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Coleção Histórias da Repressão e da Resistência

IMIGRAÇÃO E REVOLUÇÃO. LITUANOS, POLONESES E RUSSOS SOB VIGILÂNCIA DO DEOPS

Autor: Erick Reis Godliauskas Zen
Editora: Edusp
ISBN: 978-85-314-1224-0
Ano: 2010

Prefácio:

Durante muitos anos, os estudos migratórios privilegiaram as condições de inserção no país de adoção como determinante das trajetórias de vida e das identidades dos imigrantes. Pautados pelo paradigma da assimilação, tais estudos enfatizavam a importância do local de destino – fosse ele o Brasil, a Argentina ou os Estados Unidos - encarando-o como uma engrenagem diabólica capaz de plasmar e digerir quaisquer orientações culturais trazidas pelos imigrantes, como uma espécie de máquina antropofágica disposta a anular diferenças pregressas no interior de um mesmo grupo e mesmo entre grupos. Tudo se passava como se o imigrante, ao desembarcar na nova terra, zerasse sua bagagem e experiências anteriores e iniciasse uma nova vida. Felizmente, tal orientação nos estudos migratórios vem perdendo terreno em prol de uma história dos grupos migratórios mais colada à realidade, mais equilibrada, que escrutiniza as tensões e negociações permanentes entre as diversas experiências trazidas da origem e as possibilidades que se oferecem na nova sociedade.

A presente obra se inscreve nessa nova perspectiva, ao demonstrar, com fartas evidências, como as identidades de lituanos, russos e poloneses em São Paulo foram dramaticamente pautadas pelos acontecimentos políticos na terra de origem: a decadência e queda do império russo, a revolução bolchevique e os desdobramentos impostos por duas guerras mundiais. Para cumprir tal tarefa, o autor – ele próprio de ascendência lituana – se vale da documentação coligida pelo DEOPS / SP, depositada junto ao Arquivo do Estado. Por meio dessa base documental (que, diga-se de passagem, tem rendido estudos valiosos sob a orientação da Profa. Maria Luiza Tucci Carneiro), Erick reconstrói com precisão os perfis da militância política dessa(s) origem(ns), de suas ações e organizações, enfatizando o modo como diferentes grupos, embalados por afinidades ideológicas não apenas distintas, mas antagônicas, se debateram e, sobretudo, se relacionaram com um Estado autoritário, xenófobo e intolerante, construído ao longo das décadas de 1930 e 1940, que não hesitava em lançar mão da violência policial para fazer cumprir suas orientações.

Sob tal cenário, o autor retraça de modo meticuloso como diferentes orientações políticas – dentre as quais as mais vibrantes colocaram em confronto comunistas e anticomunistas – estruturaram, em uma São Paulo cosmopolita, diferentes redes de solidariedade e cooperação, pré-formatadas por afinidades ideológicas, pautando uma agenda de tensões, desconfianças e conflitos permanentes no interior de cada uma dessas “comunidades”, se assim for possível a elas se referir.

Nesse processo, Erick mostra também como o Estado capitaneado por Vargas se valeu da imagem do perigo estrangeiro e do mito da conspiração para robustecer um aparelho de vigilância e repressão sobre imigrantes suspeitos, sobretudo no meio operário, vítimas de reiteradas expulsões arbitrárias. À expressão numérica relativamente modesta de lituanos, russos e poloneses entre os imigrantes que vieram a São Paulo, contrapõe-se o significativo montante dos expulsos dessas nacionalidades sob o aparelho policial varguista, sobretudo nos anos de intensa repressão que antecederam o Estado Novo, o que só testemunha o vigor da polarização ideológica no interior de tais grupos. O que mais impressiona é que no embate entre tais concepções ideológicas, que opuseram – grosso modo - anticomunistas, nacionalistas e católicos de um lado, e comunistas de outro, os primeiros não hesitaram em tecer alianças com a polícia política do estado, por meio da montagem de ampla rede de infiltrados e colaboracionistas. Poucos anos depois, a campanha de nacionalização empreendida durante o Estado Novo revelaria o alto custo de tal estratégia: o fechamento sistemático das associações, da imprensa e das escolas étnicas ocorreu sem maiores resistências.

A obra aqui apresentada constitui uma contribuição muito expressiva sobre as características da ação policial em relação a estrangeiros sob um regime violento e opressor. De outro ponto de vista, ela igualmente lança luz sobre como dinâmicas políticas próprias nos países de origem condicionaram clivagens políticas que estruturaram e polarizaram as comunidades de imigrantes em países de acolhimento. Nesse sentido, ela pode ser tomada como modelar para outros estudos que analisem as clivagens políticas entre republicanos e monarquistas, fascistas e antifascistas, franquistas e antifranquistas, salazaristas e antisalazaristas etc. - apenas para me referir a comunidades de imigrantes de grande expressão numérica em São Paulo.

Oswaldo Truzzi

Professor associado da Universidade Federal de São Carlos, onde coordena o grupo de pesquisa em História Social da Imigraçãoe do Trabalho.

Síntese:

Este livro é o segundo título da Coleção História das Migrações, organizada por Maria Luiza Tucci Carneiro e Federico Croci, uma das séries de publicações do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação do Depto de História da FFLCH-USP. A obra coloca em cena um grupo especial de imigrantes:lituanos, poloneses e russos. Distintos por suas atividades políticas e culturais, eles estiveram sob a vigilância da Polícia Política, o Deops do Estado de São Paulo, entre 1924 e 1950. Fichados como “subversivos” da ordem” distinguiam-se por suas ideologias cujas diferenças instigavam conflitos no interior das suas comunidades. Tratados como imigrantes indesejáveis, foram perseguidos, presos e até mesmo expulsos do Brasil, por não corresponderem ao ideário do Estado brasileiro, autoritário e nacionalista na sua essência. Através dos documentos produzidos pelo Deops, o autor reconstitui a lógica policial movida pela desconfiança e os atos da repressão institucionalizada. A grande quantidade de impressos em idiomas lituano, polonês e russo anexados aos prontuários policiais permitiram a reconstituição de uma rede de relações cuja trama comprova os contatos entre várias comunidades radicadas no Brasil e no exterior.

Através da infiltração de agentes do Deops e da cooptação de colaboracionistas junto aos imigrantes, as autoridades da repressão eram movidas pela idéia de que os lituanos, poloneses e russos eram “revolucionários por tradição”. Ao analisar o discurso dos agentes da ordem, o autor recupera as marcas da intolerância étnica, religiosa e política sustentadas por um Estado que defendia a homogeneização de idéias e atitudes em nome da segurança nacional. A proibição de falar o idioma de origem em público, o fechamento de escolas e de associações culturais, o confisco de documentos pessoais, a prisão e o ato de expulsão de estrangeiros serviam como medidas profiláticas para inibir as proposta ditas “revolucionárias” e garantir o controle social. No conjunto, o cruzamento das fontes policiais com os documentos confiscados dos cidadãos sob suspeita permite o resgate da história e da memória dos imigrantes no Brasil sob o viés da repressão e da resistência política.


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