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Blog da USP - 20/05/2016 - Imprimir Imprimir

Comissão Interdepartamental do Curso de Letras divulga nota sobre ocupação do prédio

A Direção da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) divulgou, no dia 20 de maio, a nota emitida pela Comissão Interdepartamental do Curso de Letras sobre a ocupação do prédio de Letras. O documento teve o apoio da Congregação da Faculdade.

Nota da Comissão Interdepartamental do Curso de Letras (CILE)        

O Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP é um dos mais importantes polos de estudo e pesquisa do país nas áreas de literatura, língua e tradução. Seus professores, alunos e ex-alunos são responsáveis por parte importante do que se cria, edita, debate e traduz no Brasil. Sua longa história é o resultado do esforço de inúmeras gerações. Suas salas de aula acolheram milhares de alunos, professores célebres, visitantes eméritos, intelectuais que fundaram reflexões essenciais sobre a cultura brasileira. Sua produção literária e científica recebeu os mais importantes prêmios nacionais e internacionais. Desde  a sua fundação, o Curso de Letras tem tido um papel decisivo no processo de reconhecimento internacional da Universidade de São Paulo, contando com parceiros em todo o mundo e o apoio de associações científicas, entidades de fomento e embaixadas estrangeiras.

Essa longa história mostra um percurso de lutas e conquistas, dificuldades e superações, que não devem ser esquecidas, e ainda servem de exemplo para lidarmos com novos desafios, no conturbado momento político e institucional que hoje enfrentamos. Em virtude do vivo contato com seus objetos de estudo, o Curso de Letras sempre confiou no poder da palavra, defendendo o diálogo e o conhecimento como forma de resistência contra qualquer tipo de autoritarismo.

Diante do ato arbitrário e unilateral de “ocupação” do prédio de Letras pelo CAELL (Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários), os cinco Departamentos de Letras realizaram, assim como a CILE (Comissão Interdepartamental do Curso de Letras), diversas reuniões, para debater o assunto e suas consequências. Coerentemente temos recusado, nas instâncias das quais participamos, a opção pela judicialização do conflito, sem deixar de criticar abusos e arbitrariedades que prejudicam o necessário diálogo, única via para a discussão dos pontos de convergência e divergência entre as diversas pautas de reivindicações.

A “ocupação” do prédio de Letras, desde o dia 11 de maio, causou um enorme impacto nas atividades do Curso, gerando o cancelamento de mais de 700 aulas, oferecidas semanalmente aos quase 5000 alunos matriculados em suas disciplinas, além de interromper a maioria dos 58 cursos de pós-graduação em andamento, prejudicando os 1137 estudantes de mestrado, doutorado e pesquisadores atualmente inscritos em nossos programas de pesquisa.

Eventos importantes, como o tradicional “Voz do Escritor”, o Enapol (Encontro dos Alunos de Pós-graduação em Linguística) e o CIDLES (Colóquio Internacional de Didática de Línguas Estrangeiras e Segundas), dentre outros, foram cancelados  ou, com perdas significativas, realizados em outros prédios de nossa Universidade. Seminários internos, grupos de pesquisa, encontros com convidados nacionais e internacionais também foram afetados, e dezenas de atividades de Cultura e Extensão foram comprometidas. Tudo isso ocorreu em apenas uma semana de paralisação, motivada pela “ocupação” de nosso prédio.

O espaço universitário é justamente aquele sem o qual a relação entre alunos, docentes e funcionários (e também entre eles e a própria comunidade que os sustenta) deixa de existir. A própria ideia de Universidade está baseada na preservação da autonomia que deve reger o espaço didático como local de debate e discussão, contribuindo essencialmente para um amplo impacto político em nossa sociedade. Em um país como o nosso — que vive hoje um momento de crescente desvalorização das instituições públicas de cultura e educação — é ato de resistência o esforço de ensinar as novas gerações a ler melhor, escrever melhor, criticar, ensinar, criar, pesquisar, aprender.

Nas reuniões realizadas esta semana nos cinco Departamentos que compõem o Curso de Letras, a absoluta maioria dos docentes, após amplo debate, resolveu condenar o modo como a “ocupação” foi decretada e está sendo mantida. Reconhecemos e asseguramos, como é de nossa tradição, o direito de livre manifestação das entidades estudantis, assim como a legitimidade dos sindicatos de docentes e funcionários, mas entendemos que esse reconhecimento está baseado justamente na preservação do direito ao espaço para o debate e a divergência, principalmente no interior do Curso de Letras, que faz parte de uma das Unidades mais plurais, democráticas e progressistas de toda a nossa Universidade.

Os docentes reunidos também ponderaram que, para que as responsabilidades (de centros acadêmicos, funcionários, docentes e da própria Reitoria, no caso) sejam claramente assumidas, o ônus da paralisação causada pela “ocupação” do espaço universitário deve ser amplamente conhecido e reconhecido. Diante disso, a CILE decidiu pela não reposição das aulas perdidas. Insistindo na manutenção de espaços de diálogo, também propõe uma consulta eletrônica ao conjunto dos alunos, esperando encontrar meios para superar rapidamente o impasse, tentando evitar assim consequências drásticas causadas por uma longa “ocupação” do prédio, como o eventual cancelamento do semestre letivo.

Com amplo apoio dos docentes do Curso de Letras, a CILE defende que, sem a preservação de um espaço adequado de convívio e debate democrático, o sentido das reivindicações, mesmo as mais justas, está comprometido, e sua eficácia política prejudicada, no momento em que os cursos de Humanidades, na Universidade e fora dela, estão fragilizados e em perigo.

São Paulo, 19 de maio de 2016

Comissão Interdepartamental do Curso de Letras (CILE-FFLCH-USP)

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