{"id":1479,"date":"2022-06-06T12:42:26","date_gmt":"2022-06-06T15:42:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1479"},"modified":"2022-06-06T22:51:14","modified_gmt":"2022-06-07T01:51:14","slug":"da-idade-da-pedra-ao-homem-de-plastico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1479","title":{"rendered":"DA IDADE DA PEDRA AO HOMEM DE PL\u00c1STICO"},"content":{"rendered":"<p>Para os mais jovens, a frase acima provavelmente n\u00e3o os far\u00e1 rememorar nada.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, faz parte da m\u00fasica de abertura de um dos mais longevos programas televisivos do Brasil, a revista semanal eletr\u00f4nica\u00a0Fant\u00e1stico, que a partir de 1973, passou a frequentar os lares brasileiros nas noites de domingo. A vinheta que abria o programa mostrava cenas em um ambiente circense, carnavalesco e on\u00edrico, levando a imaginar um futuro otimista amparado na tecnologia, em um bal\u00e9 embalado pela m\u00fasica:<\/p>\n<blockquote><p>Olhe bem, preste aten\u00e7\u00e3o: nada na m\u00e3o nesta tamb\u00e9m.<br \/>\nN\u00f3s temos m\u00e1gicas para fazer, assim \u00e9 a vida, olhe para ver.<br \/>\nMilhares de sonhos<br \/>\nS\u00e3o para sonhar, miragens que n\u00e3o se podem contar.<br \/>\nNuma fra\u00e7\u00e3o de um segundo, qualquer emo\u00e7\u00e3o agita o mundo.<br \/>\nRiso! Criado por quem \u00e9 mestre.<br \/>\nSexo! Sem ele o mundo n\u00e3o cresce.<br \/>\nGuerra! Para matar e morrer.<br \/>\nAmor! Que ensina a viver.<br \/>\nUm foguete no espa\u00e7o, num mundo infinito,\u00a0provando\u00a0que tudo n\u00e3o passa de um mito.<br \/>\n\u00c9 Fant\u00e1stico!<br \/>\nDa idade da pedra ao homem de pl\u00e1stico, o show da vida!<br \/>\n\u00c9 Fant\u00e1stico!<\/p>\n<p>* (Criado em 1973, teve dire\u00e7\u00e3o de abertura de Augusto Cesar Vannucci, figurinos de Carlos S\u00f6rensen, dire\u00e7\u00e3o musical de Guto Gra\u00e7a Mello, produ\u00e7\u00e3o musical de Aloysio de Oliveira e gravado pela orquestra e coral da Globo. A letra do tema do\u00a0Fant\u00e1stico\u00a0foi escrita pelo pr\u00f3prio Boni (<a href=\"https:\/\/memoriaglobo.globo.com\/jornalismo\/jornalismo-e-telejornais\/fantastico\/noticia\/aberturas.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/memoriaglobo.globo.<wbr \/>com\/jornalismo\/jornalismo-e-<wbr \/>telejornais\/fantastico\/<wbr \/>noticia\/aberturas.ghtml<\/a>).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, a tecnologia, impulsionada especialmente na d\u00e9cada anterior, proporcionou \u201cmilagres\u201d, como as viagens espaciais, o ser humano pisando na Lua, o nascer do mundo cibern\u00e9tico. Todas as novidades do mundo tecnol\u00f3gico tinham, em alguma medida, algum produto de pl\u00e1stico no seu background, pois esse material, barato, acess\u00edvel, resistente, \u201cfant\u00e1stico\u201d, servia na medida para todas as fa\u00e7anhas do mundo moderno, industrial, desde os utens\u00edlios dom\u00e9sticos at\u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o de produtos que serviriam de apoio para grandes inven\u00e7\u00f5es. Apesar da d\u00e9cada de 1960 ter testemunhado transforma\u00e7\u00f5es em diversas \u00e1reas, como cultura, pol\u00edtica, sociologia, economia, tecnologia, que foram aplaudidas por muitos, alguns perceberam que a cobran\u00e7a pela corrida desenfreada do ser moderno (o\u00a0homo plasticus?) em dire\u00e7\u00e3o ao futuro n\u00e3o tardaria a vir. Uma das pioneiras a denunciar os malef\u00edcios para a sa\u00fade causados por um produto aclamado pela Revolu\u00e7\u00e3o Verde \u2013 o agrot\u00f3xico, ainda hoje chamado de defensivo agr\u00edcola no meio agropop, foi a bi\u00f3loga Rachel Carlson. Seu livro cl\u00e1ssico,\u00a0A primavera silenciosa, apontava, com todos os dados que p\u00f4de coletar, como os agrot\u00f3xicos estavam envenenando a popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos alimentos (e hoje, pelo menos no Brasil, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pior!). E mais, seus resqu\u00edcios podiam ser observados inclusive no leite materno.