{"id":3151,"date":"2024-04-09T19:45:52","date_gmt":"2024-04-09T22:45:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=3151"},"modified":"2024-04-09T19:47:16","modified_gmt":"2024-04-09T22:47:16","slug":"lucia-no-ceu-com-diamante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=3151","title":{"rendered":"L\u00daCIA NO C\u00c9U COM DIAMANTE"},"content":{"rendered":"<p>Conheci L\u00facia Maluly em 1957, quando a fam\u00edlia dela mudou\u2013se de Sarutai\u00e1 para Piraju. Se eu tinha, na \u00e9poca, 12 anos, L\u00facia deveria ter 17. Uma adolescente, ent\u00e3o.<br \/>\nComo era linda, com seus olhos amendoados castanho-esverdeados e seu cabelo negro, heran\u00e7a do sangue mouro que correu na veia de seus ancestrais. L\u00facia e as irm\u00e3s mais velhas, Lurdes e Sumaya (Leila) logo instalaram-se no quarto maior do casar\u00e3o, com janelas abertas para a pra\u00e7a Ataliba Leonel. In\u00fatil dizer que serenatas para L\u00facia n\u00e3o faltavam: naqueles tempos de antigamente, garotos de bom gosto se derramavam em gestos rom\u00e2nticos \u00e0s suas musas.<br \/>\nMo\u00e7a de comportamentos definidos e ousados para a \u00e9poca, posso creditar aqui, \u00e0 L\u00facia, algumas atitudes pioneiras que tomou \u00e0 medida que ia crescendo em idade e tornando-se a lenda que acabou tomando dimens\u00f5es maiores que ela pr\u00f3pria: foi a primeira garota a dirigir em p\u00fablico, pelas ruas da cidade \u2013 no in\u00edcio uma inocente Lambreta, depois o famoso Simca Chambord marron \u201cda L\u00facia Maluly\u201d. A paix\u00e3o dela pelas motos foi ef\u00eamera: parecia sentir-se mais \u00e0 vontade nos v\u00e1rios carros que teve ao longo da vida.<br \/>\nTamb\u00e9m fumava em p\u00fablico, frequentava bares e jogava cartas, h\u00e1bitos reservados quase que exclusivamente \u00e0 ala masculina dos amantes do tabaco e do jogo. Sempre avessa \u00e0s opini\u00f5es que poderiam ser formadas a seu respeito, come\u00e7ou a impor-se como personalidade e car\u00e1ter \u00fanicos, em total contraponto com os comportamentos pr\u00e9-determinados que a sociedade de ent\u00e3o reservava \u00e0s mo\u00e7as.<br \/>\nNunca fez o tipo \u201cmocinha casadoira\u201d, felizmente. Desprezava as conven\u00e7\u00f5es mas pagou um pre\u00e7o alto por isso: lembro-me quando seu irm\u00e3o, o saudoso Hamilton, montou no palco do Clube 9 de Julho a pe\u00e7a (colagem?) \u201cKaos\u201d, isso em 1968, em plena Guerra do Vietn\u00e3 nos EUA e Ditadura Militar aqui no Brasil.<br \/>\nHamilton escolheu, de prop\u00f3sito, as garotas expoentes do high society pirajuense da \u00e9poca, as \u201cfilhinhas de papai\u201d, bem-nascidas, para seu folhetim\/musical comunista pr\u00f3-vietcongues (inimigos dos EUA na guerra) e contra o governo militar que oprimia as liberdades b\u00e1sicas dos brasileiros.<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 que L\u00facia Maluly, irm\u00e3 do autor\/diretor estava l\u00e1? No elenco? Olhada quase sempre de soslaio e com certa desconfian\u00e7a pelas garotas classe alta pirajuense que Hamilton transformou em dan\u00e7arinas de cabar\u00e9, L\u00facia esteve l\u00e1, garantindo seu papel com talento e maestria, nessa que foi a primeira manifesta\u00e7\u00e3o de um teatro verdadeiramente pol\u00edtico em Piraju.<br \/>\nDepois de \u201cKaos\u201d Hamilton foi denunciado \u00e0s autoridades por um militar que morava aqui \u00e0 \u00e9poca e precisou fugir. Foi para S\u00e3o Paulo, onde militou nos movimentos de esquerda e demorou um bom tempo at\u00e9 voltar \u00e0 boa terrinha que o havia entregado aos milicos. L\u00facia, por sua vez, \u201capenas\u201d a atriz principal do musical, por aqui ficou, cuidando das terras que possu\u00eda e fazendo o que fazia melhor: o carteado.<br \/>\nTenho uma d\u00edvida muito grande com L\u00facia e vou contar para voc\u00eas qual \u00e9: uma vez, h\u00e1 alguns anos, em Ita\u00ed, numa rodada de caxeta a dinheiro naqueles bares de periferia com luz amarela que apenas Ita\u00ed sabe ter, recusei-me a jogar com os caras da mesa alegando que n\u00e3o queria tomar o dinheiro deles. Todos riram.<br \/>\nUm cabron, mais abusado, encarou-me e quis saber o motivo da minha emp\u00e1fia. Falei ent\u00e3o a todos eles que quem tinha me ensinado a jogar caxeta era a L\u00facia Maluly e que eu n\u00e3o perdia nunca. Sil\u00eancio absoluto e respeito. Pude perceber ent\u00e3o, que a fama da mo\u00e7a era regional e que todos os jogadores conheciam a Lenda e se esfor\u00e7avam para igual\u00e1-la ou at\u00e9 suplant\u00e1-la.<br \/>\nNas \u00faltimas vezes que a vi por a\u00ed estava do mesmo jeito que a conheci: doce, simples, alegre e mais s\u00e1bia. Como na can\u00e7\u00e3o dos Beatles, com diamantes ao seu redor.<\/p>\n<p><strong>* Carlinhos Barreiros \u00e9 jornalista, professor, escritor e ativista cultural<\/strong><\/p>\n<p>OBS: Cr\u00f4nica publicada no Jornal OBSERVADO &#8211; Edi\u00e7\u00e3o Online em 18.04. 2020 e reproduzida com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci L\u00facia Maluly em 1957, quando a fam\u00edlia dela mudou\u2013se de Sarutai\u00e1 para Piraju. 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