Calor Extremo

Com o aumento do aquecimento global gerando ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, o conforto térmico também se mostra excludente.

A vida nas metrópoles com as ondas de calor

Grande parte da população mundial do mundo contemporâneo vive nas cidades, e nesse contexto, uma considerável parcela em metrópoles com mais de um milhão de habitantes. A convivência nesse espaço urbano é cercada de desafios, especialmente para a população de baixa renda, que vão desde os direitos básicos como redes de esgoto, água encanada, eletricidade, acesso a moradia, passando pelo transporte público, educação, áreas de lazer, iluminação urbana adequada, arborização e segurança. Se a população das megalópoles enfrenta desafios cotidianos para o seu deslocamento, moradias acessíveis e adequadas, escolas públicas de qualidade, na atualidade surge outro grande incômodo compatível com o tamanho dessas cidades: o desconforto térmico proveniente das ondas de calor gerado pelo aquecimento global. O problema é especialmente mais intenso em países emergentes, localizados no Sul global e com clima tropical. É nesse sentido que a exclusão se mostra presente nessas megalópoles. De um lado observamos aqueles que enfrentam as crescentes e cada vez mais contínuas ondas de calor onde o deslocamento, as habitações e os locais de trabalho são providos de temperatura controlada, seja por ar condicionado, ou por estarem em espaços verdes, cercados por parques e jardins ou construções adaptadas arquitetonicamente para enfrentar o calor intenso. De outro estão os que vivem em condições de calor extremo em ambientes hostis, em construções precárias, com pé direito baixo, com tetos de zinco e/ou amianto, em regiões sem qualquer tipo de saneamento básico e sem eletricidade, sem distanciamento com vizinhança, sem áreas verdes ao redor. O desconforto térmico é bem diferente nessas duas situações. As habitações populares, construídas pelo Estado através das Políticas Nacionais de Habitação para as populações carentes, tampouco asseguram um conforto térmico interior, seja pelo tamanho ou pela estrutura e materiais.

Nas metrópoles, há os que podem buscar refúgio no ar condicionado, tanto em casa, no trabalho e nos veículos particulares, ou no lazer, em áreas igualmente refrigeradas, como shoppings, clubes de campo, com áreas verdes, piscinas e bares e restaurantes climatizados.

Para os que trabalham e residem nestas condições, o trajeto de casa para o trabalho pode nem sequer ser afetado pelo calor: basta descer do apartamento para a garagem, entrar no carro com ar condicionado e seguir direto para o estacionamento do trabalho, entrar no elevador e seguir para o escritório com temperatura agradável. Ainda assim, mesmo essa parcela privilegiada, que vive, trabalha e se diverte sob o ar refrigerado, é uma minoria; ainda há os que, mesmo com poder aquisitivo que lhes permite viver sob maior conforto térmico, sofrem com os efeitos do calor.

Nesse sentido, dizemos que há realidades distintas em grandes cidades para pelo menos dois tipos de população: aquela que pode pagar pelo conforto térmico, seja em casa, no transporte ou no trabalho, e a outra, que é aquela que sofre diretamente os efeitos das mudanças climáticas, especialmente as que estamos vivenciando no Brasil: ondas de calor cada vez mais intensas e cada vez mais próximas das outras. Os desafios climáticos presentes nas metrópoles são conhecidos, porém deve ser mencionado que há uma diferença muito grande para aqueles que vivem entre esses dois blocos distintos e como sentem e reagem aos rigores da temperatura elevada.

Conforto térmico

Segundo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações da Universidade Federal de Santa Catarina, o conceito de conforto térmico está relacionado à “condição global de uma pessoa na qual ela não prefira sentir nem mais calor, nem menos frio”, significando uma sensação total “de bem-estar físico e mental que expressa satisfação com o ambiente térmico ao seu redor”. Transformar as grandes cidades, construídas em concreto e asfalto, envoltas em poluição atmosférica e com poucas áreas verdes, em espaços visual, térmica e atmosfericamente agradáveis é um grande desafio que se impõe aos gestores e planejadores urbanos. O conforto térmico está em ambientes fechados, que pode ser controlado, mas também em ambientes externos. É nesse sentido que o planejamento urbano adequado às necessidades climáticas atuais pode atuar de forma a transformar os espaços abertos em áreas termicamente frescas e agradáveis. Rossi, Kröger e Bröder, autores da pesquisa sobre conforto e desconforto térmico em espaços abertos, afirmam que estes estão ligados ao planejamento urbano e que “independentemente de seu uso, a avaliação e a compreensão do conforto térmico nesses espaços podem auxiliar a melhoria da qualidade urbana, influenciando positivamente o uso e o comportamento das pessoas”.