<\/p>\n<p>O paralelo que podemos fazer hoje n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o absurdo, em rela\u00e7\u00e3o ao pl\u00e1stico. (\u201cO pl\u00e1stico vem das resinas derivadas do petr\u00f3leo e pertence ao grupo dos pol\u00edmeros (mol\u00e9culas muito grandes, com caracter\u00edsticas especiais e variadas). Os pl\u00e1sticos s\u00e3o pol\u00edmeros produzidos a partir de processos petroqu\u00edmicos. O PET \u00e9 um deles, e por ser um material inerte, leve, resistente e transparente, passou a ser utilizado na fabrica\u00e7\u00e3o de embalagens de bebidas e alimentos no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Cinco anos depois, cerca de 500 mil toneladas de vasilhames j\u00e1 haviam sido produzidas, somente nos Estados Unidos\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.recicloteca.org.br\/material-reciclavel\/plastico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.recicloteca.org.<wbr \/>br\/material-reciclavel\/<wbr \/>plastico<\/a>).<\/p>\n<p>Cinquenta anos depois, o \u201chomem de pl\u00e1stico\u201d do Fant\u00e1stico, uma alegoria da modernidade, ressurge na beira do cataclismo ambiental, agora de uma forma nada interessante. No Antropoceno, as atividades humanas interferiram e interferem tanto no ciclo natural do planeta, que os efeitos observados s\u00e3o os piores poss\u00edveis. Se as gigantescas ilhas de pl\u00e1stico encontradas no Oceano Pac\u00edfico j\u00e1 configuraram um cen\u00e1rio de horror, al\u00e9m da documenta\u00e7\u00e3o que mostra o est\u00f4mago de animais marinhos \u2013 peixes, tartarugas, aves \u2013 repletos de micro pl\u00e1sticos, agora chegou a nossa vez. Pesquisas recentes, uma de 2020, notaram a presen\u00e7a de part\u00edculas de pl\u00e1stico em pulm\u00f5es humanos, e outra, de 2022, encontraram as micropart\u00edculas de pl\u00e1stico no sangue humano. (<a href=\"https:\/\/noticias.ambientebrasil.com.br\/clipping\/2020\/08\/18\/162180-cientistas-acham-pela-primeira-vez-plastico-em-orgaos-humanos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/noticias.<wbr \/>ambientebrasil.com.br\/<wbr \/>clipping\/2020\/08\/18\/162180-<wbr \/>cientistas-acham-pela-<wbr \/>primeira-vez-plastico-em-<wbr \/>orgaos-humanos.html<\/a>) e, em 2022, no sangue humano (<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2022\/04\/25\/pesquisa-encontra-pela-1a-vez-microparticulas-de-plastico-no-sangue-de-seres-humanos.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/g1.globo.com\/jornal-<wbr \/>nacional\/noticia\/2022\/04\/25\/<wbr \/>pesquisa-encontra-pela-1a-vez-<wbr \/>microparticulas-de-plastico-<wbr \/>no-sangue-de-seres-humanos.<wbr \/>ghtml<\/a>).<\/p>\n<p>O uso do pl\u00e1stico no cotidiano est\u00e1 relacionado, atrav\u00e9s da publicidade, a uma vida livre do trabalho dom\u00e9stico, em que tudo pode ser descartado, ao inv\u00e9s de lavado e reutilizado, uma ideia que esteve muito em voga no per\u00edodo p\u00f3s Segunda Guerra, em que as mulheres foram liberadas para o trabalho fora de casa e n\u00e3o tinham mais tempo para os afazeres dom\u00e9sticos. E hoje, a profus\u00e3o de materiais pl\u00e1sticos na nossa vida \u00e9 imensa e pior, a grande maioria de produtos desse material que consumimos \u00e9 de um \u00fanico uso, como, por exemplo, as garrafinhas ou copos de \u00e1gua que compramos na rua e jogamos fora imediatamente ap\u00f3s o consumo. Nas palavras de Marques, \u201ca Idade do Pl\u00e1stico revelou-se ser, na realidade, a Idade do Lixo\u201d. Luiz Marques. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Unicamp, 2020, p. 206.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 nada de fant\u00e1stico nisso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os mais jovens, a frase acima provavelmente n\u00e3o os far\u00e1 rememorar nada. Por\u00e9m, faz parte da m\u00fasica de abertura de um dos mais longevos programas televisivos do Brasil, a revista semanal eletr\u00f4nica\u00a0Fant\u00e1stico, que a partir de 1973, passou a frequentar os lares brasileiros nas noites de domingo. 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