O patriarcado também aprendeu a usar algoritmos

Quando uma mulher descobre um rastreador escondido em seu carro, em sua bolsa ou entre seus pertences, a primeira reação é o medo. Medo de perceber que seus deslocamentos, sua rotina e seus encontros podem estar sendo monitorados. Medo de não saber há quanto tempo isso acontece. Medo, sobretudo, de não saber quem está acompanhando cada um de seus passos.
Somente depois do susto vem a constatação de que essa vigilância foi possibilitada por dispositivos de geolocalização, aplicativos de monitoramento ou sistemas digitais cada vez mais presentes na vida cotidiana. Mas reduzir esses episódios a um problema tecnológico significa olhar para o fenômeno pela lente errada. A tecnologia não criou formas de violência contra as mulheres; ela ofereceu novos meios para que antigas estruturas de poder continuassem exercendo vigilância, controle e intimidação.
O patriarcado não foi substituído pelos algoritmos. Ele aprendeu a se apropriar deles.
Ao longo da história, o controle sobre os corpos femininos foi exercido por diferentes mecanismos sociais. Durante séculos, a vigilância era realizada pelos próprios parceiros, delimitando espaços de circulação, relações afetivas e possibilidades de autonomia. Na sociedade conectada, esse controle assume novas configurações. Compartilhamento compulsório de localização, exigência de senhas, monitoramento de redes sociais, instalação de aplicativos espiões e o uso de rastreadores físicos passam a integrar práticas de perseguição que, muitas vezes, permanecem invisíveis aos olhos da sociedade.
O instrumento mudou. A lógica permanece.
Como argumenta Pierre Bourdieu (1999), a dominação simbólica se consolida justamente quando relações de poder passam a ser percebidas como naturais. Na cultura digital, práticas frequentemente justificadas como demonstrações de cuidado — pedir a localização em tempo real, exigir acesso às contas pessoais ou acompanhar permanentemente a atividade online da parceira — podem representar mecanismos de controle profundamente assimétricos. O discurso do afeto, nesses casos, mascara práticas de vigilância.
Esse fenômeno torna-se ainda mais complexo porque ocorre em ambientes organizados por sistemas algorítmicos. Como observa Fernanda Bruno (2022), os algoritmos deixaram de ser apenas recursos técnicos para participar da produção de subjetividades, influenciando comportamentos, formas de percepção e modos de organização da vida social. A vigilância digital não depende apenas de quem observa; ela passa a ser mediada por plataformas capazes de registrar, cruzar e disponibilizar continuamente dados sobre nossas rotinas.
Sob a perspectiva da antropossemiótica, essa transformação merece uma reflexão mais ampla. As tecnologias digitais não constituem apenas ferramentas de comunicação. Elas integram a semiosfera contemporânea — conceito desenvolvido por Yuri Lotman (2022) para compreender o espaço cultural onde circulam signos, linguagens e processos de significação. Algoritmos, plataformas digitais, notificações, mapas de localização e bancos de dados passam a produzir sentidos sobre presença, confiança, intimidade e segurança. Quando apropriados para controlar mulheres, esses recursos deixam de ser meros dispositivos tecnológicos e tornam-se signos que reorganizam relações de poder.
É justamente nesse ponto que proponho compreender o surgimento do que podemos chamar de regimes algorítmicos de silenciamento.
Trata-se de formas de controle mediadas por tecnologias digitais que produzem restrições à autonomia sem recorrer, necessariamente, à violência física. A percepção permanente de estar sendo monitorada, modifica comportamentos, limita deslocamentos, produz autocensura e altera a forma como muitas mulheres ocupam os espaços físicos e digitais. O silêncio deixa de ser imposto apenas pela ameaça explícita. Ele passa a ser construído pela vigilância constante.
A violência, portanto, não reside no algoritmo. Ela emerge das relações sociais que se apropriam das tecnologias para reproduzir desigualdades historicamente consolidadas. Como demonstra Lúcia Santaella (2003), a cultura digital reorganiza profundamente as formas de comunicação, interação e produção de conhecimento. Essa reorganização, entretanto, não elimina estruturas de dominação; ao contrário, pode oferecer novos suportes para que elas se reinventem.
Por isso, discutir violência digital de gênero exige ir além da segurança dos dispositivos ou da atualização das leis. Exige compreender que a tecnologia participa da construção de sentidos sociais. Plataformas, algoritmos e sistemas inteligentes não são agentes autônomos, mas elementos de uma cultura que pode tanto ampliar direitos quanto fortalecer mecanismos de exclusão e controle.
O maior desafio talvez não seja impedir que o patriarcado utilize novas tecnologias e, sim, impedir que essas tecnologias continuem naturalizando formas de vigilância que restringem a liberdade feminina sem que sequer sejam reconhecidas como violência.
Enquanto enxergarmos aplicativos, rastreadores e algoritmos apenas como ferramentas neutras, permaneceremos discutindo seus efeitos e ignorando suas condições de apropriação social. Afinal, a inovação tecnológica pode transformar os meios pelos quais nos comunicamos, mas somente a transformação cultural será capaz de romper os regimes de silenciamento que continuam sustentando a violência contra as mulheres.

Referências:
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
BRUNO, Fernanda. Racionalidade algorítmica & subjetividade maquínica. In: SANTAELLA, Lucia (Org.). Simbioses do Humano & Tecnologias: Impasses, Dilemas, Desafios. São Paulo: Edusp/IEA-USP, 2022.
LOTMAN, Yuri M. A semiosfera. São Paulo: Estação Liberdade, 2022.
SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.
 
* Kátia Bizan França é pós-doutoranda na ECA-USP