Que a vergonha mude de lado

A frase dita por Gisèle Pelicot, ao confrontar publicamente a violência que sofreu — “a vergonha deve mudar de lado” — não é apenas um gesto individual de coragem. É uma ruptura simbólica. Um deslocamento necessário em uma cultura que, historicamente, ensinou mulheres a carregar o peso da violência que sofreram, enquanto absolve — ou silencia — aqueles que a praticam.

Uma investigação da CNN publicada em 26/03/2026, intitulada “Expondo uma ‘academia global de estupro’: em grupos chocantes, homens incentivam uns aos outros a drogar e agredir suas esposas — e trocam dicas para sair impunes”, trouxe um dado inquietante: conteúdos digitais que promovem misoginia e ensinam práticas de violência contra mulheres alcançaram cerca de 62 milhões de acessos. Não se trata de casos isolados, mas de uma circulação massiva de discursos que normalizam, ensinam e legitimam a violência.

O dado impõe um deslocamento incômodo no debate público. Durante anos, insistiu-se na ideia de que a violência de gênero é exceção, desvio, patologia individual. Mas o que acontece quando milhões de acessos revelam que esses conteúdos não apenas existem, mas encontram audiência, engajamento e continuidade?

O problema deixa de ser individual. Passa a ser estrutural.

Esses espaços digitais funcionam como verdadeiras pedagogias da violência. Neles, homens não apenas consomem conteúdos misóginos, mas aprendem, compartilham e refinam práticas de dominação. Há uma dimensão didática nesse processo — uma aprendizagem social da violência — que transforma o ambiente digital em um dispositivo ativo de reprodução do patriarcado.

Mas essa dinâmica não ocorre no vazio. Ela é mediada, organizada e amplificada por plataformas digitais que operam por meio de algoritmos orientados ao engajamento. Conteúdos que provocam choque, indignação ou excitação tendem a circular mais, independentemente de seu caráter violento ou ilegal. Nesse cenário, a misoginia e a violência não apenas encontram espaço — elas podem ser impulsionadas. A ausência de regulação eficaz e a moderação insuficiente não são neutras: contribuem diretamente para a expansão dessas redes e para a normalização de práticas violentas.

E não se trata de um fenômeno distante ou abstrato.

No Brasil, estudantes da Universidade Federal do Paraná denunciaram a existência de grupos virtuais utilizados para realizar apostas sobre estupros que seriam cometidos contra universitárias. O caso, revelado pela CNN Brasil em 27/04/2026, explicita de forma brutal como esses espaços digitais operam não apenas como locais de circulação de discursos, mas como ambientes de organização concreta da violência.

E isso nos obriga a encarar uma questão difícil: a violência contra a mulher não começa no ato extremo. Ela começa antes — no discurso.

Na naturalização do controle, na objetificação dos corpos femininos, na banalização da humilhação e, sobretudo, na construção coletiva de uma cultura em que a violência pode ser ensinada, incentivada e, pior, legitimada entre pares.

A chamada “academia do estupro” não é apenas um grupo.

É um sintoma. Um sintoma de uma cultura que ainda permite que a violência circule como linguagem compartilhada, como prática ensinável, como estratégia possível.

Esse cenário ajuda a compreender porque o silêncio persiste. Muitas violências não chegam sequer a ser denunciadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em declaração à CNN, isso ocorre porque vítimas frequentemente sentem constrangimento, culpa ou uma responsabilidade percebida pelo que sofreram — além de, em muitos casos, lidarem com memórias fragmentadas do abuso. O silêncio, aqui, não é ausência: é efeito de uma estrutura que desloca a vergonha para quem sofreu a violência, e não para quem a cometeu.

É nesse ponto que a frase de Gisèle Pelicot ganha sua dimensão mais profunda.

Se a vergonha muda de lado, muda também a lógica que sustenta o silêncio.

Porque o que esses espaços digitais revelam não é apenas a existência da violência, mas a sua socialização. Eles expõem que não estamos diante de exceções, mas de redes de validação mútua que transformam a violência em prática coletiva — frequentemente sustentadas por infraestruturas tecnológicas que ainda operam sem responsabilização proporcional ao impacto que produzem.

E enquanto a vergonha continuar recaindo sobre as vítimas, essas redes seguirão operando com conforto, anonimato e impunidade simbólica.

Mudar o lado da vergonha, portanto, não é apenas um gesto discursivo.

É uma estratégia política.

Significa deslocar o foco da pergunta — de “por que ela não falou?” para “por que eles se sentem autorizados a fazer?”.

Significa também questionar quem lucra, quem distribui e quem permite que esses discursos circulem em escala.

Porque, diante de 62 milhões de acessos, já não é mais possível dizer que não sabíamos.

* Kátia Aparecida Bizan França é pós-doutoranda na ECA-USP