Proin - Projeto Integrado do Arquivo Público do Estado e Universidade de São Paulo
Proin > Publicações > Inventário DEOPS

Coleção Inventário DEOPS

O GERME DA REVOLUÇÃO. A COMUNIDADE LITUANA SOB VIGILÂNCIA DO DEOPS (1924-1950)

Autor: Erick Reis Godliauskas Zen
Editora: Arquivo do Estado e Imprensa Oficial
ISBN: 85-98292-83-4
Ano: 2006

Prefácio:

A publicação desta série INVENTÁRIO DEOPS tem trazido à tona um tempo ominoso, uma realidade que pesou sobre todos nós durante muitos anos e cujas marcas permanecem indeléveis. Temos aí um material precioso, mas que evidentemente constitui um passo inicial para outros estudos, um acervo indispensável para quem queira refletir sobre aquele período. (Como pesquisa no mesmo sentido, mas com materiais diferentes desses inventários, tivemos recentemente um livro valioso: Em guarda contra o perigo vermelho – O anticomunismo no Brasil. 1917-1964 de Rodrigo Patto Sá Motta, São Paulo, Perspectiva, 2002).

No entanto, a par desta importância como documento, temos aí um vasto campo para uma abordagem de outra ordem, há páginas de vida que se desprendem desses prontuários, os burocratas da polícia captaram inconscientemente traços fundos de uma realidade humana que ficou à espera de quem possa expressá-la.

Neste sentido, o livro sobre a atuação política dos lituanos em São Paulo em 1924-1950 representa uma contribuição importante.

Ficaram fora do campo explorado algumas personalidades que, nascidas na Lituânia, já foram objeto de outros volumes. É o caso certamente de Lasar Segall, que aparece no livro de Taciana Wiszovski, Bolchevismo e Judaísmo, da mesma coleção. Segall foi vigiado entre 1943 e 1947 e em seu dossiê se aponta que ele propagava o “credo vermelho” por meio de sua “arte degenerada”. Por onde se constata que, em plena guerra do Brasil contra a Alemanha nazista e mesmo depois da vitória dos Aliados, os chavões hitleristas ainda tinham pleno curso na Delegacia Estadual de Ordem Política e Social (outros dados neste sentido podem ser encontrados no livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O veneno da serpente, São Paulo, Perspectiva, 2003).

Sim, o Brasil se libertara do Estado Novo, mas a mentalidade fascistóide, tão freqüente mesmo antes de 1937, não desaparecera com a reinstauração do sistema republicano. Assim, neste livro de Erick Godliauskas Zen, informa-se que, em 1947, aplicava-se uma lei de 1938, segundo a qual devia ser condenado de 2 a 4 anos de prisão o estrangeiro que, expulso devido a atividade política, retornasse ao país.

Aliás, para exemplificar a persistência, por alguns anos, das normas vigentes no Estado Novo, posso relatar um caso de minha experiência pessoal. Fui contratado em 1948 como engenheiro-agrônomo do Ministério da Agricultura, mas, para tomar posse do cargo, tive de apresentar o que se denominava então “Atestado de Ideologia”. Depois de solicitá-lo, precisei esperar algumas semanas, pois, com certeza, os “órgãos competentes” tinham dúvidas sobre a minha eventual periculosidade, tanto mais que em 1938 eu passara por um episódio muito bobo: toda a minha família fora levada pela polícia e interrogada no edifício sinistro da Rua da Relação, no Rio de Janeiro, devido a suspeitas de que meu cunhado estivesse implicado no “crime” de facilitar a entrada no país de judeus fugitivos da Alemanha nazista. Pois bem, decorridas aquelas semanas a que me refiri, acabei recebendo um documento de que me envergonha até hoje: o Delegado de Ordem Política e Social atestava, numa fórmula realmente lapidar, que eu não professava nenhuma “ideologia contrária ao regime”.

Recuando mais no tempo, lembro-me de que, em fins da década de 20, depois de uma das investidas policiais contra a União Geral Eslava, na qual os lituanos tinham participação importante, os jornais estampavam retratos dos presos e fotos do material apreendido, e isto provocou comentários indignados, inclusive em minha família, como se aquilo documentasse um ato de traição contra o país que nos acolhera. Fiquei então perplexo, sem compreender o que podia haver de criminoso em publicar jornais e distribuir folhetos. E o mais surpreendente era a constatação de que os mesmo adultos referiam-se com muita simpatia aos revolucionários russos de 1905, entre os quais um tio meu, cujo retrato eu via sempre, e no qual ele aparecia no degredo, de barbicha rala, entre as bétulas de um bosque siberiano. Então, os lituanos do jornal eram diferentes! Mas, diferentes em quê? O mingau que havia na cabeça dos adultos haveria de pesar sobre a minha juventude e mocidade.

