{"id":2835,"date":"2023-10-20T11:28:14","date_gmt":"2023-10-20T14:28:14","guid":{"rendered":"http:\/\/piraju.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2835"},"modified":"2023-10-20T11:28:14","modified_gmt":"2023-10-20T14:28:14","slug":"jogos-de-azar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=2835","title":{"rendered":"Jogos de Azar"},"content":{"rendered":"<p>Lembro-me exatamente, com todos os detalhes, da \u00faltima coisa que meus olhos viram. Meu sobrinho, hoje me auxilia e tece esse relato com minha narrativa. N\u00e3o fui cego a vida toda, na verdade, n\u00e3o faz nem muito tempo a perda capacidade de enxergar. Seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico, uma imprud\u00eancia misturada com piada de mal gosto, ora, nunca tive medo de perder e nem a certeza que poderia ganhar todas. Daria para come\u00e7ar dizendo que fui o melhor jogador de poker da regi\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo do pa\u00eds, pois n\u00e3o havia homem sequer que pudesse me derrotar, seja em blefe ou confian\u00e7a, Deus, at\u00e9 ent\u00e3o acreditava nisso, sempre me guiou para a vit\u00f3ria. Mas talvez deveria ter sido sempre sorte, pensando hoje em dia e que por isso os antigos sempre reprimem os jogos de azar dizendo ser do diabo.<\/p>\n<p>Comecei no poker muito jovem, com meu pai nos bares, ele n\u00e3o era t\u00e3o bom quanto eu me tornei, entretanto, conseguiu muito dinheiro e terras com as malditas cartas, sendo tamb\u00e9m seu rev\u00e9s, perdendo tudo pelo pr\u00f3prio filho &#8211; risos -. Obviamente, continuei seu legado e visitei todos os bares e clubes, fui odiado e amado por todos. N\u00e3o havia uma alma viva que pudesse ganhar de mim nas cartas, e refor\u00e7o isso, pois um incidente me ocorreu depois de uma certa visita. Dizia-se nos bares que costumava visitar com frequ\u00eancia a presen\u00e7a de um viajante na cidade e de praxe jogava poker. O pr\u00f3prio Seu Ernesto, t\u00e3o ruim quanto um novato, havia ganhado de tal visitante algumas vezes.<\/p>\n<p>-\u00c9 um homem estranho, ria da derrota e me entregava seu dinheiro com tanto prazer, ali\u00e1s, quer uma dose por minha conta, velhaco? &#8211; Aceitava sem ao menos nem precisar dizer, e o perguntei onde poderia encontrar tal viajante para que pudesse tamb\u00e9m ter um lucro diante de um rico sem no\u00e7\u00e3o. Seu Ernesto, por fim, n\u00e3o sabia onde encontr\u00e1-lo e me disse que simplesmente aparece em bares trajando roupas simples e um chap\u00e9u que sombreia os olhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito para o encontro esperado, j\u00e1 fazia alguns dias desde que soube do viajante, apesar de t\u00ea-lo esquecido at\u00e9 aquele momento. O bar estava mais vazio que o de costume, o estalajadeiro, Seu Dito, parecia entediado porque n\u00e3o era de costume seu bar ficar vazio. Estava apenas eu e mais dois b\u00eabados no canto, l\u00e1 fora, uma chuva torrencial que por alguns minutos cessou e os dois b\u00eabados partiram para seu rumo. Perguntei para Seu Dito se n\u00e3o era inc\u00f4modo permanecer ali tomando minha cacha\u00e7a, apenas deu de ombro e voltou aos afazeres. Sem notar, um homem de grande chap\u00e9u sentava-se sozinho na mesa mais \u00e0 direita. N\u00e3o me lembrava de t\u00ea-lo visto antes, a porta estava fechada por causa do vento e n\u00e3o me lembro de ouvi-la abrir.