Entre as insurgências e as desigualdades históricas

As lideranças populares são criadas através da revolta social em sua subjetividade ou através da demanda de um processo político e histórico em busca de determinada organização? Podemos analisar – conforme a conjectura política em questão – que a insurgência é uma medida necessária e que se configura em um estado de sobrevivência? Como o Capital em sua contemporaneidade é capaz de gerar violência a grupos específicos, ao mesmo tempo que produz críticos capazes de abaterem seus algozes expondo seus próprios escrúpulos?

Sempre acho válido iniciar um texto através de indagações, logo, de uma série de perguntas, haja vista que dentro do mundo acadêmico sempre estamos rodeados de convicções que se apresentam como a mais pura verdade possível, mesmo não sendo exatamente. As distinções daquilo que é aceitável ou não no “mundo da escrita” se restringe a herança de pensamentos eurocêntricos, onde os textos escritos segundo as observações daqueles que muitas vezes são apenas objetos de estudos, passam a possuir notória fineza quando estimulam a criticidade dos leitores assíduos. Entre linhas e linhas os demagogos do marxismo ortodoxo – os verdadeiros propagandistas da falsa ideologia economicista, e do derrotismo – surfam as mentes vazias e deturpam a potencialidade da crítica marxista – ou melhor – a minimizam para os cálculos e classificam as lutas populares do século XXI como cultura woke.

Vendem a ideia de um mundo que poderá ser alterado caso nossa atenção esteja apenas veiculada para o caso dos “entraves econômicos de nossa sociedade”, sem levar em conta as desigualdades raciais e de gênero tão pulsantes em nosso país, por exemplo. Não há possibilidade para esses sujeitos. Apenas enxergam aquilo que querem, quando querem. Estão devidamente cegos por suas leituras, interpretam a cruel e sanguinária realidade brasileira pela ótica de uma sociologia europeia, empreitada essa que foi altamente criticada por ninguém mais ninguém menos que Alberto Guerreiro Ramos, um homem negro, baiano, sociólogo, que somente obteve seu devido reconhecimento com aspas de forma póstuma, ou seja, após cumprir seu trajeto em meio a esta sociedade, expondo as realidades plurais e desiguais deste nosso país.

No Brasil a realidade social não consegue ser mascarada, é amplamente evidente, e isso é um fato consumado. Ao ponto que qualquer análise sociológica e histórica que não seja precisa para denunciar tais fatos, nada mais é que uma escolha, uma adesão a abstenção, sobre fechar os olhos diante dos fatos que estão dados. Teríamos que averiguar um empenho absurdo do Estado burguês para conseguir esconder a tristeza de nascer entre às parcelas empobrecidas desse país, trago exemplos históricos e materiais aqui:

Como quando a figura do ex prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, eleito em Outubro de 2016, decidiu “maquiar” a Rocinha pintando cerca de 150 casas na cor cinza, dando a entender que parte dos problemas daquele lugar poderiam ser resolvidos pelas vias estéticas, e não econômicas ou sociais. No mesmo ano em que Crivella propõem sanar o problema da violência urbana com tinta, a polícia do Rio de Janeiro contrapropõem sua ação com uma pintura de sangue, sangue esse derramado na mesmíssima Rocinha, antes cinza, agora vermelha.

Maria Esperanza Ruiz Jimenez, uma turista espanhola de 67 anos é assassinada por nove disparos. A alegação foi de quebra de barreira, segundo os militares. Nessa relação social acerca da violência em si, a materialidade dos fatos se evidenciou, o idealismo de Crivella foi engolido vivo.

Naquele lugar todos os direitos foram negados. A fome, junto da miséria e da violência é a normalidade, a falta de saneamento básico é preponderante. A banalidade do desprezo entre os humanos é pulsante. A teoria de um Estado organizador – segundo Hobbes – ali se demonstra como uma farsa completa. Entre as vielas e os becos da Rocinha, pouquíssimo se escuta falar a respeito de democracia. Ninguém ali “bota fé” no voto, no sufrágio universal, pois para quem já viu seu próprio filho morrer com uma bala na nuca, a política se torna o inimigo público número um.