Estes fatos de um passado recente ligam-se a todo um rosário de situações ignominiosas. Em Cultura ameaçada, de Álvaro Gonçalves Antunes e Valéria Garcia de Oliveira, publicado nesta mesma coleção, há diversas referências a livros perseguidos, inclusive com destruição dos exemplares encontrados. Pois bem, é o caso de se pensar no clima de terror que isto implicava entre a população. Criava-se a desconfiança em relação à palavra escrita. Tudo o que era moderno tornava-se suspeito, sendo a vigilância exercida pelas próprias famílias. “Quem era o amigo que te visitou ontem? Não é alguém que está na ilegalidade? Que livro é este que você tem na estante? Como teve a ousadia de ter aí um livro chamado Contos Soviéticos? Não sabe que eu não posso ter livros assim em minha casa?” Os jovens cresciam num ambiente de pavor diante de uma entidade ameaçadora, onipresente e onisciente, capaz de decifrar até os pensamentos mais secretos. Um jornal carioca afirmava, por volta de dezembro de 1935 (não consigo precisar esta referência), que a literatura russa do século XIX já trazia em si os germes do comunismo, e que seria preciso limitar sua difusão.

Um indivíduo tornava-se suspeito pelo simples fato de ser originário do Leste europeu. Assim, lemos neste livro, num relatório de 1948 do Delegado Chefe da Seção de Expulsandos, Antônio Ribeiro de Andrade: “Quase todos os slavos são comunistas e trabalham em prol de Moscou. Seria mais que oportuno que estes lituanos deixassem o Brasil e fossem viver na Rússia Soviética, onde o regime por que se batem é oficial e está em pleno vigor”. Evidentemente, deixava-se então de lado o fato de haver entre os lituanos muito direitistas declarados, e que após a ocupação da Lituânia pelos soviéticos, durante a Segunda Guerra Mundial, continuavam ligados aos diplomatas lituanos que haviam representado no Brasil o governo deposto pelos russos. Aliás, em outros documentos do DEOPS, inclusive um relatório de 1948, eles aparecem como representantes legítimos de seu país. Os prontuários agora divulgados neste livro nos dão conta de situações humanas patéticas, às vezes quase inacreditáveis. Assim, pelo prontuário de José Derbum se constata que foi denunciado pela própria mulher e preso, mas a suspeita que pesava sobre ele era apenas a de receber jornais, que teria lido e depois queimado. Enfim, mais uma evidência dos absurdos a que se chegava em fins de 1935. É importante que as novas gerações tenham isto em mente, pois nós outros, isto é, os da minha geração, nem nos espantamos com tais fatos, que eram então bem conhecidos. Basta remexer um pouco na memória.

Frustrações amorosas, pendências comerciais, ressentimentos no plano pessoal, podiam então resultar na expulsão de um indivíduo ou de um casal, conforme se constata pelos prontuários agora divulgados. Durante a Segunda Guerra Mundial, criou-se um clima de nacionalismo e desconfiança a tudo que era estrangeiro, a ponto de uma lituana ser presa em 1942 por possuir livros de propaganda religiosa em várias línguas. Depois que alguém era deportado para a Lituânia, as cartas que ele escrevia à família e aos amigos eram abertas e muitas vezes confiscadas, para anexação ao respectivo prontuário. Foi o caso de uma carta patética, enviada por Pedro Willis, expulso do Brasil porque em sua casa foram encontrados um volume de Marx em lituano, outros textos comunistas, quatro retratos de Stálin e um quadro a óleo representando um marinheiro, um soldado e um operário. Testemunhas intimadas a depor afirmaram que ele não era comunista e deram crédito a suas palavras, no sentido de que todo aquele material pertencia a um pensionista em sua residência. Mas nada disso adiantou, pois prevaleceu a palavra de um ex-namorado de sua irmã, Helena, que se recusara a casar com ele no religioso