<\/p>\n<p>O homem trajava um sobretudo preto, assim como seu chap\u00e9u que escondia os olhos, fitava as m\u00e3os ao embaralhar estranhas cartas. Ao perceber que notara sua presen\u00e7a, fez um sinal para que sentasse \u00e0 sua frente. E numa voz t\u00eanue e l\u00edmpida chamou Seu Dito e pediu uma garrafa de um u\u00edsque barato, depois voltou-se a mim, sem levantar a cabe\u00e7a, escondendo seu rosto diante da sombra de seu chap\u00e9u e me perguntou num tom baixo, por\u00e9m, aud\u00edvel o suficiente para que eu ouvisse sem nenhuma d\u00favida: &#8211; Quer jogar uma partida de poker? &#8211; Tive uma leve sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seria uma boa ideia, e em minha mente veio a lembran\u00e7a do que Seu Ernesto havia me dito antes.<\/p>\n<p>-E vai apostar o que? &#8211; disse ao viajante que me deu um leve sorriso<\/p>\n<p>&#8211; Ora, o que t\u00eam mais de precioso que possa jogar sem medo de perder?<\/p>\n<p>&#8211; Eu poderia apostar minha vida se eu fosse um tolo, e tu iria cobrir a aposta com o mesmo peso, mas n\u00e3o sou capaz de tirar a vida de ningu\u00e9m, talvez pudesse dizer-me o que apostaria para que eu cubra.<\/p>\n<p>O homem riu e concordou, deu-me seu estranho baralho, nunca tinha visto cartas com tais desenhos, e fiz o velho rito de costume, embaralhar e o outro cortar, entreguei duas cartas para ele e duas para mim. Contemplei os desenhos daquelas cartas e n\u00e3o resisti de perguntar de onde vinha o viajante.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou de um lugar muito distante &#8211; Me respondeu sem hesitar &#8211; L\u00e1 n\u00e3o temos costume de jogar isso, aprendi por essas bandas e digo que foi dif\u00edcil entender como funciona. Esse baralho \u00e9 da minha terra e \u00e9 usado para outras coisas al\u00e9m de jogos.<\/p>\n<p>N\u00e3o fiquei muito interessado no que seria o uso original daquelas cartas, apesar de macabras, eram fascinantes, quase hipnotizantes os desenhos. Assim come\u00e7ou o jogo, na minha m\u00e3o um par de damas e a primeira aposta. Olhei rapidamente sem demonstrar qualquer rea\u00e7\u00e3o, ora um par de damas \u00e9 um par de damas, n\u00e3o haveria motivos para n\u00e3o jogar aquela m\u00e3o. O homem tirou de seu sobretudo um rel\u00f3gio de bolso, muito belo, ornamentado a puro ouro, s\u00f3 de olhar daria pra identificar seu brilho \u00fanico. Colocou-o na mesa e disse:<\/p>\n<p>-Essa \u00e9 a minha aposta, meu rel\u00f3gio de bolso, heran\u00e7a de minha fam\u00edlia, pode pensar que n\u00e3o h\u00e1 um valor sentimental por estar colocando-o em jogo, agora tu, dever\u00e1 igualar esse valor.<\/p>\n<p>Tirei de meu pesco\u00e7o um colar tamb\u00e9m ornamentado em ouro, heran\u00e7a antiga da fam\u00edlia, passado de gera\u00e7\u00f5es a gera\u00e7\u00f5es, e assim tombei as tr\u00eas primeiras cartas: \u201coito de ouro, sete de copas e rei de paus\u201d, meu par de damas ainda era meu triunfo e agora eu come\u00e7ava a aposta. Como de costume quando n\u00e3o tinha dinheiro para os jogos, chamei Seu Dito e lhe pedi uma garrafa de cacha\u00e7a e a apostei, lacrada. O estalajadeiro me encarou de forma agressiva, mas atendeu o meu pedido. Fiz por insulto j\u00e1 que a primeira aposta j\u00e1 era de valor exorbitante, o homem riu e cobriu com a garrafa de u\u00edsque que havia pedido antes, (nota-se que o homem nem a abriu), aceitei, porque era valor equivalente.