{"id":2887,"date":"2023-11-16T10:52:12","date_gmt":"2023-11-16T13:52:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=2887"},"modified":"2023-11-16T10:52:12","modified_gmt":"2023-11-16T13:52:12","slug":"dardos-flechas-dados-e-resultados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=2887","title":{"rendered":"Dardos, flechas, dados e resultados"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, assim como todos os dias, sem exce\u00e7\u00e3o, eu errei. Assim como todos os outros dias fui julgado e sentenciado a parar de errar, claro, n\u00e3o me atrevo a apontar as falhas dos outros, penso, ou costumava pensar que falhar \u00e9 algo completamente normal. E mesmo pedindo desculpas, ou se provando a probabilidade de acertos e erros e quais s\u00e3o favor\u00e1veis, continuamos falhando e mantendo esse ciclo. Agora, qual ponto nos interessa? Se acertamos mais do que erramos, por qu\u00ea ser julgado por uma ou duas falhas? S\u00e3o perguntas que dificilmente conseguir\u00edamos responder e ainda manter o objetivo de que devemos errar menos.<\/p>\n<p>Errar menos, talvez seja sin\u00f4nimo de acertar mais. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que ser\u00e1 avaliado no seu trabalho, ou na sua escola. Ser\u00e1 avaliado a escolha, e sendo certo ou errado, v\u00e3o te p\u00f4r na balan\u00e7a e ver qual peso h\u00e1 mais valor. E se o peso for favor\u00e1vel ao que n\u00e3o se espera, \u00e9 um erro, e esse erro ser\u00e1 julgado e as vezes (na maioria delas) etiquetado pelo mesmo.<\/p>\n<p>A sociedade espera que tudo seja perfeito e ao mesmo tempo abomina essa perfei\u00e7\u00e3o, pois causa um padr\u00e3o de viv\u00eancia, no qual as pessoas v\u00e3o se espelhar ou contrariar esse padr\u00e3o. Acaba-se que o \u2018erro\u2019 \u00e9 contextual nessa vis\u00e3o onde um reprime e o outro aceita. Mas qual \u2018erro\u2019 \u00e9 menor que o outro? Qual acerto \u00e9 digno de cr\u00edtica? Por que esse caminho para a perfei\u00e7\u00e3o se errar \u00e9 sin\u00f4nimo de humanidade?<\/p>\n<p>Exemplo um de como a sociedade reprime o erro em fun\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o indireta, e cai como efeito domin\u00f3. Um homem, prolet\u00e1rio, tem que se deslocar da sua casa ao seu servi\u00e7o que fica quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, assim, ele precisa usar um transporte p\u00fablico para chegar ao local, com sua sanidade relativamente bem, pois n\u00e3o \u00e9 permitido conflitar sua vida pessoal com a vida profissional. Nesse dia, o homem acordou dois minutos mais tarde, n\u00e3o p\u00f4de tomar seu caf\u00e9 da manh\u00e3 que se resume em um quarto de copo de caf\u00e9, pois acordou tarde. Esperou o \u00f4nibus, do mesmo jeito que todos os dias, com mais trinta pessoas iguais ao nosso exemplo, mas o \u00f4nibus engui\u00e7ou, o homem n\u00e3o pode esperar e precisa se deslocar o mais r\u00e1pido, por qu\u00ea um \u2018erro\u2019, independente da sua fonte, j\u00e1 lhe custou o precioso tempo. Ao chegar atrasado, seu patr\u00e3o lhe deu um esporro sobre seu atraso e foi julgado como irrespons\u00e1vel e que a vida dele l\u00e1 fora n\u00e3o \u00e9 motivo para seu atraso. Nosso exemplo foi exigido que parasse de errar, pois n\u00e3o foi apenas o seu erro que acarretou o outro, contudo o efeito domin\u00f3 perdurou-se. Seu patr\u00e3o, que deve ter outro patr\u00e3o, o sentenciou a ficar mais no expediente, e assim nosso exemplo atrasou para seu encontro rom\u00e2ntico que pra ele pode valer mais do que seu emprego, por mais que n\u00e3o tenha coragem de admitir. E esse atraso lhe custou outro valor, o valor pessoal, e o julgamento veio logo adiante, \u2018irrespons\u00e1vel\u2019, e desculpas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, como