{"id":1561,"date":"2022-09-07T21:15:56","date_gmt":"2022-09-08T00:15:56","guid":{"rendered":"http:\/\/alterjor.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1561"},"modified":"2022-09-07T21:15:56","modified_gmt":"2022-09-08T00:15:56","slug":"historia-x-jornalismo-uma-hipotese-para-a-interpretacao-das-semelhancas-e-diferencas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/alterjor\/?p=1561","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria X Jornalismo \u2013 Uma hip\u00f3tese para a interpreta\u00e7\u00e3o das semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>Entre o trabalho de historiadores e jornalistas h\u00e1 semelhan\u00e7as, mas possivelmente mais diferen\u00e7as. Analisar as fontes de informa\u00e7\u00e3o, entrevistar pessoas que sabem mais a fundo da quest\u00e3o, trabalhar dados para chegar ao mais fiel retrato dos fatos, estas s\u00e3o as semelhan\u00e7as. Contudo, a perspectiva do tempo, o ambiente e o contexto de produ\u00e7\u00e3o do relato, a viv\u00eancia e conviv\u00eancia com as consequ\u00eancias da publica\u00e7\u00e3o de tais informa\u00e7\u00f5es, s\u00e3o somente alguns dos pontos que \u201cdificultam\u201d o trabalho do jornalista, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele que estuda o mesmo fato anos depois, como historiador.<\/p>\n<p>Dizer isso n\u00e3o isenta o jornalista de erro e nem diminui a necessidade do trabalho do historiador, por\u00e9m a falta de consci\u00eancia sobre tais diferen\u00e7as \u00e0s vezes pode promover erros de interpreta\u00e7\u00e3o ao justamente se tentar entender os jornalistas do passado. Para n\u00e3o deixar de falar de Hist\u00f3ria, vamos a um exemplo \u201cde ontem\u201d, que posteriormente o leitor decide como interpret\u00e1-lo para os estudos \u201cde hoje\u201d:<\/p>\n<p>Dos jornais brasileiros, j\u00e1 se estudou e relatou muito bem como estes lidaram com o Regime Militar, dentre de suas possibilidades. Pode-se escolher entre os bons relatos contados por Daniel Aar\u00e3o Reis, Carlos Chagas, Elio Gaspari ou Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling. N\u00e3o se esquecer tamb\u00e9m dos brilhantes trabalhos sobre imprensa deixados por Bernardo Kucinski e Beatriz Kushnir.<\/p>\n<p>Portanto, estendo a minha contribui\u00e7\u00e3o a este estudo falando de m\u00eddia internacional, tomando mais uma vez o exemplo do <em>New York Times<\/em>. Lembrando que os relatos do NYT afetaram muito mais a opini\u00e3o p\u00fablica sobre a ditadura brasileira fora do pa\u00eds, do que dentro. O que n\u00e3o significa que n\u00e3o se mere\u00e7a a lembran\u00e7a e a an\u00e1lise. A not\u00edcia do Golpe de 1964 chegou \u00e0s p\u00e1ginas novaiorquinas no pr\u00f3prio dia 1\u00ba de abril daquele ano, na primeira p\u00e1gina. Ali se informava que a Regi\u00e3o Militar de Juiz de Fora se rebelara contra o governo de Goulart.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ainda na primeira p\u00e1gina, se informava que os \u201crebeldes\u201d diziam-se vitoriosos contra Jango, que j\u00e1 teria deixado Bras\u00edlia. O povo comemorava, segundo relato, na praia de Copacabana. A not\u00edcia n\u00e3o menciona que Goulart seguia no pa\u00eds, nem comentava se outras regi\u00f5es mais remotas do Brasil tamb\u00e9m \u201ccomemoravam\u201d tal ocorrido. Um historiador que conhece o trabalho dos jornalistas precisa ter claro que essa aus\u00eancia de tais informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 somente esperada, como natural a este relato. Todo cuidado \u00e9 pouco para n\u00e3o esperar que um jornalista publique uma informa\u00e7\u00e3o que ele simplesmente n\u00e3o teria como acessar no momento em que se encontra.