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Coleção Inventário DEOPS

SHINDÔ-RENMEI TERRORISMO E REPRESSÃO

Autor: Rogério Dezem
Editora: Arquivos do Estado/Imprensa Oficial
ISBN:
Ano: 2000

Prefácio:

Rogério Dezem é um jovem pesquisador que, sob a orientação competente da Profª. Drª. Maria Luiza Tucci Carneiro e, na condição de bolsista de Iniciação Cientí­fica da FAPESP, realizou um inventário muito importante sobre a Shindô-Renmei nos arquivos do DEOPS de São Paulo.

Neste trabalho de investigação preliminar, o autor não pretende reconstruir a história da Shindá´-Renmei (Liga do Caminho dos Súditos), mas oferecer subsi­dios para futuras pesquisas sobre a citada organização que almejava propugnar pelos valores da tradição comunitária japonesa. Dezem adverte que a maior parte dos documentos consultados e analisados reflete a visão da polícia política do Estado de São Paulo sobre a Liga do Caminho dos Sáditos.

No nosso entendimento, conforme revelam os inúmeros documentos apresentados por Tomoo Handa, Tyoko Mita, Rogério Dezem e outros, a Shindá´-Renmei traduz o sentimento ensandecido e compulsivo de uma paixão patriótica sem limites. Assim, enquanto uma organização com fortes traços de uma comunidade átnica, prescreveu um código de conduta para todos os súditos japoneses que se encontravam no Brasil, tendo por primazia a figura do Imperador. Cremos que essa Liga encontrou um terreno fúrtil entre os imigrantes japoneses que já haviam se estabelecido no Brasil há alguns anos, onde os valores tradicionais da cultura japonesa, sob o impacto da sociedade inclusiva, começaram a sofrer um processo de mudança social.

É por isso que, para os integrantes da Shindá´-Renmei, havia, na comunidade japonesa do Brasil, "homens de projeção" que, ao dirigir e conduzir seus compatriotas, não propalavam os ideais da tradição japonesa, maculando-a. é nesse sentido que esses "homens de projeção" ao liderar e orientar seus compatriotas - que manipulando palavras e atos os mais ultrajantes imaginá¡veis, se fizeram instrumentos de uma tendencia reacioná¡ria contra a construção de um mundo de novos valores, prestes a ser consumado, neste momento, pelo povo japonês (...). E se um único indiví­duo indigno houver, que se enquadre na descrição acima - aquele que tiver esquecido das obrigações pertinentes a tradição de sangue da raça japonesa e estiver maculando os frutos por ela até hoje obtidos - como vamos nós, os japoneses residentes no Brasil, poder encarar de frente a nossa pátria? Senhores integrantes desta Liga, rogamos que auxiliem o Sr. Kikkawa, nosso presidente, a realizar uma completa operação de limpeza, varrendo todas as impurezas advindas dos nossos compatriotas residentes no Brasil para, com isto, podermos tomar parte na realização deste grande empreendimento sem precedentes a que se unem, em uníssono, todas as almas japonesas.

Esse excerto traduz alguns elementos básicos que compõem uma comunidade étnica: nutrir sentimento de fidelidade aos valores ligados a tradição de sangue da raça japonesa aderidos aos grandes empreendimentos sem precedentes que unem, "em uní­ssono, todas as almas japonesas", formando um "nós, os japoneses". é por isso que os princípios da Shindí´-Renmei; publicados em A história da colônia nos dez anos, do pís-guerra declaram:

É preciso que se compenetre no espí­rito do hakkí´-ichiu - a unificação do mundo em uma só famí­lia - que tem por aspiração última trazer a paz eterna ao mundo e prosperidade para toda humanidade. Para tanto, é preciso que a Liga aja com franqueza e dignidade e sempre com esse elevado espí­rito presente em sua mente, não importa onde e quando. Para isso, é preciso, ainda, que seus membros acumulem cultura e saber, não se esquecendo, hipôtese alguma, de sempre se apoiar no espí­rito japonês.

