODS, sendo 11 que falam de cidades e comunidades sustentáveis. Nossa apresentação foi muito interessante porque levamos um caso real em que a Universidade está tendo a oportunidade de trabalhar porque fomos bem objetivos e focados nas parcerias, importantes para fazer essa interlocução.

Foi uma experiência muito interessante estar lá na ONU, tem muita energia por estarem várias delegações participando, tem um viés político ao mesmo tempo que deixam nós técnicos preocupados por que vemos que muitas das coisas se perdem por interesses políticos, poderia ser um trabalho mais científico, tecnológico e se perde essa oportunidade por estar fazendo política ao mesmo tempo.

Portal Biossistemas: Algo chamou a atenção e pode ser aplicado aqui na USP?

Profª Tamara: Aplicado aqui na USP é essa questão, da gente fazer essas parcerias, tentar levar o recurso humano, trazer linhas de investimento para projetos de pesquisa; esse fórum dá a representação disso, da gente poder fazer essas alianças, parcerias, entender o que a empresa privada precisa, ela as vezes não tem a tecnologia para se desenvolver, tem que comprar de fora. Então a universidade entra exatamente nessas parcerias, poder fazer esse link entre município, governo, empresa privada, e terceiro setor, então tem muita coisa que a gente pode através das parcerias dentro da USP fomentar dentro da universidade.

Portal Biossistemas: Para você as questões de gestão ambiental possuem uma relação direta com a Engenharia de Biossistemas?

Profª Tamara: Totalmente, eu sempre digo isso desde o primeiro dia de aula, a gente tem que fazer sistemas sustentáveis e, não tem sentido nenhum os Engenheiros de Biossistemas fazerem qualquer técnica, executarem ou fazer qualquer projeto sem olhar a sustentabilidade e o uso dos recursos naturais que são utilizados para elaboração e para implementação dos sistemas dentro do “Bio”, tem que ser sustentável. Quando a gente pensa em energia, em água e na questão dos gases de efeito estufa, o Engenheiro vai tratar, vai propor um projeto para tratamento de resíduos, não vai só olhar para o tratamento de resíduo, gerando um outro resíduo, tem que olhar, mais uma vez de forma circular, o aproveitamento de tudo aquilo, então a cadeia toda precisa ser beneficiada, tem que ser pensada de uma forma sustentável, não podemos inventar nada sem pensar de onde vem o recurso natural, e para onde vai o que sobrar… então não tem como falar de Engenharia de Biossistemas dissociando dessa questão da sustentabilidade.

Portal Biossistemas: O que um Engenheiro de Biossistemas pode contribuir para melhorar as questões de gestão ambiental?

Profª Tamara: É pensar em todas as fases do processo tentando fazer a utilização do recurso natural de maneira mais eficiente possível. Eu gosto de uma relação de penar que tudo tem custo, então quando você vai pensar em um processo produtivo tem que pensar que usou água, usou energia e usou insumo, então tudo tem custo, quando é feito todo o processo tem um custo também da transformação e da manufatura das matérias primas. Quando termina o processo gera um resíduo que também tem custo, custo do que?  Custo de ter utilizado de maneira inadequada, quanto mais inadequado eu utilizo aquele recurso, em quantidade, em processos e etc… é gerado no final algo que tem custo desde o início, custa para encaminhar para um aterro, para um rejeito, custou também o transporte da matéria prima, então precisamos olhar o processo de uma forma inteira e tentar visualizar como Engenheiro de Biossistemas pode melhorar todo esse processo, e isso pode ser feito com gestão de informação, com instrumentação, com melhorias dentro das tecnologias do processo, no cultivo mais sustentável. É uma carreira linda, mas precisa ser olhada desta maneira, o grande futuro da Engenharia de Biossistemas está dentro de pensar e olhar dessa forma integrada com a sustentabilidade, e quando eu falo sustentabilidade eu não falo só da ambiental, é também econômica e social das pessoas que estão envolvidas em todos esses processos.

Leia mais em:

  • https://sustainabledevelopment.un.org/hlpf