A violência que habita as bordas

A violência de gênero atravessa todas as classes sociais, idades e etnias. Mas se mostra ainda mais cruel quando atinge mulheres que vivem nas bordas do sistema: periferias, trabalhos precarizados, situações de vulnerabilidade. É nesse espaço invisibilizado que a violência se intensifica, sobretudo durante a fase reprodutiva, quando o corpo feminino é alvo de múltiplas pressões sociais e simbólicas.

Essas mulheres são silenciadas pela ausência de políticas públicas eficazes e pela naturalização do sofrimento em contextos marcados por desigualdades históricas. A pandemia global da violência de gênero é uma realidade às escuras, sustentada por estruturas patriarcais que atravessam culturas e tempos.

Em 2024, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, uma vítima a cada seis minutos. Esses números, contudo, representam apenas os registros oficiais, deixando de fora a imensidão de casos não notificados. Quase nove em cada dez vítimas são mulheres, o que mostra como a violência sexual permanece como instrumento de opressão.

No mesmo ano, o país contabilizou 1.450 feminicídios, em crescimento em relação a 2023. Atrás de cada número, vidas interrompidas e famílias devastadas. O feminicídio é a face extrema de um ciclo que começa, muitas vezes, de forma invisível.

Mais de 630 mil medidas protetivas foram solicitadas com base na Lei Maria da Penha, das quais mais de 555 mil foram concedidas. Mesmo assim, mais de 18% foram descumpridas, revelando a fragilidade das redes de proteção e a urgência de ações mais efetivas, especialmente para as mulheres que vivem nas bordas do sistema.

* Kátia Bizan é professora e pós-doutoranda na ECA-USP