{"id":386,"date":"2020-11-03T11:12:40","date_gmt":"2020-11-03T14:12:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/piraju\/?p=386"},"modified":"2020-11-03T11:12:43","modified_gmt":"2020-11-03T14:12:43","slug":"meninas-que-leem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/?p=386","title":{"rendered":"Meninas que leem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carmem nasceu em 1915 na regi\u00e3o conhecida por \u201cboca do sert\u00e3o\u201d, interior de S\u00e3o Paulo. Se o mundo \u00e9 hostil com mulheres hoje, h\u00e1 105 anos era pior. A mulher que nascia sem heran\u00e7a naquela \u00e9poca, a vida n\u00e3o reservava somente misoginia, opress\u00e3o e dor de cabe\u00e7a \u2013 vinham de brinde incumb\u00eancias de tirar \u00e1gua de po\u00e7o, polir panelas de ferro com lascas de tijolo, engomar roupas com ferro em brasa, suportar ver\u00f5es sem ar condicionado e insetos sem repelentes, cozinhar sem v\u00eddeos do Tastemade, fazer as necessidades em fossas desprovidas de descarga e manter-se limpa com \u00e1gua e sab\u00e3o, afinal de contas, as consultoras Jequiti n\u00e3o existiam e o papel higi\u00eanico era de dif\u00edcil acesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carmem se casou e teve a primeira filha antes dos vinte anos. N\u00e3o era dondoca e nunca viajou a Paris, mas deu mais sorte que outras meninas. O marido, funcion\u00e1rio da Estrada de Ferro, pagava uma passadeira que aliviava a carga dos afazeres de um lar com quintal, seis crian\u00e7as e uma cacetada de animais de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carmem morava numa cidade sem shopping e sem TV. Supria a necessidade de lazer que todo ser humano tem com a leitura de \u201cromances para m\u00f4\u00e7as\u201d e revistas encomendadas do livreiro que passava de porta em porta garantindo o entretenimento do m\u00eas. Lia \u00e0 noite sob luz fraca depois que a crian\u00e7ada dormia e com o servi\u00e7o conclu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carmem morreu de c\u00e2ncer num dia de S\u00e3o Jo\u00e3o antes dos 40 anos. Deixou os filhos, o marido, os bichos, metade da vida por viver e uma grande cole\u00e7\u00e3o de romances que n\u00e3o sobreviveu \u00e0s faxinas dos descendentes. Quantos livros poderia ela ter lido se vivesse um s\u00e9culo a mais? Quanta alegria n\u00e3o sentiria ao comprar livros pela internet parcelados no cart\u00e3o de cr\u00e9dito? Que coisa boa seria, para ela, emprestar obras da biblioteca p\u00fablica e l\u00ea-las sob uma clara l\u00e2mpada de LED no sil\u00eancio da madrugada! Mas n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es e nem tempo h\u00e1bil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler \u00e9 um ato de resist\u00eancia. Ler \u00e0 noite, exausta da lida, debaixo de luz fraca em tempos de analfabetismo superior a 70%, mais ainda. Ler \u00e9 um h\u00e1bito bonito e, vindo de uma menina, mais bonito ainda (as Carmens concordam).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/www.usp.br\/cje\/piraju\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Carmen-Nardini-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-388\" srcset=\"https:\/\/www.usp.br\/piraju\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Carmen-Nardini-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www.usp.br\/piraju\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Carmen-Nardini-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.usp.br\/piraju\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Carmen-Nardini.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Carmem Barone de Oliveira Nardini (1915-1954)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carmem nasceu em 1915 na regi\u00e3o conhecida por \u201cboca do sert\u00e3o\u201d, interior de S\u00e3o Paulo. 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