Eles estão por todos os lados. Eles estão dentro de nós

Não é um alien de ficção científica, mas um material muito presente no nosso cotidiano: os micro e nanoplásticosplásticos

Os nanoplásticos no organismo humano

Muito se tem falado sobre os impactos do descarte plástico na natureza e como isso tem afetado o meio ambiente. Nem sequer chegamos perto de resolver o problema do descarte incorreto de resíduos plásticos e somos surpreendidos pelas pesquisas que mostram os perigos invisíveis dos microplásticos (MP) – e nanoplásticos ou micro-nanoplásticos – MNP – no corpo humano. Essas micropartículas, invisíveis a olho nu, instalam-se no corpo humano, e, pela corrente sanguínea, são carregadas para diversos órgãos, como no cérebro, e presente até no leite materno.

A cultura ocidental está se criando na sensação de que o plástico é um mal necessário, insubistituível. Algumas ações tentam implantar no consumidor sobre seus perigos, primeiro para a natureza e agora para a saúde humana. Ele não apenas está por todos os lados, em todos os lugares do planeta, como agora atravessou o fosso e invadiu o castelo do rei: está se imiscuindo perigosamente pelo corpo humano. De acordo com pesquisas feitas por Garcia (2023, p. 10),

Os MP chegam até os seres vivos por várias vias de acesso: ingestão, através da água, moluscos, crustáceos, cerveja, açúcar, sal, mel e leite, ou pela contaminação durante os processos de produção de alimentos, pelo envasamento de alimentos e bebidas. Podem aceder através do tecido linfático por fagocitose ou endocitose e chegar às células, que, por sua vez, podem juntar em sua superfície macromoléculas presentes no trato digestivo (principalmente proteínas), formando uma estrutura conhecida como “coroa de proteínas”, dando a estas partículas uma falsa identidade como molécula biológica, dificultando serem detectadas pelo sistema imunológico e células fagocíticas [ou fagócitos], prolongando assim sua permanência no organismo e maior trânsito no interior das células. Alguns dos efeitos da presença de MP no corpo humano referem-se às alterações no sistema reprodutivo, podem deslocar-se para tecidos distantes através do sistema cardiovascular, em momentos de inflamação, dada a maior permeabilidade das barreiras celulares, como fígado ou rim.

Assim os microplásticos estão não apenas por todos os lugares do planeta como também se acumulam em vários órgãos humanos, na forma de nanoplásticos. Estão também nos organismos dos animais marinhos e terrestres. Além da onipresença dos microplásticos, estudos recentes revelam algo ainda mais assustador: a resistência das bactérias que têm contato com microplásticos a diversos tipos de antibióticos, como mostra uma pesquisa conduzida na Universidade de Boston. Pesquisadores dessa instituição descobriram que bactérias expostas a MP estão se tornando mais resistentes a antibióticos usados para tratar infecções. Embora os microplásticos estejam em regiões de todo o planeta, são as regiões mais pobres, sem saneamento adequado – portanto, onde vivem as populações mais vulneráveis e sujeitas a doenças que precisam ser tratadas com antibióticos – que sofrerão os impactos dessa descoberta. Os estudos são liderados por Muhammad Zaman, professor de engenharia biomédica da Faculdade de Engenharia da Boston University e diretor do Centro de Deslocamento Forçado da BU. Ele pesquisa a relação entre a resistência antimicrobiana e a saúde de refugiados e migrantes, mostrando uma preocupação de risco maior entre comunidades desfavorecidas. Neila Gross, doutoranda em ciência e engenharia de materiais da BU e principal autora do estudo, afirma que “os plásticos fornecem uma superfície à qual as bactérias se fixam e colonizam”, e uma vez que aderem a qualquer superfície, criam um biofilme, uma estrutura que as protege e as ajuda a se manterem em segurança sem serem atacadas.  Apesar de poderem prende-se a qualquer superfície, a pesquisadora observou que os biofilmes bacterianos ficaram sobrecarregados de microplásticos, impedindo que os antibióticos adicionados à mistura conseguissem penetrar o escudo. De acordo com Zaman, o plástico, além de formar uma superfície para a desão das bactérias, levam ao desenvolvimento de organismos resistentes aos medicamentos, mostrando que os plásticos são, além de resistentes, adaptáveis, segundo Gross. Uma dos motivos é que os plásticos repelem água e outros líquidos, permitindo que as bacterias possam melhor se fixar, porém, com o passar do tempo, os MP passam a absorver umidade, o que significa que os MP absorvem os antibióticos antes de atingirem as bactérias, tornando-os verdadeiros escudos. E mais: os pesquisadores perceberam que, mesmo quando os microplásticos foram removidos,  “as bactérias que eles abrigavam mantiveram a capacidade de formar biofilmes mais fortes”.