A falta de acesso a tudo indica que o descaso público atingiu o seu apogeu. A prática política de tais governos se resume sobre não levar em conta a vida e a integridade daquelas pessoas – distante disso – os cidadãos de uma favela só são notados durante o processo eleitoral, haja vista que somente a Rocinha agrega dezenove seções eleitorais, abrangendo eleitores da própria favela e do bairro vizinho, São Conrado.

Durante as eleições, as diferentes classes se encontram nas urnas, porém as mazelas permanecem.

A partir disso – dessa violência generalizada – algumas vozes ecoam, surgem em meio às cinzas como forma direta de denúncia: desde Marielle Franco a Jones Manoel, de Chico Mendes a Marçal de Souza Tupã. A reivindicação aqui se demonstra como objeto político posterior, pois a base da ação dessas pessoas é o próprio ambiente de violência onde elas estão inseridas. O ódio e a revolta popular se demonstram como assuntos inevitáveis. O descaso público ou a ação direta do braço armado do Estado se limitam a mecanismos geradores de agentes políticos revolucionários, algo que não estava previsto dentro do enredo gerido pelos agentes políticos da burguesia.

O Estado burguês brasileiro, por mais que se esforce cotidianamente para designar a não inclusão das parcelas desfavorecidas historicamente, dentro no cenário político real e decisivo, ou seja, da tomada verdadeira das ações práticas (do dito “exercício da cidadania”) não enxerga a verdadeira produção de sujeitos críticos que tem criado, uma leva de heróis nacionais que infelizmente não serão lembrados nos livros didáticos.

A historiografia oficial dificilmente recitará sobre a luta daqueles que tinham como norte a revolução social, o fim do capital espoliativo enquanto escopo das designações econômicas, sociais e políticas. Pois justamente a ótica normativa e cotidiana, não tolera figuras que se encaixam como ruptivas diante do capitalismo. As juventudes de centro esquerda são mais “polidas”, são mais aceitas, menos “agressivas”, mesmo que sejam ruins na oratória e possuam uma alma de um político em plena decadência encarnado em um corpo de vinte e poucos anos.

Enalteço aqui em específico as juventudes comunistas – como a UJS por exemplo – que sem dúvida representam a parcela de nosso país que menos tem e menos terá – a juventude que financeiramente está mais prejudicada devido os agravos desse sistema -, porém continua a resistir. A juventude brasileira infelizmente está fadada aquilo que foi designado por toque de caixa pela figura vil de Michel Temer, e sua reforma trabalhista que com toda certeza irá impactar na vida de tantos jovens, ao menos que continuemos a lutar pela devida mudança, por uma alteração radical.

O processo social em si, ou melhor, a progressão histórica que poderá ou não resultar em figuras de liderança, é de fato um fio condutor para a concretização da verdadeira práxis, da luta popular. Esta luta terá sim que possuir quadros de liderança, e isso é um fato que a própria história nos demonstra. Em momento algum pretendo eliminar do nosso foco os camaradas que lidam com a luta de forma menos direta – através das questões burocráticas talvez – mas pretendo aqui analisar o surgimento de certos nomes que tomam a frente de processos basilares.

Sobre o foco em demonstrar que quadros históricos podem se concretizar de forma voluntária, logo, designando sua vida para o processo revolucionário, devemos nos atentar sobre qual perspectiva histórica estamos a nos debruçar.

Por exemplo, quais foram os motivos primordiais da revolta enquanto militante socialista de Vladimir Lênin, líder da Revolução Russa de 1917? Podemos partir da análise que antes mesmo dos princípios de organização proferidos por Lênin a revolta sobre o poderio dos Romanov – diante de uma ditadura monárquica exercida por mais de três séculos – está direcionada em sentidos familiares, haja vista que seu irmão mais velho, Alexandre Ulynov – conhecido como Sasha – foi morto em praça pública, acusado de cumplicidade na tentativa de assassinato ao czar Alexandre III. Ou seja, na maioria das vezes, uma liderança política marxista ou minimamente radical, não surge apenas do próprio ambiente de nossa dita política institucional, mas sim do contato com aquilo que os políticos em questão são capazes de fazer com seu povo.

Lênin possuía uma revolta social interna que antecede a sua própria teoria.