poderia pedir desculpas por ter acordado dois minutos mais cedo ou mais tarde? Como poderia pedir desculpas pelo \u00f4nibus quebrado? Como poderia pedir desculpas pela senten\u00e7a de um superior em seu local de trabalho? Simples, n\u00e3o existe possibilidade nenhuma de reverter a\u00e7\u00f5es ou escolhas j\u00e1 feitas. Agora usando um argumento f\u00fatil que qualquer meritocrata usaria diz\u00edamos exatamente assim: \u201cSe tal homem dedicasse aos estudos ou se esfor\u00e7asse para que tivesse uma condi\u00e7\u00e3o melhor, esses erros n\u00e3o existiriam\u201d. Ai que apresento o exemplo dois.<\/p>\n<p>Uma mulher, ou at\u00e9 mesmo um homem, formado, com condi\u00e7\u00f5es de vida superior a uma classe social, seja ela med\u00edocre ou acima disso, n\u00e3o precisa acordar cedo, muito menos ir atr\u00e1s de uma condu\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo se humilhar para o pr\u00f3prio tempo. Essa pessoa, assim como nosso primeiro exemplo, segue aquele padr\u00e3o de vida perfeita, como se sua condi\u00e7\u00e3o fosse consequ\u00eancia de uma s\u00e9rie de acertos. Mas n\u00f3s, eu e voc\u00ea, sabemos que h\u00e1 outros fatores que correspondem a essa perfei\u00e7\u00e3o. E o que reverteria isso? Recusar os benef\u00edcios de seu progresso como uma escola particular ou uma oportunidade de ter sempre algu\u00e9m por tr\u00e1s de suas economias? Compartilhar, mesmo que nada tenha sido seu durante anos? Ou simplesmente aceitar o privil\u00e9gio de ter nascido de uma fam\u00edlia economicamente estruturada? E o erro, onde est\u00e1? E os julgamentos? Este exemplo \u00e9 onde a balan\u00e7a tende pro lado do acerto, pois se errar, est\u00e1 tudo bem. Faltar ao trabalho ou um encontro, tudo est\u00e1 bem. \u00c9 o relativismo. N\u00e3o importa as desculpas, pois o erro n\u00e3o vale de nada nessa situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o agrega a nenhuma a\u00e7\u00e3o que poderia causar consequ\u00eancias maiores.<\/p>\n<p>Ao relacionar os exemplos, de que um erro, seja ele diretamente ou indiretamente vai ter um peso dependendo de quem erra, e de modo que, tende a ser mais significativo numa simples vida que pode ou n\u00e3o se espelhar naquele que os erros n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Pra ficar mais claro, enquanto voc\u00ea n\u00e3o pode alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o ou a estabilidade, os erros s\u00e3o e ser\u00e3o imperdo\u00e1veis, j\u00e1 que qualquer erro de c\u00e1lculo custa seu \u2018futuro promissor\u2019. Agora j\u00e1 que \u00e9 perfeito, abundante em regalias, errar \u00e9 simples um ato banal que n\u00e3o mudaria nada em sua vida. Eu errei, sim, confesso meu erro. E disso n\u00e3o tenho vergonha, j\u00e1 que errar \u00e9 humano, eu tenho pressa, pois ela \u00e9 inimiga da perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o desejo ser o humano perfeito mostrando todas as imperfei\u00e7\u00f5es que existem em mim. O erro \u00e9 um peso e o acerto \u00e9 uma pena, um te afunda e o outro te esquece. Na mesma balan\u00e7a, na mesma moeda. E apesar dos pesares, estamos fadados, se virarmos esse jogo de ponta-cabe\u00e7a, perceberemos que cada erro traz um acerto, seja ele aceit\u00e1vel ou n\u00e3o por outros olhos e outras opini\u00f5es. Prefiro errar ao perceber que cada acerto, cada conquista n\u00e3o significa nada perante a olhos cr\u00edticos. J\u00e1 as falhas, te fazem ter pelo menos o m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o que voc\u00ea existe.<\/p>\n<p><strong><em>* Pasqualin \u00e9 escritor e ativista cultural.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, assim como todos os dias, sem exce\u00e7\u00e3o, eu errei. 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