Adiante, o documento afirma: é preciso que se colabore na construção do Grande Japão. Para isso, não é necessá¡rio que se regresse para lá. Os princí­pios da Shindí´-Renmei prescrevem códigos de conduta pregando uma extrema lealdade, o cultivo da cultura e do saber tradicional, visando construir a "grande comunidade nacional". Desse modo, é necessá¡rio que se tenha lealdade para com a "comunidade polí­tica" que é também uma "comunidade de lí­ngua". Ela, como nação e como poder polí­tico, forma, na medida em que se almeja atingir uma homogeneidade, uma espécie particular de comoção que, num grupo humano unido por uma comunidade de lí­ngua, de confissão de costumes ou de destino, se vincula a idéia da organização de uma unidade polí­tica poderosa própria, já existente ou ainda aspirada. O que há na Shindí´-Renmei é uma radicalização extrema do "nós", no sentido de compartilhamento dos valores comunitá¡rios, não admitindo a diferença. Os membros da Shinda´-Renmei, alguns deles militares, congelaram a história dentro dos valores tradicionais japoneses construí­dos poruma visão ensandecida, recriando no Brasil, a sua maneira, os códigos do caminho do súdito em relação ao Grande Império do Sol Nascente, representado pelo Imperador Hiroito. Contudo, a história não constrói uma trajetéria retilí­nea, conforme querem alguns, dentro de uma visão puramente ideal, irreal, obcecada e doentia, mas uma trajetéria que se pauta por uma multiplicidade de condições históricas reais, produzidas pelo processo de diferenciação social que possibilitam a construção de múltiplas representações que se debatem e que se enfrentam.

Os imigrantes japoneses, ao se moverem do Oriente para o Ocidente, em condições e situações culturais, sociais e económico-políticas diversas, também sofreram um processo de mutação e mudança em relação aos valores por eles trazidos, que eram alimentados pela idéia de imigração temporá¡ria e de curta permanencia no Brasil, para a acumulação rápida de capital, que duraria alguns meses ou poucos anos. Pode-se alimentar os valores e as tradições relativos a cultura japonesa enquanto perdurar o sonho do retorno breve. O Brasil seria apenas um local de trabalho e um mercado de acumulação de capital. Realizado esse empreendimento, eles voltariam a pátria venerada a qual dedicavam toda a sua lealdade, fidelidade e honraria social. Mas, para os que perceberam que não havia mais o caminho de retorno, desapareceu também o caminho do súdito. Para eles, o novo futuro não estava mais no Oriente, mas no Ocidente, ou seja, no Brasil. Teriam de construir um lugar no Brasil, articulando relações sociais da cultura de origem com a cultura nacional brasileira, produzindo inclusive a partir dessa sociabilidade diferenciada, os novos neo-brasileiros. Esses formaram o grupo daqueles que tinham consciência do que havia acontecido na II Grande Guerra: a derrota dos paí­ses do Eixo, incluindo, obviamente, o Japão. Aqueles que congelaram o processo histórico, ao perderem toda referencia radicalmente centrada na tresloucada idéia de preservação dos valores da tradição nipónica foram roí­dos, triturados e aprisionados pela adoção patética daqueles valores ultrapassados que perderam o seu lugar na história. Eles foram considerados, no próprio Japão, quando para lá retornaram, ignorantes, rústicos, e "caricatura de um japonês desatualizado". é por isso que Tomoo Handa diz, com extrema sensibilidade:

A tragédia ocorrida na sociedade dos imigrantes radicados no Brasil não poderia - jamais - ser compreendida de forma alguma no Japão, nem mesmo pelos jornalistas, ainda que estes estivessem sempre na vanguarda dos tempos. O sentimento dos imigrantes que na própria terra natal foram chamados de ignorantes, desprezados por serem desatualizados e que se envolveram em tramas devida ao único pecado que cometeram - o de serem súditos leais e submissos e de acreditarem incondicio-nalmente no paí­s de sua origem - não poderia ser compreendido por ninguém, a não ser por aqueles que conheceram a história da imigração e que sofreram as mesmas privações num país estrangeiro. Essa aventura da Shindí´-Renmei, na verdade, é uma parte do lado trágico da história da imigração japonesa no Brasil. Ela deixou marcas profundas entre os imigrantes japoneses, necessitando ser desvendada e conhecida em profundidade. é o que propõe Rogério Dezem, numa pesquisa futura visando a realização do mestrado.

Aguardamos, com ansiedade, a contribuição que traria tona esse drama trágico da imigração japonesa no Brasil.

Prof. Dr. Sedi Hirano
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