{"id":5873,"date":"2024-05-02T14:04:12","date_gmt":"2024-05-02T17:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=5873"},"modified":"2024-05-02T15:00:36","modified_gmt":"2024-05-02T18:00:36","slug":"leia-o-artigo-expulsar-aluna-por-ato-racista-expia-culpa-mas-nao-resolve-nem-educa-do-professor-rodrigo-ratier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=5873","title":{"rendered":"Leia o artigo &#8220;Expulsar aluna por ato racista expia culpa, mas n\u00e3o resolve nem educa&#8221; do professor Rodrigo Ratier"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Expulsar aluna por ato racista expia culpa, mas n\u00e3o educa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O contexto evita equ\u00edvocos. Recorro a essa frase, que tantas vezes me salvou de ju\u00edzos apressados, para comentar o caso de racismo ocorrido na Escola Vera Cruz, um dos mais tradicionais col\u00e9gios particulares de S\u00e3o Paulo. O caso \u00e9 muito triste do in\u00edcio ao fim: um grupo de garotas pegou o caderno de uma das filhas da atriz Samara Felippo e do ex-jogador de basquete Leandrinho. Arrancaram p\u00e1ginas de uma pesquisa e devolveram o objeto ao achados e perdidos com pesadas ofensas de cunho racista. Identificadas, as autoras foram punidas com suspens\u00e3o indeterminada, uma san\u00e7\u00e3o tida como branda por parte da comunidade escolar e pelo tribunal das redes sociais. O clamor \u00e9 pela expuls\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, faz sentido exigir o banimento. A ocorr\u00eancia \u00e9 de fato indignante, racismo \u00e9 crime e n\u00e3o pode ser tolerado. Esse mesmo olhar de fora, apressado, adiciona outros elementos: O Vera Cruz \u00e9 uma escola com mensalidades elevadas \u2013 \u201cde alto padr\u00e3o\u201d \u2013 e estaria sendo conivente, passando pano para \u201cfam\u00edlias da elite branca\u201d; o col\u00e9gio tem um projeto antirracista, mas que teria \u201cfalhado miseravelmente\u201d. Afinal, n\u00e3o conseguiu impedir o racismo na escola, ainda mais manifestado de forma t\u00e3o violenta.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto evita equ\u00edvocos. O fato \u00e9 grave e demanda puni\u00e7\u00e3o; a solidariedade \u00e0 v\u00edtima precisa ser irrestrita. Todo o resto pode \u2013&nbsp; e eu diria que precisa \u2013 ser debatido. Abro aqui um par\u00eanteses em primeira pessoa: durante dois anos, fui o editor da revista de educa\u00e7\u00e3o antirracista do Vera Cruz. Um aprendizado importante e que me permite, talvez, olhar para essa situa\u00e7\u00e3o a partir de um outro ponto de vista. O da escola. Reflito sobre o que faria se estivesse na posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o e das coordena\u00e7\u00f5es: que atitude tomar?<\/p>\n\n\n\n<p>O mais confort\u00e1vel \u2013 se \u00e9 que poss\u00edvel falar em conforto num caso desses \u2013 seria atender ao punitivismo. Expuls\u00e3o e pronto, caso encerrado. E que ningu\u00e9m ouse pensar em fazer algo semelhante porque o caminho ser\u00e1 a porta da rua. Seria a op\u00e7\u00e3o de 11 entre 10 escolas, com o impacto de um recado firme contra o inomin\u00e1vel. \u201cN\u00e3o nos misturamos com racistas\u201d, n\u00e3o queremos essa gente endinheirada por\u00e9m indigna de frequentar o ambiente imaculado de uma certa esquerda progressista que nunca erra.<\/p>\n\n\n\n<p>A escola optou pelo caminho inc\u00f4modo. Contratou o problema para si, trouxe o desassossego para dentro de seus muros e recusou falar em expuls\u00e3o \u2013 embora desde o in\u00edcio tenha reconhecido a gravidade do fato e a necessidade de consequ\u00eancias duras, de que as meninas se responsabilizem pelo que fizeram. A \u201ctese\u201d da compra de sil\u00eancio n\u00e3o para de p\u00e9 pela pr\u00f3pria sequ\u00eancia dos fatos: como era previs\u00edvel, as fam\u00edlias das agressoras, sob intensas cr\u00edticas (\u201cfaltaram valores a essas meninas!\u201d) v\u00e3o tirar suas filhas do col\u00e9gio. Ao menos uma delas j\u00e1 anunciou a sa\u00edda ontem (29), numa mensagem ao grupo da classe a que a coluna teve acesso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto evita equ\u00edvocos, e nesse caso o que ele evidencia \u00e9 um compromisso com a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Compromisso que:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Come\u00e7a no olhar para as envolvidas como personalidades em constru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de consider\u00e1-las inimput\u00e1veis, mas de respeitar a concep\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia presente no pr\u00f3prio regramento jur\u00eddico brasileiro. Tanto a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 e quanto o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente consideram crian\u00e7as e adolescentes sujeitos em forma\u00e7\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>Prossegue no reconhecimento de que houve um ato grav\u00edssimo em que o acolhimento \u00e0 v\u00edtima \u00e9 a provid\u00eancia fundamental.