{"id":2979,"date":"2024-01-11T09:05:53","date_gmt":"2024-01-11T12:05:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=2979"},"modified":"2024-01-04T09:17:05","modified_gmt":"2024-01-04T12:17:05","slug":"notre-dame-de-paris-carlinhos-barreiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=2979","title":{"rendered":"Notre-Dame de Paris (Carlinhos Barreiros"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; <em>Carlinhos Barreiros (com personagens criados por Victor Hugo)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Examinou-se na folha de lat\u00e3o emba\u00e7ada que lhe servia de espelho desde que viera morar ali. Seu reflexo mal aparecia na superf\u00edcie acobreada, arranhada e ondulada pelas idas e vindas. Uma sombra alta, por\u00e9m arcada, olhou-o de volta. Virou de costas, mas da\u00ed n\u00e3o se enxergava direito.<\/p>\n<p>Com cuidado, apalpou o monte de carne disforme que se acumulava bem em cima da omoplata esquerda. Apertou mas n\u00e3o sentiu dor alguma. Apalpou mais, de cima a baixo. Est\u00e1 crescendo, pensou, ao mesmo tempo que um \u00f3dio s\u00fabito lhe toldava a vis\u00e3o, obscurecendo-lhe os sentidos. Chutou o espelho, que fez um barulho esquisito de gonzos, enquanto uma dor dilacerante no joelho e calcanhar direitos prostou-o no ch\u00e3o de t\u00e1buas largas corridas. Tentou n\u00e3o chorar porque, em sua imagina\u00e7\u00e3o, rapazes de 23 anos n\u00e3o s\u00e3o mais meninos e n\u00e3o choram. Enrodilhado no ch\u00e3o, em posi\u00e7\u00e3o fetal (mas ele n\u00e3o sabia disso) enquanto a noite ca\u00eda nas alturas, tentou n\u00e3o se lembrar que era um monstro. Que as pessoas riam dele, o apontavam com dedos acusadores e fugiam. Que as criancinhas, aterrorizadas, berravam frente \u00e0 sua figura grotesca. Uma bile amarga subiu-lhe garganta acima mas em vez de vomitar a criatura dormiu. Talvez funcione assim com os corcundas.<\/p>\n<p>Acordou bem cedo no dia seguinte, preocupado com os hor\u00e1rios dos sinos. E eles eram dezenas, cada um com um nome, que ele mesmo lhes dera. N\u00e3o havia torre na gigantesca catedral onde n\u00e3o existissem seus respectivos sinos, alguns deles maiores que um elefante. Ele sabia, pois j\u00e1 tinha visto um elefante quando morava no circo. Mastigando um naco de p\u00e3o amanhecido meio ro\u00eddo pelos ratos e engolindo uma x\u00edcara de ch\u00e1 verde fumegante, pulou na corda de Dion\u00edsio e se balan\u00e7ou. Depois foi a vez de Varanas, em seguida Apolo e depois Criseido. Feito um macaco bem adestrado, o corcunda pulava de corda em corda, de sino em sino, enquanto uma doce melodia formada pelos sons harmonizados das pe\u00e7as em cobre ou ferro fundido espalhava-se acima da n\u00e9voa matutina de Paris.<\/p>\n<p>No intervalo entre a primeira grande badalada (seis horas) e a segunda (dez) p\u00f4s-se a matutar, enquanto pegava uma vassoura que j\u00e1 vira dias melhores para varrer seus aposentos e o resto das duas torres principais. Com ela tamb\u00e9m espantava os pombos, que moravam nas frestas e viviam cagando em tudo. Estava ali desde que tinha 10 anos, quando o Circo La Fontaine o abandonara \u00e0 beira da estrada para morrer de fome e os homens do Cardeal o encontraram, levando-o para Paris. Se n\u00e3o fosse o Cardeal Clemente de Abousson n\u00e3o saberia como teria sido sua vida.<\/p>\n<p>O bom religioso o acolhera, dera-lhe de comer e vestir e ainda lhe ensinara o of\u00edcio de sineiro, que ele praticava com orgulho. Toda vez que o santo homem dignava-se subir at\u00e9 as torres, corria, ajoelhava-se e beijava suas m\u00e3os nodosas, cheias daquelas pintas do tempo, que sua m\u00e3e costumava chamar de \u201cles fleurs du mort\u201d. Estranho. Fazia tempo que n\u00e3o via o Cardeal. Meses, na verdade. Ser\u00e1 que tinha morrido? Um estremecimento percorreu-lhe o corpo, acumulando-se na imensa corcunda que lhe pesava nas costas. Ent\u00e3o, triste com o rumo dos pr\u00f3prios pensamentos ajoelhou-se e rezou \u00e0 Virgem, para que protegesse o Cardeal e lhe tirasse a corcunda das costas, deixando-o bonito.<\/p>\n<p>Cochilou um pouco \u00e0 tarde e preparava-se para a sess\u00e3o das 3 horas quando um alvoro\u00e7o l\u00e1 em baixo, na pra\u00e7a, chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Largou a corda do sino Cl\u00f3ves e desceu correndo as escadarias de madeira, para conseguir uma vis\u00e3o melhor do que acontecia. Vinte metros abaixo, a guarda do rei implicava com um bando de ciganos. Ele gostava dos ciganos. No circo, sempre o trataram com carinho. Olhou bem. Os soldados discutiam com uma mo\u00e7a de roupa verde de couro, cabelos vermelhos, que segurava uma cabra pelos chifres. Os outros ciganos, cinco pelo que ele contou, amedrontados, estavam mais atr\u00e1s, esperando. Esmeralda era o nome dela. \u00c9 isso. Ele j\u00e1 tinha visto a cigana por a\u00ed, dan\u00e7ando na pra\u00e7a enquanto seus conterr\u00e2neos tocavam instrumentos de cordas e percuss\u00e3o.<\/p>\n<p>E a cabra, que usava fitas nos cornos e sininhos no pesco\u00e7o peludo dan\u00e7ava junto com ela. Agora ele j\u00e1 sabia a raz\u00e3o da discuss\u00e3o que ocorria abaixo. Certamente a guarda do rei estava a prend\u00ea-la, como bruxa. Assustada, Esmeralda batia com um pandeiro nos ombros do soldado que tentava agarr\u00e1-la, enquanto os outros se divertiam, rindo. A cabra, pressentindo o perigo, berrava alto.<\/p>\n<p>Malditos. O corcunda odiava os soldados mais do que odiava Madame Solangy, a dona do circo que o trancava junto com os porcos e galinhas.<\/p>\n<p>Quando Esmeralda gritou mais alto, no momento em que os guardas a detinham e procuravam amarrar suas m\u00e3os atr\u00e1s, Quas\u00edmodo enla\u00e7ou a corda de C\u00e9dric, o sino mais baixo da torre esquerda e saltou para a pra\u00e7a, vinte metros abaixo da Catedral de Notre-Dame de Paris.<\/p>\n<p><em>* Carlinhos Barreiros \u00e9 professor, jornalista e escritor.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Carlinhos Barreiros (com personagens criados por Victor Hugo) &nbsp; Examinou-se na folha de lat\u00e3o emba\u00e7ada que lhe servia de<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2561,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[274],"tags":[64],"class_list":["post-2979","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-carlinhos-barreiros-especial","tag-cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2979"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2981,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2979\/revisions\/2981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}