Segundo pesquisas do Instituto Oceanográfico da USP, conduzidas pelo professor Alexander Turra, “hoje temos grande dificuldade para entender o mundo das nanopartículas. (…) Não dispomos de tecnologia para fazer o monitoramento dessas partículas nem conhecimento sobre seus efeitos nos ecossistemas e na biodiversidade.” Segundo reportagem da Revista Fapesp, “além de fragmentos microscópicos, há aqueles cuja dimensão está na escala de nanômetros (menores que 1 milésimo de milímetro), capazes, em tese, de entrar na corrente sanguínea e atingir órgãos como fígado, rins e cérebro.

Enquanto o material plástico estava inundando os oceanos e matando a fauna marinha, o assunto fazia parte do “bom, está distante, não me impacta”, o debate permanecia numa esfera longe do imaginário do consumidor, que continua recolhendo vorazmente as sacolinhas no supermercado para seu estoque de necessidades de “não vivo sem”. O perigo, agora, mudou de patamar: estamos consumindo esse material de forma invisível, através da água potável, da contaminação dos alimentos ultraembalados, pelo leite materno, e ele vai se alojando silenciosamente pelo corpo humano causando danos alguns ainda insuspeitos. Fala-se, por exemplo que, alojados no cérebro, podem estar ligados à demência;  no coração, infarto; nas visceras, problemas renais e de fígado.

A poluição do material plástico que está nos oceanos, nos pólos, nas florestas e desertos

O geógrafo e pesquisador moçambicano Manuel Taque cursa atualmente o doutorado na Unicamp em Geografia com especialização em dinâmica territoral. Graduado em Geografia, pós-graduado em desenvolvimento agrário pela Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique), Mestre em Aquicultura e Recursos Pesqueiros pela Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), atualmente cursa o doutorado no Instituto de Geociências, sob a orientação do professor Dr. Roberto Greco. A pesquisa que desenvolve, bastante atual, trata de “compreender a distribuição e incidência dos microplásticos nos litorais paulista, nos municípios de Santos e Guarujá, no Estado de São Paulo e  nas praias da Costa do Sol e Katembe em Maputo, no litoral da costa moçambicana”. De acordo com Manuel, seu interesse pela pesquisa sobre microplásticos foi despertado pela necessidade de buscar novas soluções e respostas pela demanda cada vez maior do uso de plásticos, além da necessidade de mitigar os impactos na fauna marinha e terrestre, “assim como as várias relatividades associadas a elas”.  O pesquisador afirma que esse problema, que é mundial, afeta também seu país, Moçambique, pois assim como o Brasil, por serem países à jusante de vários rios, são receptorers de vários materiais que advêm do continente que no fim terminam na costa ou litoral, esses países apresentam um sistema deficitário de recolha e gestão de lixo. Seria impossível conseguir enumerar as várias atividades e iniciativas em curso que estão a ser desenvolvidas em Moçambique, porém ficam dois marcos de grandes iniciativas do país que estão a serem levadas a cabo pelo instituto oceanográfico de Moçambique que são: a identificação e mapeamentos das áreas de maior concentração de resíduos plásticos ao nível da costa do oceano Índico, concretamente na linha de costa. 

Antes de pensarmos sobre o que fazer com o descarte descontrolado de plásticos mundo afora, a questão principal é referente à produção e consumo de material. Mesmo que o cidadão comum adote uma postura consciente de pouco ou não consumo de  material plástico, sua produção segue de forma acelerada. O vilão é a indústria do plástico, inserida na cadeia de produção do sistema capitalista, considerando que o mundo moderno parece ligar o  lucro da cadeia produtiva em torno de materiais plásticos, portanto, uma diminuição nesse sentido parece quase impossível, pelo menos a curto prazo. O pesquisador Taque, considera o que poderia ser feito em larga escala sobre essa questão: “o primeiro passo seria os Estados compreenderem e perceberem esta demanda como sendo uma ação não isolada de cada país, mas sim de todos, pois os mares e oceanos e rios se comunicam”. Ele mostra certo ceticismo em relação ao impacto que ações individuais sobre a diminuição do consumo de produtos plásticos poderiam ter em um nível global, pois “o capital muito das vezes tem falado mais alto, e estamos em uma era do consumismo, então seria um paradoxo para mim afirmar categoricamente que a e indústria e comércio não buscam maximizar o lucro, e logicamente isso terá um impacto no consumo individual”.

Embora pareça claro que a indústria que gera e distribui o material seja a grande responsável pela inundação de material plástico no planeta, é certo que as ações individuais são importantes, bem como iniciativas para mitigar o lixo plástico. A partir do momento em que o cidadão reconhece a importância de realizar ações de consumo consciente, essas ações geram um movimento, que também é um movimento ético, educativo e político, que reverbera, de alguma maneira, em impactos positivos. No entanto, é importante salientar que o engajamento maior do cidadão, nessa esfera, é posicionar-se de forma crítica sobre essa questão, tomando consciência e participando nos debates políticos sobre as ações predatórias ao meio ambiente. Paralelamente às ações individuais, posicionar-se de forma crítica nesse debate junto à sociedade civil e órgãos responsáveis é fundamental, bem como cobrar das instâncias governamentais políticas públicas sobre essa questão.