<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o do deposto presidente brasileiro n\u00e3o era informa\u00e7\u00e3o acess\u00edvel, apesar disso uma maior apura\u00e7\u00e3o de como distintas regi\u00f5es do pa\u00eds sentiam o Golpe era poss\u00edvel de ser feita. Todavia, h\u00e1 de se perguntar, era mesmo vi\u00e1vel? Num contexto de \u201ctanques pela rua\u201d e urg\u00eancia para noticiar, quais eram as reais op\u00e7\u00f5es para expandir esta pequena nota de informa\u00e7\u00e3o mandada a Nova Iorque? Lembrando que se est\u00e1 falando de numa \u00e9poca em que uma not\u00edcia precisava sair via Telex. As not\u00edcias est\u00e3o na primeira p\u00e1gina, mas n\u00e3o por \u201capoio\u201d, mais provavelmente porque s\u00e3o os fatos mais \u201cquentes\u201d daquele dia.<\/p>\n<p>Ao longo de 1964, notas sobre o Brasil seguiam aparecendo pelo NYT, com as defesas de Jango saindo na p\u00e1gina 10 da edi\u00e7\u00e3o de 6 de abril, e as acusa\u00e7\u00f5es de Brizola sobre o apoio dos EUA ao Golpe na p\u00e1gina 33 da edi\u00e7\u00e3o de 10 de maio. Por que tais not\u00edcias n\u00e3o foram capa do jornal novaiorquino? O motivo \u00e9 pol\u00edtico? Muito provavelmente o motivo \u00e9 apenas jornal\u00edstico, n\u00e3o s\u00e3o <em>\u201cbreaking news\u201d<\/em> chocantes como eram as notas do dia do Golpe.<\/p>\n<p>Quando Castello Branco come\u00e7ou a \u201cexagerar\u201d nas depura\u00e7\u00f5es dos \u201ccomunistas\u201d, previstas pela \u201cboa Revolu\u00e7\u00e3o\u201d que teria promovido no Brasil, o NYT apontou essa pol\u00edtica \u201cretr\u00f3grada\u201d, na p\u00e1gina 44 da edi\u00e7\u00e3o de 10 de junho.<\/p>\n<p>Naturalmente, posteriormente vieram as an\u00e1lises com alto teor opinativo, o famoso \u201ccoment\u00e1rio\u201d jornal\u00edstico. Em 1965, Herbert L. Matthews elogiou a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d brasileira na p\u00e1gina 30 da edi\u00e7\u00e3o de 15 de mar\u00e7o. Aqui se interpreta que \u201co jornal\u201d apoiava a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d? N\u00e3o exatamente. Pode-se chegar a esta conclus\u00e3o porque nesta mesma \u00e9poca o correspondente Juan de On\u00eds j\u00e1 mandava not\u00edcias a Nova Iorque com cr\u00edticas \u00e0s autocracias que j\u00e1 ocorriam no pa\u00eds. O pr\u00f3prio Matthews n\u00e3o se atreveu a terminar seu coment\u00e1rio sem deixar ao menos no ar que a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d poderia descambar para lados ruins, segundo ele, se ela caminhasse para qualquer um dos \u201cextremos\u201d.<\/p>\n<p>Em 1967, na p\u00e1gina 46 da edi\u00e7\u00e3o de 5 de abril, James Reston tamb\u00e9m teceu um coment\u00e1rio positivo em nome do que ocorria no Brasil, usando como base o simples \u201cmedo do comunismo\u201d, comum naquela \u00e9poca. Afinal, na Guerra Fria a pauta era esta e estes senhores eram estadunidenses, \u00e9 justo esperar algo diferente?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o por que se p\u00f4de observar algo distinto na cobertura de Juan de On\u00eds, na mesma \u00e9poca? Ele tamb\u00e9m era estadunidense, embora vale ressaltar que era filho de Federico de On\u00eds, um acad\u00eamico republicano espanhol exilado nos Estados Unidos. Com o saber do que foi a Segunda Rep\u00fablica Espanhola, j\u00e1 se pode inferir que a viv\u00eancia que este rep\u00f3rter tinha em sua vida pessoal era outra e afetava claramente sua vis\u00e3o de mundo, mesmo num contexto de Guerra Fria. H\u00e1 um mais importante fator a se destacar: On\u00eds estava vivendo no Brasil, ocupando a chefia da sucursal carioca do <em>Times <\/em>naquele momento. Ao ser um jornalista que valia seus gr\u00e3os de sal, n\u00e3o estaria redigindo suas mat\u00e9rias todas do \u201cgabinete\u201d. Somente por sair pelas ruas do Brasil, n\u00e3o poderia tecer vis\u00f5es t\u00e3o cegas e\/ou ideol\u00f3gicas de como a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d realmente era.<\/p>\n<p>N\u00e3o de se estranhar, o homem que publicou pela primeira vez, na p\u00e1gina 7 da edi\u00e7\u00e3o de 17 de dezembro de 1968 do NYT, que o Regime brasileiro era uma aut\u00eantica ditadura militar, foi Juan de On\u00eds, mesmo que n\u00e3o mais ocupava seu cargo no Rio de Janeiro \u00e0 \u00e9poca. A not\u00edcia n\u00e3o foi capa, porque a capa j\u00e1 havia vindo no dia anterior, quando se noticiara a institui\u00e7\u00e3o do AI-5. On\u00eds neste caso foi mais analista que rep\u00f3rter, afinal nem estava no pa\u00eds (e a censura j\u00e1 havia chegado ao escrit\u00f3rio carioca do <em>Times<\/em> neste momento). No entanto, sua viv\u00eancia e conhecimento o fizeram mais apto para explicar ao p\u00fablico estadunidense o que estava ocorrendo no Brasil.