Aqui não estou a defender que os processos violentos por parte do Estado são justificáveis, haja vista que novas lideranças irão surgir diante desse desfecho – ao contrário – demonstro que as falhas desse sistema político e econômico (que na realidade são as normativas) não calculam o nível de insurgentes que poderão aparecer, e que posteriormente tomarão a frente diante de um processo revolucionário, caso seja necessário.

Devemos nos atentar perante aqueles e aquelas que vivenciam o desalento, o descaso. A materialidade condiz com o nível de prática dos sujeitos em questão, e é nesse exato momento em que a teoria se mostrará eficaz, se concretizará em uma espécie de instrumento para as análises pertinentes, onde irão observar graças a uma ótica radicalizada, quais os parâmetros de nossa sociedade, ou até mesmo os limites do mundo enquanto divisão, enquanto casta e classe.

O cidadão que se revolta não possui outra escolha se não a análise minuciosa de sua própria revolta, o ódio é a última opção viável, e a organização deste mesmo fator psicossocial reduzido as agremiações políticas e partidárias torna-se a última parte de um processo tão longo e extremamente sensível de metamorfose do ser. O passado é solapado por as novas atribuições de valor, sobre os pilares cruciais da ideologia política. Os velhos argumentos que antes eram geridos pela família enquanto portadora de nossos pré-conceitos, serão tragados pelas observações extraídas das lutas em seu cotidiano. A revolta se difere do desprezo, desprezo esse que na maioria das vezes é sujeito imprescindível para a contrarrevolução dos odiosos da extrema-direita, que em determinado momento reconfiguraram suas insurgências pelo ódio deliberado as parcelas sociais pouco favorecidas.

É nesse exato momento que a teoria se demonstra como material eficaz para a interpretação de nossas realidades, pois aquele que não sabe como e para quem redirecionar o seu ódio, perde-se em conclusões que na maioria das vezes irão gerar determinado ataque as próprias vítimas do capitalismo. O caso comum das ovelhas que revoltadas com os abusos cometidos pelos lobos, acabam elegendo o próprio lobo como representante do rebanho, apesar dos pesares. Mesmo que não hajam justificativas as pessoas envolvidas nesse processo possuem certa cegueira, cegueira essa conduzida pela Ideologia, pelas mídias e setores comunicativos que praticam a deliberação dos ataques para aqueles que já não podem mais se defender.

Assim estamos a observar um mundo onde a compaixão pelo povo palestino parece de certa forma algo distante. Não me recordo do momento em que a mídia brasileira se voluntariou a expressar o desprezo necessário ao movimento sionista, mas consigo lembrar nitidamente quais foram as vezes em que optaram pela falsa neutralidade diante desse genocídio, haja vista as várias matérias em que o ataque aos palestinos por parte de Israel foi transfigurado como uma guerra comum, como se o lado palestino pudesse se defender de forma veemente.

Da luta do povo palestino historicamente surgem figuras rebeldes capazes de traduzir suas revoltas em práticas revolucionárias. Cito aqui – para níveis de exemplo – Ghassan Kanafani, escritor, jornalista, romancista e ilustre liderança palestina, cofundador da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP) que foi assassinado no auge de seus trinta e seis anos pelos mandos do Mossad em Julho de 1972. Kanafani tem em suas raízes revolucionárias o ímpeto de sua natureza paterna. Em quesitos de resistência, seu pai, Muhammad Fayiz Abd al Razzag, que enquanto advogado, atuou diretamente no movimento palestino nacionalista contra o colonialismo britânico. O jovem jornalista presenciou de perto as drásticas mudanças em sua vida após o Nakba, e por conseguinte a criação criminosa de Israel, e isso de fato refletiu para a sua atuação enquanto profissional e liderança da resistência palestina. A sua morte precoce só escancara como a crítica, mesmo que disposta a canetadas e escritas, realmente gera incômodo. Uma bomba fora instalada em seu automóvel naquele Julho de 1972. Kanafani e sua sobrinha, Lamees Najim, foram assassinados, mas seus pensamentos e suas obras literárias continuam vivas, para o descredito de muitos e para a alegria das gerações que poderão revolucionar e abalar as velhas e arcaicas ruínas desse sistema econômico ultrapassado.

* Renan Freire é músico, professor e graduando em História na Universidade Estadual do Norte do Paraná.