A recente repercussão envolvendo a proposta de um curso sobre masculinidade apresentada pelo ator Juliano Cazarré reacendeu os debates sobre o lugar que discursos masculinos vêm ocupando nas plataformas digitais. Mais do que um episódio isolado, o caso evidencia um fenômeno contemporâneo mais amplo: a transformação da masculinidade em produto simbólico, mercado discursivo e performance pública nas redes sociais.
Nos últimos anos, multiplicaram-se cursos, mentorias, podcasts e conteúdos digitais voltados a ensinar homens a “recuperarem” sua masculinidade, fortalecerem sua autoridade ou redefinirem seus papéis sociais. Em muitos casos, esses discursos surgem acompanhados de promessas de desenvolvimento emocional, espiritualidade, liderança familiar e resgate de valores considerados tradicionais.
Nesse enquadramento, também ganharam força comunidades digitais associadas ao universo red pill, que frequentemente difundem interpretações sobre relações de gênero marcadas por ressentimento, hierarquização das relações afetivas e discursos de reação aos avanços feministas. A masculinidade deixa então de aparecer apenas como identidade social para tornar-se também experiência performática, narrativa de consumo e produto comunicacional, impulsionado pela lógica das plataformas digitais, da monetização da influência e da economia da atenção.
Esse movimento não surge por acaso. Ele acompanha transformações profundas nas relações de gênero, especialmente diante da ampliação dos debates feministas e das discussões públicas sobre violência contra as mulheres, desigualdade e poder. Em meio a essas mudanças, parte dos homens passa a buscar novos referenciais identitários capazes de reorganizar simbolicamente seu lugar social em um cenário de instabilidade e redefinição dos papéis tradicionais.
O problema, no entanto, não está no fato de homens discutirem masculinidade. Debater emoções, paternidade, relações afetivas e comportamentos masculinos pode ser importante e necessário. A questão central talvez esteja na forma como determinados discursos transformam experiências coletivas complexas em mercados de aconselhamento, autoridade e influência digital. Quando masculinidades passam a ser ensinadas como fórmula, método ou modelo ideal de conduta, corre-se o risco de simplificar questões estruturais relacionadas às desigualdades de gênero e recentralizar novamente a experiência masculina em debates historicamente atravessados pela violência contra mulheres.
As plataformas digitais desempenham papel fundamental nesse processo. Redes sociais, vídeos curtos, podcasts e ambientes de monetização favorecem a circulação de figuras públicas que ocupam posições de autoridade simbólica diante de grandes audiências. Nesse ambiente, não é apenas a mensagem que importa, mas a construção de uma imagem pública de legitimidade, autenticidade e liderança moral. A masculinidade passa então a ser performada diante das câmeras, transformando experiência pessoal em conteúdo, identidade em marca e discurso em capital simbólico.
Esse cenário revela também como as dinâmicas contemporâneas da comunicação digital vêm reorganizando formas de influência social. Hoje, discursos sobre comportamento, relacionamentos e identidade circulam menos por instituições tradicionais e cada vez mais por influenciadores, celebridades e produtores de conteúdo capazes de construir vínculos de proximidade emocional com suas audiências. A autoridade deixa de depender exclusivamente de formação acadêmica ou especialização técnica e passa a ser mediada por engajamento, visibilidade e capacidade de mobilizar narrativas de identificação.
Mais do que discutir um caso específico, o debate revela tensões importantes sobre comunicação, poder simbólico e disputas de narrativa no ambiente digital contemporâneo. Em tempos de plataformas, algoritmos e economia da atenção, talvez a questão mais importante não seja apenas quem fala sobre masculinidade, mas de que forma determinados discursos transformam experiências sociais complexas em performances públicas de autoridade, influência e consumo.
* Kátia Aparecida Bizan França é pós-doutoranda na ECA-USP.