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Considera que a educa\u00e7\u00e3o tem ferramentas para encaminhar mesmo a mais espinhosa das situa\u00e7\u00f5es. E que a finalidade do ensino \u00e9 levar crian\u00e7as e adolescentes a desenvolver sua autonomia. Isso \u00e9 basicamente o contr\u00e1rio do medo da puni\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Investe no desenvolvimento da autonomia como objetivo da educa\u00e7\u00e3o. Crian\u00e7as e adolescentes compreendem que n\u00e3o se pode ser racista porque isso \u00e9 eticamente inaceit\u00e1vel. A regra \u00e9 respeitada porque entendida pelos sujeitos como justa e necess\u00e1ria \u2013 e n\u00e3o porque (ou n\u00e3o apenas porque) haver\u00e1 puni\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Coisa de sonh\u00e1ticos, pode-se replicar, a que cabe a tr\u00e9plica: a educa\u00e7\u00e3o em seu sentido mais generoso \u00e9 isso mesmo, \u00e9 uma cren\u00e7a no ser humano, \u00e9 essa esperan\u00e7a de que todos e todas podem aprender. Mas a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas um desejo. \u00c9 tamb\u00e9m uma ci\u00eancia, o que significa que o idealismo fosse apenas um desejo e n\u00e3o viesse acompanhado de rigor pedag\u00f3gico, com as melhores estrat\u00e9gias para se aproximar, tanto quanto poss\u00edvel, da transforma\u00e7\u00e3o almejada.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem, sim, projetos escolares de educa\u00e7\u00e3o antirracista apenas de fachada, uma commodity como quadra de esportes ou espa\u00e7o maker para preencher a lista de sedu\u00e7\u00f5es \u00e0s fam\u00edlias em per\u00edodo de matr\u00edculas. Mas o contexto evita equ\u00edvocos e, de onde eu vejo, o projeto antirracista da Escola Vera Cruz tem consist\u00eancia e rigor cient\u00edfico. Envolve um programa de bolsas para pretos e pardos que garante 13 anos de gratuidade, uma pol\u00edtica de contrata\u00e7\u00e3o de professores que amplie a propor\u00e7\u00e3o de pretos e pardos e os coloque em posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, uma revis\u00e3o curricular ampla e democr\u00e1tica, uma metodologia complexa, amparada nas boas pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o antirracista, uma equipe de apoiadores de refer\u00eancia na \u00e1rea, de Sueli Carneiro a Lia Verner Schucman, passando por S\u00edlvio Almeida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Recebe, enfim, o reconhecimento pelos resultados. O mais relevante deles foi o convite a Juliana de Paula Costa, coordenadora da escola, a discursar na ONU durante a 3<sup>a<\/sup> Sess\u00e3o do F\u00f3rum Permanente de Afrodescendentes em Genebra, representando o Vera Cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um tanto ilus\u00f3rio acreditar que um programa de educa\u00e7\u00e3o antirracista, por melhor que seja, possa estirpar num passe de m\u00e1gica o racismo. Em muitos casos, pode ocorrer o contr\u00e1rio, porque a discuss\u00e3o sobre o tema gera a quebra do sil\u00eancio e constroi um olhar mais atento, visibilizando situa\u00e7\u00f5es que antes sequer eram reconhecidas como racismo. Outra possibilidade apontada \u00e9 que a quebra do racismo institucional leve, num primeiro momento, ao aumento do racismo interpessoal. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que come\u00e7am a ser mapeadas por estudos da \u00e1rea e que mostram a complexidade de desarmar uma bomba jogada no bolso de todos n\u00f3s por quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso coragem para bancar a escolha de uma puni\u00e7\u00e3o proporcional \u00e0 gravidade do ato que n\u00e3o seja a expuls\u00e3o. Coragem para provocar uma comunidade majoritariamente branca a se olhar no espelho e a se reconhecer, em maior ou menor grau, seu pr\u00f3prio racismo, quando afastar o corpo estranho e desviante bastaria para expiar a culpa e realizar o justi\u00e7amento demandado nesses tempos apressados e irrefletidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o poderia ser outra a escolha da educa\u00e7\u00e3o. Educadores sempre torcem para que os epis\u00f3dios sejam \u201cpedag\u00f3gicos\u201d. \u00c9 essa tamb\u00e9m a minha torcida: que a escola, alunos, fam\u00edlias e funcion\u00e1rios possam olhar para o epis\u00f3dio com a serenidade poss\u00edvel, e que o di\u00e1logo e o rigor do saber espec\u00edfico da educa\u00e7\u00e3o auxilie cada um e cada uma em sua pr\u00f3pria reflex\u00e3o sobre ra\u00e7a e racismo. Como o contexto evita equ\u00edvocos, penso que o Vera Cruz esta \u00e0 altura do desafio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Rodrigo Pelegrino Ratier \u00e9 professor do Curso de Jornalismo no Departamento de Jornalismo e Editora\u00e7\u00e3o da ECA-USP<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>OBS: texto publicado originalmente na coluna do autor no UOL e reproduzido com a autoriza\u00e7\u00e3o do autor:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/rodrigo-ratier\/2024\/05\/01\/expulsar-aluna-por-ato-racista-expia-culpa-mas-nao-educa.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/rodrigo-ratier\/2024\/05\/01\/expulsar-aluna-por-ato-racista-expia-culpa-mas-nao-educa.htm<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Expulsar aluna por ato racista expia culpa, mas n\u00e3o educa O contexto evita equ\u00edvocos. Recorro a essa frase, que tantas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5477,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[155,3],"tags":[],"class_list":["post-5873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5873"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5875,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5873\/revisions\/5875"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5477"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}