A configuração espacial das grandes cidades

Com algumas variações, as metrópoles são configuradas por elevado índice populacional, alta densidade demográfica, predominante verticalização, tráfego intenso, poluição atmosférica, território tomado por betume, rios canalizados ou transformados em áreas de despejo de esgoto ou resíduos industriais. Em geral, a arborização viária, parques e áreas de lazer verdes não são suficientemente adequados para proporcionar conforto térmico e grandes edificações de concreto absorvem o calor durante o dia transformando o espaço urbano em ilhas de calor. A falta de planejamento urbano, a ocupação desordenada, a ausência de arborização viária adequada e de áreas verdes transformam alguns espaços das metrópoles, especialmente os periféricos, em verdadeiras estufas, enquanto que os lugares densamente construídos, verticalizados e asfaltados consolidam-se como grandes ilhas de calor.

A poluição, tanto de automóveis como industrial cria uma bolha que envolve as cidades, gerando calor e tornando o ar quente e seco. As altas edificações de concreto com janelas de vidro, transformam o ambiente interno em locais plugados no ar condicionado todo o tempo, gerando grande gasto de energia.

As cidades foram construídas a partir de espaços segmentados, com bairros planejados e estruturados por construtoras privadas para a comodidade e segurança de habitantes de alto poder aquisitivo. Nesses bairros, há o fomento de um comércio local bem suprido de supermercados, restaurantes, farmácias, hospitais, e de uma rede comercial extensa, possibilitando aos moradores um deslocamento a pé ou de bicicleta por ruas e alamedas arborizadas. No outro extremo, a população de baixa renda foi sendo empurrada para periferias sem qualquer tipo de planejamento, sem vias adequadas de circulação e com transporte precário. O amontoamento de moradias improvisadas, praticamente sem separação umas das outras, impedem a circulação de ar e aumentam a sensação de calor e desconforto térmico, além do material inadequado de construção. São imensos espaços sem quintais, sem áreas verdes, sem arborização nas vias públicas que possam gerar sombreamento e diminuição da sensação de calor. Soma-se a isso a alta densidade populacional nesses núcleos de habitação.

Os autores Löw e Nader (2019) analisam o comportamento térmico em uma das primeiras comunidades da cidade de São Paulo, a de Vila Prudente, e confirmam a necessidade de se pensar no todo, na área interna e também externa à moradia, além das formas de se otimizar o conforto térmico em relação ao habitante.

 Chão de estrelas

Orestes Barbosa e Silvio Caldas há décadas descreveram de forma bastante romântica a vida em um barracão na periferia, de como “a lua furando o nosso zinco salpicava de estrelas o nosso chão”. A realidade, porém, é bem diferente dessa canção clássica: os barracões das comunidades periféricas, construídos com todo o tipo de material encontrado, transformam a vida de quem precisa viver ali em uma caldeira fervente. Além de desconforto térmico vindo da fragilidade do material de construção, do teto na maioria das vezes muito baixo e de material que absorve muito calor, da falta de água encanada, essas moradias não raramente abrigam famílias inteiras em um único cômodo, levando a conjunção desses fatores a um patamar muito mais severo o significado de ondas de calor. Acrescentamos ainda que muitos desses habitantes se deslocam por horas no transporte público superlotado e quente no trajeto de ida e volta do trabalho, e as poucas horas que têm para descansar e dormir antes de iniciar novo ciclo, muitas vezes são perturbadas pela incapacidade de ter um sono confortável e reparador dadas as condições térmicas do ambiente.

Vamos encarar os fatos: as temperaturas extremas não são mais um fenômeno de um dia, uma semana ou um mês. Se há algo que une nosso mundo dividido, é que todos nós estamos sentindo cada vez mais o calor.

O trabalho operário sob o sol durante o calor intenso

Usar roupas leves e filtro solar; hidratar-se; evitar o sol entre 10 e 16 horas. Que bom se todos tivessem a oportunidade de seguir essas orientações. Porém, os que movem as engrenagens das grandes metrópoles nem sempre estão nos escritórios envidraçados com uma temperatura regular de 22 graus. A vida avança fora dos edifícios e muitos dos que fazem girar os motores da máquina urbana são os que estão sob o sol. Os operários da construção civil, os motoristas dos ônibus de transporte público, os que pavimentam ruas e constroem e reparam estradas, os operários da construção do metrô, os trabalhadores das redes de energia elétrica, e redes de água e esgoto, os que cuidam do departamento de jardinagem de praças e jardins, os carteiros, os  entregadores, os servidores de limpeza pública, os coletores de lixo, os agentes de mobilidade urbana e de trânsito, entre muitos outros. Quem está trabalhando sob o sol quando passamos de carro com os vidros fechados e com o ar condicionado do carro ligado? Por mais que as empresas sejam obrigadas a disponibilizar equipamentos de proteção individual (EPIs) para os operários, como, por exemplo, filtro solar, óculos de sol e capacetes para os que trabalham sob o sol, o desconforto de roupas de material sintético, áspero e grosseiro, luvas espessas, proteção para o rosto, capacetes e botas grossas e pesadas tornam as atividades desses trabalhadores ainda mais desconfortáveis. Não seria o caso para a proposição de horários diferenciados para os trabalhadores que tenham que ficar expostas sob o sol intenso? Uniformes mais leves e de material mais confortável? Algumas empresas fazem isso, mas deveria passar a ser a regra, pois se trata da saúde desses trabalhadores.