<\/p>\n<p>E assim o fez, desde a Cidade do M\u00e9xico, onde agora chefiava a filial local do NYT. Esta informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 relevante, especialmente por entender que o ambiente ao redor da constru\u00e7\u00e3o deste relato provavelmente n\u00e3o seria vi\u00e1vel dentro do Brasil. Mesmo sendo um \u201cgringo\u201d, o que supostamente faria a ditadura pensar duas vezes antes de o prender (merece o destaque que as primeiras notas sobre tortura no Brasil chegaram aos EUA justamente porque cl\u00e9rigos estadunidenses foram presos no pa\u00eds), \u00e9 dif\u00edcil concluir que um jornalista conseguiria escrever o artigo referenciado do Rio de Janeiro, ao lado de um oficial do ex\u00e9rcito que agora \u201cvigiava\u201d a m\u00e1quina de Telex que as empresas de m\u00eddia internacionais dividiam na capital carioca.<\/p>\n<p>O correspondente do <em>Times<\/em> na \u00e9poca mais \u201cdura\u201d do terrorismo de Estado do Regime, Joseph Novitski, relatou em entrevista ao autor desta coluna o \u00f3bvio para quem conhece a vida de rep\u00f3rter: os jornalistas brasileiros n\u00e3o se arriscavam a enfrentar a censura, porque conviviam com aquela realidade, tinham que pensar nas suas carreiras e at\u00e9 mesmo nas suas vidas e integridades f\u00edsicas. Estas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser sonegadas ao se avaliar os papeis de cada jornal na luta contra o regime. Novitski mesmo pesava as informa\u00e7\u00f5es que mandaria ou n\u00e3o a Nova Iorque, pensando nas consequ\u00eancias que ocorreriam no Brasil, j\u00e1 que uma not\u00edcia poderia custar a vida de um preso pol\u00edtico. Nestes casos, melhor que n\u00e3o fosse publicada, assim explicou Novitski.<\/p>\n<p>Com este breve compilado de informa\u00e7\u00f5es, pode-se concluir se o NYT apoiou ou n\u00e3o o Regime Militar? Me arriscaria a dizer que se esta \u00e9 a quest\u00e3o que fica ao leitor, n\u00e3o entendeu o ponto deste artigo. A melhor pergunta a se fazer \u00e9: como o historiador deve tratar o trabalho do rep\u00f3rter, feito h\u00e1 tantos anos no passado? \u00c9 preciso compreender o ambiente em que o trabalho jornal\u00edstico foi realizado, as circunst\u00e2ncias, a perspectiva da \u00e9poca, o contexto, assim se constr\u00f3i um relato hist\u00f3rico o mais fi\u00e1vel poss\u00edvel com a realidade da \u00e9poca. Repito, isso n\u00e3o quer dizer que todas as decis\u00f5es jornal\u00edsticas est\u00e3o corretas, somente que \u00e9 necess\u00e1rio que se interprete elas levando em considera\u00e7\u00e3o todos os pormenores, tamb\u00e9m para que assim, quando se aponte um \u201cdesvio\u201d, n\u00e3o exista equ\u00edvoco. A perspectiva do tempo sempre ajuda em tais an\u00e1lises, mas jornalistas n\u00e3o t\u00eam o luxo da paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Desta forma, pode-se entender melhor aonde os erros foram dos jornalistas e aonde foram dos historiadores. \u00c9 interessante saber de todos, para justamente se prosseguir no trabalho de constru\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, deixando os nossos relatos do passado o mais pr\u00f3ximos do realmente ocorrido, algo que se teria enorme dificuldade para fazer sem os jornalistas.<\/p>\n<p>*<em> Daniel Azevedo Mu\u00f1oz \u00e9 jornalista, mestre e doutorando em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidade Aut\u00f4noma de Madri (Espanha) e faz est\u00e1gio doutoral no PPGCOM- ECA\/USP.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o trabalho de historiadores e jornalistas h\u00e1 semelhan\u00e7as, mas possivelmente mais diferen\u00e7as. 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