Em alguns países, o uso de sacolas plásticas é limitado, por exemplo, em supermercados e outros comércios, sendo essa limitação feita através da cobrança por sacolas ou ofertando outros materias, como caixas de papelão, sacolas reutilizáveis – que são pagas, ou ainda simplesmente proibindo seu uso.

Na esfera individual, há ações que defendem o não uso de vasílhas plásticas na cozinha, principalmente se são levadas ao microondas – a aternativa seriam as  de vidro, porém o custo para grande parte da população torna essa substituição inviável. Na geladeira, tecidos impermeabilizados com cera de abelha podem ser usados (e reutilizados) para embalar legumes e verduras no lugar dos filmes PVC e sacos plásticos; nas lixeiras de banheiro, sacolas de papel reaproveitadas da padaria, por exemplo, entre tantas outras possibilidades para minimizar o uso de plásticos no cotidiano doméstico. Além, é claro de carregar as sacolas retornáveis a cada ida às compras.

Em nível  global, segundo Manuel, uma alternativa ideal ao uso do plástico, em escala industrial, comercial e doméstica “seria uso de produtos biodegradáveis, pois cada país tem os seus modelos de educação e gestão de resíduos”. Os PLA (poliácido lático), mesmo sendo materiais biodegradáveis com origem natural, é um polímero termoplástico feito a partir de amido de milho, cana-de-açúcar ou mandioca, mas ainda gera impacto ambiental. Para ele, “quaisquer produtos derivados de transformação geram impactos ambientais, embora alguns em menor escala, mas sempre teremos transformações”.

É bem difícil se livrar da cultura do plástico. São onipresentes. Nos supermercados, padarias e mesmo em feiras orgânicas, verduras, legumes e frutas são vendidos embalados em plástico, muitos são colocados em bandejas de isopor e embalados com várias voltas com filmes PVC. Se for um mercado mais elitizado, as frutas e legumes aparecem nas gôndolas descascados e fatiados em caixas plásticas. Mesmo quando aderimos ao chamado que diz  “descasque mais e desembrulhe menos”, incentivando o consumo em feiras e mercados de produtos in natura ao invés de processados,  encontramos os produtos hortifrutigrangeiros embrulhados em plástico filme.

Em um país cujo índice de reciclagem ainda é baixo, um dos desafios, por exemplo, é acabar com a oferta gratuita das sacolas plásticas (e/ou sua total supressão) dos supermercados, uma tarefa que demanda uma série de ações, além da resistência dos consumidores e do lobby da indústria que produz esse item. Uma delas é investir pesadamente em campanhas de conscientização do público. Ligado a isso, está a difícil tarefa de mudar um hábito arraigado na nossa cultura: a) se é grátis, posso usar à vontade; b) as sacolinhas de supermercado, ofertadas livremente, fazem parte do cotidiano das famílias brasileiras, seja para embalar produtos que vão à geladeira, seja para colocar nas lixeiras domésticas ou recolher as fezes dos cachorros nos seus passeios diários, entre tantos outros usos. Usados indiscriminadamente, esses produtos, muitos já contaminados após o uso caseiro, vão diretamente para o lixo orgânico e acabam nos lixões ou aterros sanitários, ou outro descarte irregular. Como a maioria não é biodegradável, o impacto na natureza é grande. Para o geógrafo Manuel Taque, os impactos dos microplásticos causam estragos tanto nos oceanos quanto na parte continental,  pois ambos os espaços sofrem pressões, além de a limpeza nos oceanos ser muito mais dispendiosa, quando comparada com a parte continental.

Mas não são apenas as sacolas, mas todo o tipo de material plástico disponibilizado para o consumidor no dia a dia, que dão a sensação, principalmente no setor alimentício, que não há outra solução senão embrulhar, embalar, empacotar com o material plástico: é barato, higiênico, descartável, impede a contaminação.

Enquanto a produção industrial e a publicidade continuarem jogando para o consumidor a necessidade do uso do plástico e a educação ambiental não tratar o assunto para além da responsabilização do indivíduo – a pauta marrom  – nada vai mudar.

Ou seja, os micro e nanoplásticos são uma verdadeira ameaça à saúde humana e planetária. Para o pesquisador Taque, “se os humanos não mudarem o seu comportamento e gestão dos seus resíduos sólidos a longo prazo teremos esses problemas, é importante frisar que não se tem amplitude geral da presença das partículas no organismo humano, pois seus estudos se mostram muito recentes e que ainda demandam de maiores e melhores métodos de estudo e pesquisa”.

Para o professor do Instituto de física da USP e pesquisador sobre as mudanças climáticas, embora a contribuição individual  seja pequena e de pouco impacto, ela é necessária; todavia o que precisamos mesmo é de políticas públicas, não apenas no nosso país, mas de forma global para a construção de uma sociedade sustentável.

* Andreia Terzariol Couto é jornalista e pós-doutora pela ECA-USP