Animais 

Os animais que vivem – sobrevivem – nas grandes cidades estão sujeitos a muitas intempéries: para os pássaros, as podas e os cortes indiscriminados destroem ninhos e causam a morte de muitos, aniquilam suas fontes de alimento, abrigo e repouso, acabam com suas poucas fontes de água que se originam nas gotas de orvalho. Já longe de seus habitats naturais, de onde foram expulsos pelo desmatamento, agora enfrentam a dificuldade de sobrevivência no ambiente urbano cada vez mais hostil a eles. Os animais maiores, como cães e gatos, muitos deles descartados pelos tutores nas ruas e estradas, vagam à procura de alimento e água; pequenos roedores, borboletas, abelhas, vespas, calangos, aranhas, vão perdendo seus espaços. O ambiente das metrópoles vai ficando cada vez mais cinza, quente, sem vida, seco.

Por um futuro menos sombrio

Esse cenário cercado por asfalto escaldante e concreto pode ter um futuro menos sombrio. Algumas iniciativas podem auxiliar as grandes cidades a tornarem-se menos áridas e mais acolhedoras. Um primeiro passo seria tornar esses espaços gigantescos em áreas mais humanizadas, mais iluminadas, providas de transporte público menos poluidor, menos barulhento, mais ágil e mais acessível; promover os pequenos comércios de bairro, evitando longos e desnecessários deslocamentos; acolher espaços verdes, com mais parques, avenidas arborizadas, e trocar, onde for possível, a massa asfáltica por blocos que permitam maior permeabilidade; implantação e espalhamento dos jardins de chuva; programas de coleta seletiva mais eficiente, com reciclagem de fato, impedindo que material de lixo acabe levado para bueiros e bocas de lobo; iluminação das cidades, permitindo à população uma vida que possibilite um maior trânsito noturno de lazer e trabalho com mais segurança; viabilizar as redes hidroviárias para transporte e transformação das margens de rios, riachos e lagos em áreas de lazer; olhar para a população menos favorecida; implantar hortas comunitárias e espaços de restaurantes populares; incentivar o plantio urbano de alimentos orgânicos; programas de educação ambiental para esclarecer a população sobre meio ambiente, alimentação livre de agrotóxicos, respeito aos animais e à natureza. No lugar de ilhas de calor, jardins de chuva.

Nada do que foi dito é uma novidade, porém o tempo passa e pouca coisa é feita. A educação pública ambiental ajuda a esclarecer a população sobre os seus direitos ambientais e também a cobrar – de quem cobrar, como e onde cobrar dos legisladores o cumprimento de promessas não realizadas. Uma das funções do jornalismo ambiental é ampliar esse debate, que não vemos na mídia comercial.

Referências

BONDUKI, N. Os pioneiros da habitação social – v. 1: cem anos de construção de política pública no Brasil. São Paulo: Unesp / Sesc, 2017. 387 p.

LÖW, Jordana Letícia e NADER, Gilder.  Esfera microclimática: ventilação, conforto e moradia. Revista IPT Tecnologia e Inovação v.2, n.10, abr., 2019.

PORANGABA, Alexsandro Tenório. A habitação para a população de baixa renda no Brasil: termos e conceitos difundidos pela política nacional de habitação. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v.22, e202038, 2020, p. 20.  https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202038. Acesso em 12/03/2025.

ROMERO, Marta Adriana Bustos et al. Mudanças climáticas e ilhas de calor urbanas. Brasília: Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2019 – 1ª edição / Editora ETB. 151 p., p. 13. Acesso 01/03/25. http://researchgate.net/publication/333466480_mudancas_climaticas_e_ilhas_de_calor_urbanas. Acesso 01/03/2025.

ROSSI, Francine Aidie; KRÖGER, Eduardo Leite; BRÖDE, Peter. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 2, n. 1, p. 41-59, jan./mar. 2012, p. 42. Disponível em http://scielo.br/j/ac/a.  Acesso em 13/03/2025

Links

https://urbe.me/lab/em-30-anos-a-populacao-urbana-mundial-deve-ultrapassar-as-6-mil-milhoes-de-pessoas

https://unric.org/pt/onu-preve-que-cidades-abriguem-70-da-populacao-mundial-ate-2050/

https://www.agenciacidades.com.br/curiocidades/o-mundo-tem-457-cidades-com-mais-de-1-milhao-de-habitantes/18

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202038

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202038

http://labeee.ufsc.br/linhas-de-pesquisa/conforto-termico

https://brasil.un.org/pt-br/-calor-extremo-comentarios-do-secretario-geral-da-onu

http://capital.sp.gov.br/web/subprefeituras/w/noticias

 

* Andréia Terzariol Couto é jornalista e pós-doutora pela ECA-USP