Helena acabou escondendo-se da polícia, mas Pedro foi enviado de volta à Lituânia, embora estivesse com a saúde muito abalada. Em seu país de origem passou privações terríveis, e é comovente a sua nostalgia pelo Brasil, que aparece claramente, apesar do português estropiado de quem fez a tradução do lituano. “Aqui não existe Santa Casa de graça, não há nada”, escreveu ele. Imaginem-se as condições em que vivia na Lituânia, se o nosso serviço gratuito de assistência médica lhe aparecia como uma grande benesse. Separado de seus filhos e dos amigos, a carta é um grito de desespero, mas que se perdeu no vazio, transformada em peça anexada a um prontuário. Estou me antecipando ao texto no livro, mas não consigo deixar de assinalar a importância deste documento, cujo final me parece simplesmente arrasador: “Tenho que acabar porque meu juízo está fraco”. Este livro se refere, ainda, à atuação do BUND, partido socialista fundado por judeus e que atuava no Leste europeu. Realmente, era indispensável referir-se a ele, dada a sua grande importância para o movimento revolucionário naqueles países, mas o autor não se deteve nesse tema, pois os judeus integrados nele e que emigraram para o Brasil acabaram, em sua maioria, incorporando-se a organizações ligadas à colônia judaica. Embora concorde com esta posição do autor, que aliás remete o leitor para a sua fonte de consulta, acho conveniente acrescentar agora umas poucas informações. O BUND, sigla da Aliança ou União Social-Democrata Judaica, foi fundado nos territórios do Leste europeu dominados pela Rússia, em 1897, isto é, cerca de um ano antes da fundação do Partido Social-Democrata Operário Russo (que daria origem ao Partido Comunista da União Soviética). No primeiro congresso deste, os adeptos do BUND ingressaram nele. Mas, desde o início surgiram divergências. Os partidários de Lênin, que depois constituíram a ala bolchevique (isto é, majoritária) do Partido, queriam uma organização centralizada, que representasse os diferentes povos do Império e lutasse pela implantação do socialismo, mas sem fragmentação por nacionalidades. Já os adeptos do BUND pretendiam que o Império se transformasse numa confederação, dentro da qual os judeus do Leste europeu teriam a possibilidade de cultivar suas tradições. Devido a este objetivo político, o BUND acabava chocando-se tanto com os social-democratas russos da linha leninista quanto com os sionistas, que estavam conclamando os judeus a lutar por um Estado a ser constituído na Palestina.

No Segundo Congresso do Partido Social-Democrata russo, em 1903, o BUND se separou deste, mas foi readmitido no Quarto Congresso, em 1906, para ser novamente desligado em 1912. Depois da vitória da Revolução Russa em 1917, a situação do BUND tornou-se muito delicada e seus partidários decidiram-se pela auto-liquidação em 1921, quando a maioria resolveu incorporar-se aos bolcheviques, enquanto os demais se atinham a suas antigas posições.

Todavia, os ex-membros do BUND, mesmo os que aderiram à Revolução triunfante, continuaram sob suspeita de nacionalismo e muitos acabaram fuzilados durante os expurgos do regime stalinista. Para se avaliar o clima que se criou em torno do BUND, basta consultar o dicionário enciclopédico em três volumes, publicado em Moscou em 1953, pela Editora Estatal Científica “Grande Enciclopédia Soviética”, onde ele é definido como um “partido oportunista, pequeno-burguês e nacionalista”.

Esta história dramática marcou toda a atuação política dos emigrantes judeus provenientes da Lituânia. Mas certamente os lituanos não-judeus passaram por situações análogas. Nos prontuários aparecem publicações em lituano com loas a Stálin e ao sistema soviético. Havia nisso algo semelhante a fervor religioso, as pessoas sofriam e morriam pelo seu ideal, muitas vezes sem se dar conta dos equívocos que havia por trás disso. A brutalidade absurda do mundo capitalista saltava aos olhos e tornava menos evidentes aqueles equívocos. Cabe-nos agora procurar compreender a realidade complexa e contraditória daqueles anos e, sem sombra de dúvida, os materiais agora divulgados constituem um passo importante neste sentido.

Dr. Boris Schnaiderman

Professor de Literatura Russa e Teoria Literária da Universidade de São Paulo

Síntese:

O Germe da Revolução. A Comunidade Lituana sob Vigilância do DEOPS (1924-1950), aborda o processo de repressão à comunidade lituana que, assim como tantos outros grupos estrangeiros radicados no Brasil, foi vigiada por causa de suas idéias e práticas políticas entre 1930-1950. Aborda, ainda, as associações e clubes formados em São Paulo que visavam preservar a identidade de origem diante da política de homogeneização sustentada Estado brasileiro no período.
Digital Industry