<\/p>\n<p>E assim virei mais uma carta, poderia ter sido o \u2018turn\u2019 que pudesse me consagrar, esperava uma outra dama, virei-a, \u201c\u00e1s de ouro\u201d. Pestanejei em pensamento, mas n\u00e3o mudei a minha postura, o homem se manteve quieto e relaxado, puxou de seu sobretudo um charuto e me ofereceu um tamb\u00e9m e pediu mesa.<\/p>\n<p>-Obrigado, mas n\u00e3o fumo. E vou de mesa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No calor do fogo de seu f\u00f3sforo, consegui ver seus olhos. Amarelados com um formato um tanto estranho, deve ser normal na terra de onde vem, por isso os esconde, pensei eu. Claro, tolo como eu n\u00e3o poderia sequer pensar nas antigas hist\u00f3rias de terror sobre dem\u00f4nios de olhos claros, os quais enganam as pessoas utilizando de mal\u00edcias e golpes t\u00e3o baixos quanto um c\u00ednico esnobe das grandes cidades em volta da capital, que vira e mexe perturbam a n\u00f3s que vivemos em paz nos campos do interior. Virei a \u00faltima carta, a qual selaria a minha vit\u00f3ria por completo e l\u00e1 estava, \u201cdama de espadas\u201d. Sem querer esbocei um riso de canto com a boca, que naturalmente poderia ter sido discreto.<\/p>\n<p>Bom, caro leitor e meu querido sobrinho, o qual escreve esse relato, chegamos finalmente no \u00e1pice dessa narrativa. A mesa com \u201coito de ouro, sete de copas, rei de paus, \u00e1s de ouro e dama de espadas\u201d e em minhas m\u00e3os, um par de damas, a do oponente, desconhecida at\u00e9 ent\u00e3o. Agora vinha a \u00faltima aposta e o desejo mais diab\u00f3lico de todos. O homem que fumava seu enorme charuto, fez ent\u00e3o uma proposta incomum nos jogos de poker, e perguntou-me:<\/p>\n<p>-O que desejarias que eu apostasse?<\/p>\n<p>Fiquei confuso e pedi um tempo para eu pensasse, ora, n\u00e3o poderia entender qual era o jogo deste homem e nem adivinhar o que seria de grande valor, ent\u00e3o brinquei e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Seus olhos, j\u00e1 que s\u00e3o raros por aqui e em outros lugares, devem ter um pre\u00e7o inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>-Certamente que sim, ent\u00e3o eu quero os seus tamb\u00e9m. &#8211; disse-me numa voz s\u00e9ria e com um leve sorriso, e eu tolo, achando que poderia ter sido uma piada, e sem perceber mostrei o trio de damas.<\/p>\n<p>-E como posso arranc\u00e1-los de sua cara?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi nesse momento que cai na armadilha daquele filho da puta, ao virar as cartas, um trio de ases.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez n\u00e3o precise &#8211; disse-me de forma zombeteira, ent\u00e3o tudo escureceu e nunca mais eu pude ver. A primeira e \u00fanica derrota, n\u00e3o foi por um homem, e sim o pr\u00f3prio Diabo, que me enganou e levou meus olhos. E ainda diz Seu Dito n\u00e3o ter lembrado de ter visto aquele homem, e sim, que apenas me viu deitado no ch\u00e3o tateando as mesas e cadeiras ao meu redor em grande desespero com dois buracos enormes no meu rosto. Mesmo contando a mesma hist\u00f3ria para ele e para o delegado, n\u00e3o acreditaram. Lembra de Seu Ernesto? Dois dias depois foi encontrado morto, enterrado de cabe\u00e7a para baixo com os dois p\u00e9s para fora. Ao longo desses anos nunca mais ouvi relatos sobre o viajante de trajes negros e olhos amarelos.<\/p>\n<p><strong><em>* Jos\u00e9 Eduardo Alves \u00e9 escritor e ativista cultural.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me exatamente, com todos os detalhes, da \u00faltima coisa que meus olhos viram. 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